O PT publicou nesta terça-feira (29), no perfil oficial do partido no X, um vídeo de 1 minuto e 23 segundos que transforma uma fala de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Jesus Cristo em suposto ataque à Igreja Católica. A peça chega a cinco dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e em meio a uma disputa na Justiça sobre os posts que dizem que o candidato quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
O vídeo abre com a declaração de Flávio em agosto: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”. Logo depois, a montagem alterna o rosto do senador com imagens de uma igreja com bancos e objetos revirados, ao som de trilha de suspense. Na publicação, o PT cita o versículo de Lucas 8:17 e escreve: “É chegada a hora da queda dos falsos profetas. A verdade vai prevalecer.”
Em nenhum momento a peça mostra Flávio falando contra Nossa Senhora. A leitura de que a frase dele seria um recado aos católicos vem da jornalista Daniela Lima, do UOL. No programa Pulso Político de segunda-feira (28), ela disse que a fala “soou para a Igreja Católica como um apito de cachorro”, expressão usada para mensagens em código que só um grupo entende. O trecho foi recortado e entrou na propaganda.
A montagem também usa um comentário de Octavio Guedes, da GloboNews, que a própria peça identifica como opinião dada em 2022: “Quem já está fechando a igreja é o fanatismo do bolsonarismo”. Em seguida entram imagens de 12 de outubro de 2022, quando apoiadores de Jair Bolsonaro hostilizaram jornalistas da TV Aparecida no Santuário Nacional. O vídeo termina com o bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, igreja em que Flávio foi batizado, que defendeu em livro retirar de Aparecida o título de padroeira.

A versão de que o próprio Flávio quer mexer no título da santa já tinha sido analisada pela Justiça Eleitoral. Em 25 de setembro, a pedido do candidato, o ministro André Mendonça, do TSE, mandou as plataformas retirarem publicações que apresentam como fato que Flávio ou a família dele propôs, apoiou ou pretende promover a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira. Na decisão, Mendonça reconheceu esse núcleo como “notoriamente inverídico” e fixou multa de R$ 50 mil por dia de descumprimento para cada provedor. A ordem ressalva conteúdo jornalístico, críticas, sátiras e opiniões que não apresentem a história como verdadeira.
No domingo (27), o ministro Flávio Dino, do STF, ex-ministro da Justiça do governo Lula, derrubou a ordem a pedido do humorista Antonio Tabet, que havia publicado que “a família miliciana” resolveu “atacar Nossa Senhora Aparecida”. Para Dino, era impossível enxergar na postagem “o grau de certeza de ilicitude” que justificasse restringir a liberdade de expressão.
Na noite de segunda-feira (28), o ministro Luiz Fux atendeu a um pedido de Flávio e suspendeu a decisão de Dino até o plenário do Supremo julgar o caso. Fux afirmou que a decisão de 27 de setembro “fechou a porta do sorteio e abriu a de um relator” e lembrou que o fato foi reconhecido como falso “pela emissora que o originou”. Ele também perguntou na decisão: “Faz sentido que este Supremo Tribunal Federal determine a veiculação de notícia comprovadamente falsa? Não!”. As plataformas receberam prazo de 24 horas para voltar a cumprir a ordem do TSE.
A emissora citada por Fux é a GloboNews. No dia 24, a comentarista Maria Cristina Fernandes falou em uma mobilização de evangélicos por um projeto de lei para tirar a condição de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte, o canal corrigiu a informação no ar: a proposta foi apresentada em dezembro de 2007 e arquivada pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008. “Nós pedimos desculpas pelo erro”, disse a apresentadora.
Lula levou o tema para a campanha. No programa Canal Livre, da Band, no domingo (27), afirmou que “esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Quando a entrevistadora disse que se tratava de fake news e que a própria emissora tinha pedido desculpas, o presidente respondeu: “Eu não sei que foi fake news” e “o dado concreto é que isso tá na rede social, muito forte”.
Na segunda-feira (28), em comício na Praça da República, em Belém (PA), Lula disse que “enquanto eu for o presidente da República, ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora Aparecida” e ergueu no palco uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré. No mesmo ato, a primeira-dama Janja falou da “terra abençoada por Nossa Senhora de Nazaré”. Nesta terça, em caminhada no Centro de Fortaleza (CE) ao lado do governador Elmano de Freitas, Lula recebeu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e a levantou para o público.
Flávio nega desde 24 de setembro qualquer plano contra a padroeira. Na segunda-feira, no Mercadão de São Paulo, chamou o caso de “a maior fake news dessa campanha” e disse: “Nossa Senhora é a padroeira do Brasil, todos sabem que eu sou evangélico, respeito todas as religiões”.
O plenário do STF ainda vai decidir se vale a decisão de Dino ou a de Fux. Até lá, seguem proibidas as publicações que apresentam como verdade que Flávio ou a família dele quer tirar o título de Nossa Senhora Aparecida.





















