Um bebê de 45 dias chegou ao Hospital Cirúrgico Camboriú (HCC) na tarde de quarta-feira (12) com uma reação alérgica depois de tomar fórmula infantil. Horas depois, a criança estava morta no Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí, e o próprio prontuário do primeiro atendimento registra um dado que virou o centro da apuração: a administração de medicamento em quantidade superior à que o médico havia prescrito.
A informação consta em nota oficial divulgada pela Secretaria Municipal de Saúde de Camboriú nesta quinta-feira (13). A família, ouvida pela reportagem do Jornal Razão, registrou boletim de ocorrência na Polícia Militar e cobra explicações sobre o que aconteceu dentro do hospital, que é público e pertence ao próprio Município.
Segundo o relato da família, a criança começou a passar mal logo depois de ingerir a fórmula e foi levada imediatamente ao HCC. No atendimento, o médico teria prescrito adrenalina e dexametasona. A mãe, ainda conforme a família, chegou a questionar a dosagem e o motivo de dois medicamentos, e teria ouvido da equipe de enfermagem que seria aplicada uma dose pequena de adrenalina.
Foi logo após a aplicação que o quadro virou. De acordo com a família, o bebê começou a chorar e “ficou roxo”. A profissional teria saído correndo para chamar o médico, que pegou a criança e a levou para outra sala. A partir dali, a mãe não teve mais acesso ao filho até ser informada de que ele seria transferido para o Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí.
A transferência foi feita em caráter de emergência por uma ambulância do SAMU, com a mãe acompanhando o deslocamento. Segundo o relato do pai, o bebê teria sofrido duas paradas cardiorrespiratórias ainda dentro da ambulância e uma terceira ao dar entrada no hospital de Itajaí. A equipe médica realizou manobras de reanimação, mas o óbito foi constatado.
O que diz a nota oficial
Na nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Camboriú informa que a criança deu entrada no HCC já com alterações clínicas relevantes, entre elas saturação de oxigênio de 78%, e que durante o atendimento houve prescrição médica de medicamentos para tratar o quadro alérgico.
O ponto mais grave do documento vem na sequência:
“Os registros constantes do próprio prontuário apontam, entretanto, para a administração de quantidade de medicamentos superior àquela efetivamente prescrita. A circunstância está sendo formalmente apurada, não havendo, neste momento, conclusão técnica sobre suas consequências clínicas ou eventual relação com o desfecho posterior.”
Ainda segundo a Secretaria, após a identificação da intercorrência foram adotadas medidas de suporte e monitoramento, com acionamento do SAMU. Conforme os registros do HCC, no momento da transferência a criança estaria hemodinamicamente estável. A pasta ressalta que, até agora, não existe conclusão técnica que estabeleça relação de causa e efeito entre a medicação aplicada acima da prescrição e a morte do bebê, e que a definição das causas depende da análise integral da evolução clínica, incluindo o atendimento posterior em Itajaí.
Assim que soube do caso, por volta das 21h30, o secretário municipal de Saúde interino, Henrique Manoel Alves, foi pessoalmente ao hospital para acompanhar a situação junto à direção. A Secretaria notificou formalmente a administração do HCC, em caráter de urgência, exigindo a cronologia completa dos fatos, a identificação das equipes envolvidas, os procedimentos adotados e os protocolos de segurança utilizados. Também determinou a preservação integral de prontuários, documentos e registros assistenciais, e afirma que adotará as medidas administrativas, contratuais e assistenciais que se mostrarem necessárias após a análise técnica.
Hospital é do Município e vive gestão emergencial
A morte do bebê atinge um hospital que hoje é patrimônio público de Camboriú. Desde julho de 2025, o HCC pertence oficialmente à Prefeitura, que comprou o complexo hospitalar por R$ 9,6 milhões em acordo judicial intermediado pelo Ministério Público de Santa Catarina, encerrando um processo que tramitava desde 2017 por causa da insolvência da antiga fundação que administrava a unidade e evitando que o prédio fosse a leilão. O hospital atende uma cidade de mais de 100 mil habitantes, em que cerca de 91% da população depende do SUS.
Desde a municipalização, a operação do dia a dia vem sendo repassada a organizações sociais em contratos emergenciais. A Associação Hospitalar do Brasil (AHBR) assumiu a gestão em 27 de fevereiro deste ano, após o fim do contrato de 180 dias da entidade anterior, ficando responsável por pronto-socorro, cirurgias, recepção e manutenção, praticamente toda a operação da unidade. O termo de colaboração prevê repasse mensal de cerca de R$ 2,98 milhões e tem vigência até 26 de agosto, ou seja, o contrato da atual gestora vence ainda neste mês. Em dezembro do ano passado, trabalhadores do hospital chegaram a protestar por atraso no pagamento de salários, o que afetou cirurgias eletivas e exames.
Na prática, é essa configuração que explica o alcance das medidas anunciadas pela Secretaria: a estrutura é pública e municipal, enquanto a AHBR responde pela organização dos serviços e pela gestão das equipes assistenciais que atenderam o bebê.
Frente a frente com a direção
A família relatou à reportagem que se reuniu com a direção do Hospital Cirúrgico Camboriú para tentar entender o que aconteceu. Segundo esse relato, os diretores informaram que a criança saiu da unidade estável e que a aplicação de adrenalina faz parte do procedimento em casos de alergia, mas admitiram que a dosagem precisava ser esclarecida. Ainda de acordo com a família, a diretora pareceu sem informações durante a conversa e não apresentou respostas concretas. O prontuário completo, segundo o que foi informado aos familiares, só seria disponibilizado nesta quinta-feira (13).
Orientada pela equipe médica do hospital de Itajaí, segundo o relato do pai, a família registrou boletim de ocorrência para que seja investigada a suspeita de erro na dosagem do medicamento. O caso segue sob apuração, e a Secretaria Municipal de Saúde afirma que continuará prestando informações à medida que novos elementos técnicos forem oficialmente confirmados.
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