“Eu só queria salvar a vida dela. Eu não me importava o que ia acontecer, o como ia acontecer.”
Foi assim que Márcia resumiu os segundos em que deixou de pensar na própria segurança para lutar pela vida de uma amiga. O que deveria ser apenas mais um dia de trabalho no centro de Penha, no Litoral Norte de Santa Catarina, transformou-se em uma cena de desespero, coragem e união.
A colega havia acabado de ser atacada pelo ex-companheiro dentro do banheiro do estabelecimento onde trabalhava. O homem estava armado com uma faca. A vítima gritava que havia sido atingida, enquanto Márcia tentava impedir que o agressor continuasse o ataque.
Em entrevista concedida ao Marisco News, Márcia contou que, inicialmente, não imaginava a gravidade do que estava acontecendo.
“Quando eu vi que ele entrou no banheiro, eu não esperava que ia acontecer tudo isso. Achei que ele só queria dar um susto nela. Mas, quando ela gritou que tinha tomado uma facada, eu só levantei as mãos para o céu e pedi para Deus fazer a vontade dele e assumir esse controle da situação.”
Ataque aconteceu durante o expediente
Segundo as informações apuradas sobre o caso, a separação entre a vítima e o ex-companheiro tinha menos de um mês. O homem entrou no estabelecimento comercial armado com uma faca e foi em direção à trabalhadora.
Durante a perseguição, ele escorregou. Os poucos segundos foram suficientes para que a mulher corresse e se trancasse no banheiro. O agressor, porém, chutou a porta até a madeira ceder e conseguiu entrar.
Dentro do banheiro, a vítima foi atingida por uma facada na região das costas. O golpe perfurou o pulmão.
Foi ao ouvir o grito da amiga dizendo que havia sido esfaqueada que Márcia decidiu intervir. Em meio a empurrões, ela conseguiu agarrar e puxar o braço armado do agressor para fora do banheiro.
“Eu gritei para ele tirar a faca. Eu consegui puxar a mão dele para fora, foi muita briga. Ele empurrava para dentro, e eu puxava para fora.”
Márcia afirma que encontrou na fé a força necessária para enfrentar um homem armado sem saber se também seria atacada.
“Não fui eu, foi Deus, foi meu Pai que tomou conta da situação. Foi Ele que me deu força na hora para eu poder puxar a mão dele para fora.”
“Ela sempre foi muito gentil”
Ao falar sobre a amiga, Márcia descreveu uma mulher querida, carinhosa e brincalhona. Durante toda a ação, segundo ela, havia apenas um pensamento: impedir que a colega morresse.
“É muito querida, muito querida, muito brincalhona. Ela sempre foi muito gentil, sempre foi muito carinhosa, brinca o tempo todo. Então, assim, eu só queria salvar a vida dela.”
Enquanto Márcia e outra colega lutavam para retirar o agressor do banheiro, os pedidos de socorro chegaram até a rua. Um homem em situação de rua, conhecido em Penha como Papai Noel e apresentado como ex-bombeiro voluntário, ouviu os gritos e correu para ajudar.
Ele ordenou que o agressor soltasse a faca, conseguiu retirar a arma e o imobilizou até a chegada da Polícia Militar.
“Ele falou que queria matar ela, que tomara que ela morresse. Eu falei: ela não vai morrer.”
Vítima permanece internada em Itajaí
A mulher foi atendida pelo SAMU e levada inicialmente ao Pronto Atendimento de Penha. Devido à gravidade do ferimento, precisou ser transferida com urgência para o Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, onde permanece internada.
Aldevan de Lima Silva, natural da Paraíba, foi preso em flagrante. Conforme as informações repassadas sobre a ocorrência, ele teria confessado que foi ao estabelecimento com a intenção de matar a ex-companheira. O caso é tratado como tentativa de feminicídio.
Márcia também agradeceu aos agentes de trânsito de Penha, que permaneceram no local e ajudaram a garantir a segurança dos trabalhadores até a chegada da Polícia Militar.
“Muitas vezes são criticados devido ao trabalho que têm que cumprir, fazer valer a lei. E ontem fizeram mais do que podiam. Estavam aqui preservando a vida da nossa comunidade.”
Naquele dia, uma mulher descobriu que não tinha apenas colegas de trabalho. Tinha amigas dispostas a enfrentar o medo e lutar para que ela continuasse viva.
Márcia não se apresenta como heroína. Ao recordar o momento em que segurou o braço do agressor, atribui a coragem à própria fé. Para a amiga que sobreviveu, porém, aquela atitude pode ter representado a diferença entre a vida e a morte.




































