O vídeo foi gravado horas depois da confirmação da morte e começa com um pedido: que parem de escrever o que estão escrevendo. A madrasta do adolescente de 17 anos apontado como responsável pelo ataque que matou a própria mãe, em Jaraguá do Sul, usou as redes sociais para responder à enxurrada de comentários sobre o caso e cobrar empatia com todos os lados de uma família que, segundo ela, está de luto duas vezes.
“Esses comentários machucam a família. A família vê”, disse. Segundo ela, o jovem não é o monstro que os comentários descrevem e estava, no momento do crime, sem os remédios que tomava havia anos.
A alta em fevereiro
O ponto central do relato é uma data. A madrasta afirmou que o adolescente tem diagnóstico de autismo com traços de esquizofrenia, fazia acompanhamento e usava medicação de forma contínua, mas que, em fevereiro deste ano, teria recebido alta de um psiquiatra em Jaraguá do Sul e parado de tomar os medicamentos. Ela diz que a própria família só descobriu isso depois do ataque.
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“Isso a gente ficou sabendo ontem. Não foi erro da mãe dele. Foi erro do médico.”
Para ela, o quadro do enteado não admitia interrupção. “Ele é autista, com traços esquizofrênicos. Isso daí o tratamento é pelo resto da vida. Ele não tinha que ter recebido alta”, disse no vídeo. Em seguida, fez questão de marcar um limite: “Nada justifica o que aconteceu.”
Um dia sem remédio já mudava tudo
O relato também expõe a rotina anterior ao crime. A madrasta contou que, quando o adolescente morava com ela e o pai, um único dia sem a medicação já era perceptível. “Se ele ficasse um dia sem tomar o remédio dele, a gente já via que ele estava diferente.”
Segundo ela, o remédio faltava com frequência e o custo pesava. A família recorria a parentes para comprar porque, conforme seu relato, o medicamento não era fornecido pela rede pública. Nas crises, a tentativa era internar, e também aí a porta estaria fechada: a internação nunca teria sido conseguida pelo SUS, e o atendimento particular era caro demais.
A madrasta afirmou ainda que esteve na delegacia no dia do crime e que o jovem que viu ali não parecia o mesmo. Segundo ela, ele estava em surto psicótico e não se reconhecia.
O luto de dois lados
O luto atravessa o depoimento inteiro. Ela contou que a família fez correntes de oração e acreditou até o último minuto que a mulher sobreviveria, e que estavam no hospital quando a morte foi confirmada. “A gente não está feliz com o que aconteceu. A gente sofreu. A gente está sofrendo.”
No trecho final, o medo. A madrasta disse que o pai do adolescente não larga o telefone desde a apreensão, com receio de receber a ligação de que o filho tirou a própria vida.
Entenda o caso
Meriane Abreu Lima, de 43 anos, morreu nesta sexta-feira (7), no Hospital São José, após três dias internada na UTI. Ela foi atacada na manhã de terça-feira (4), dentro de casa, no bairro Santo Antônio. Conforme a apuração da polícia, a discussão teria começado depois que a mãe pediu que o filho colocasse um casaco.
Segundo a Polícia Militar, quem acionou o telefone de emergência foi o próprio adolescente, que afirmou ter atacado a mãe e disse estar se sentindo pressionado. Ele foi apreendido no local e encaminhado a uma unidade do Departamento de Administração Socioeducativa, o Dease, em Blumenau.
Por ter menos de 18 anos, o adolescente não responde criminalmente como adulto. O caso é tratado como ato infracional, na forma do Estatuto da Criança e do Adolescente, e cabe à Justiça da Infância e da Juventude decidir sobre a medida socioeducativa, ouvido o Ministério Público.
As informações sobre o histórico de tratamento e sobre as tentativas de internação são relato da família e não foram confirmadas oficialmente. O caso segue sob investigação da Polícia Civil. A mulher deixa uma filha menor de idade.


































