Foram 168 horas em cima de uma esteira. Sete dias dormindo poucas horas em uma barraca montada atrás do equipamento, no meio do Shopping Beira Mar, em Florianópolis. Quando desceu, Débora Simas, de 55 anos, tinha percorrido 866 quilômetros, e conquistado o novo recorde mundial feminino de corrida em esteira na categoria de sete dias.
A marca coroa uma perseguição que durou sete anos. “Eu tinha treinado muito, tinha feito tudo que podia fazer para esse recorde acontecer, só que não era o momento”, lembra ela sobre a primeira tentativa, em 2019, quando ficou com o recorde sul-americano, mas viu o mundial escapar. “Quando eu desci daquela esteira, eu disse: não, eu cheguei muito próximo, eu sei que é possível.”
A ideia nasceu por influência de um amigo, o ultramaratonista Márcio Vilar, então detentor da marca brasileira em esteira. Foi ao pesquisar os recordes masculinos que Débora descobriu a existência de uma marca feminina e decidiu ir atrás dela. O primeiro teste veio em 2018, na prova 1000KM Brasil, organizada pelo próprio Vilar: dez dias de corrida fracionada, exposta a sol e chuva, bem diferente do ambiente controlado de um shopping. Débora venceu a prova e se tornou a primeira mulher a completar mil quilômetros no Brasil.

Na tentativa que finalmente deu certo, a estratégia começou pela cabeça. “Eu botei uma coisa na minha mente: quando eu subisse naquela esteira, o Shopping Beira Mar ia ser minha casa por sete dias”, conta. E foi literal. Ela dormia em uma barraca atrás da esteira, ao lado de Magda, integrante da equipe responsável por monitorar suas reações durante o sono.
O público virou combustível. Débora fez questão de tratar cada visitante do shopping como convidado. “Eu quero estar plena para receber todo mundo, não quero passar nem um momento sentindo dor, sofrimento, para essas pessoas que vão vir me visitar”, diz. As crianças formaram uma torcida à parte, chamavam de tia Débora, tia Débia, tia Débi. “A energia da galera que foi lá no shopping me impulsionava cada vez mais para fazer mais e mais quilômetros.”

A dor, claro, apareceu. “É impossível ficar sete dias em cima de uma esteira e não sentir dor. Tinha momentos que era demais”, admite. “Mas a minha felicidade era tanta que parecia que era um rio de energia que passava no meu corpo e levava aquela dor para longe.” Na bancada ao lado da esteira, imagens de Nossa Senhora Aparecida e de outros santos completavam a proteção.
A operação por trás do recorde envolveu cerca de 180 pessoas só na equipe direta, revezando-se para acompanhar cada quilômetro. “Chega um momento dessa jornada que não era mais só o meu sonho. Era muita gente envolvida”, afirma a atleta, que morou em Florianópolis por 26 anos e é figura conhecida no circuito de corrida da capital. Um amigo de treinos brinca que correr ao lado dela na Beira-Mar era garantia de água e fruta em todas as barracas de assessoria esportiva, “ela é amiga de todas as assessorias, a gente não passa nem sede, nem fome”.

Sobre o futuro, Débora descarta a próxima categoria da tabela de recordes em esteira, a de 30 dias. “Primeiro que eu vou chegar lá no shopping e vão me barrar. E 30 dias eu vou perder todos os meus amigos, porque depois a gente vai tudo pro hospício”, diverte-se. “Mas tem desafio novo para vir. Só que não vai ser esteira, pode ficar tranquilo.”
O recado que ela deixa vale para quem nunca correu um quilômetro sequer. “Não precisa ser uma Débora Simas e ficar sete dias correndo numa esteira. Faça seu um quilômetro, cinco quilômetros, mas se movimente. Saia do sofá, saia das telas, faça alguma atividade física, porque isso vai te dar longevidade. O esporte salva.”

























