A porta se abriu e, antes que qualquer pergunta fosse feita, ela já estava pedindo. A mãe do homem flagrado dando tapas no próprio cachorro na Avenida Martin Luther, no Bairro das Nações, em Balneário Camboriú, recebeu a equipe da Guarda Municipal na tarde desta quinta-feira (20) chorando e repetindo a mesma frase enquanto os agentes explicavam que o animal ficaria fora dos cuidados do filho.
“Pelo amor de Deus, não tire o cachorro dele que ele vai morrer”, disse. Segundo ela, o filho enfrenta um câncer, e foi por causa da doença que o animal chegou à casa. “Ele pegou o cachorro porque ele estava doente.”
Enquanto um agente retirava o casaquinho azul do cão, o mesmo que aparece nas imagens do flagrante, ela insistia. Repetiu o pedido mais de uma vez, sempre pelo mesmo argumento: o cachorro seria, na versão dela, o que mantém o filho de pé. “Se cuide de fazer isso, pelo amor de Deus. Ele cuida bem do cachorro.”
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“Foi hoje só”
Questionada pela reportagem sobre os relatos de que o filho já teria agredido o animal antes, ela negou de forma categórica.
“Ele não agride o cachorro. Foi hoje só. Ele chegou em casa e me contou.”
A versão que ela apresentou é a mesma que o filho daria minutos depois, com uma variação. Segundo a mãe, ele contou em casa que teria escorregado no gramado durante o passeio e perdido o controle da situação naquele momento. “Ele disse que escorregou no gramado. O rapaz também estava passeando”, afirmou, referindo-se ao pedestre que fez o vídeo.
A casa, a caminha e a carteira de vacinação
Com autorização dela, a equipe do Jornal Razão entrou na residência. Foi a própria mãe quem chamou os repórteres para dentro e mostrou o local onde o cachorro fica, para provar o argumento que vinha repetindo desde a chegada da Guarda.
Apontou a caminha, a coleira, os documentos do animal. “Ele tem coleira, ele tem carteira, vacinação, tudo”, listou. Contou que o cão chegou à casa com 40 dias de vida e já está com pouco mais de um ano com a família. Segundo ela, os passeios acontecem duas vezes por dia, na rotina normal do filho.
Ao longo da conversa, ela deixou claro que o vínculo com o animal também é dela. “Também me apeguei com ele”, disse, sem parar de pedir que o cachorro não fosse levado.
O que a mãe pedia e o que a lei prevê
Enquanto ela argumentava, os agentes explicavam a decisão. O filho seria conduzido à delegacia para prestar depoimento, e o cão não continuaria sob a guarda dele. O próprio homem, ao ser abordado, confirmou a agressão e atribuiu o episódio ao estado de saúde: “Eu fiquei nervoso na hora porque eu estou com problema sério de saúde. E quando eu vi eu me descontrolei com o cachorrinho”. Leia a entrevista completa com o dono do animal.
Ele também demonstrou o mesmo temor que a mãe verbalizava na porta de casa. “Meu Deus, se ele sair de perto de mim, eu sei o que vai acontecer comigo”, disse à reportagem.
A lei, no entanto, não abre exceção por vínculo afetivo. Quando a vítima é um cão ou um gato, a Lei nº 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão, prevê reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda do animal. A base é a Lei Federal nº 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais, cujo artigo 32 pune abuso, maus-tratos, ferimento ou mutilação de animais.
A prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan, que acompanhou a ação, respondeu de forma direta ao argumento do descontrole apresentado pela família. “Tem que procurar tratamento. Agredir cachorro, isso não é desculpa. Agredir animais, isso não é desculpa”, afirmou. “Se você não tem controle da situação, então que você não tenha um animal em casa.” Leia a entrevista completa com a prefeita.
Entenda o caso
O flagrante foi feito por um pedestre na manhã desta quinta-feira, na Avenida Martin Luther. No vídeo, o homem aparece parado com o cachorro na coleira, desfere um tapa contra o animal e o puxa pela guia para seguir caminhando. Segundo quem filmou, antes de a câmera ser ligada ele teria dado socos e pontapés no cão.
As primeiras denúncias chegaram ao serviço de inteligência da Guarda Municipal por volta das 10h. Em menos de cinco horas, o dono foi identificado e conduzido à Polícia Civil, que agora conduz a apuração. O cachorro ficou fora dos cuidados dele.
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