O que começou como uma medida desesperada para manter as portas abertas durante um período de doença grave transformou-se em uma espiral de endividamento e destruição pessoal. A história da empreendedora Tatiane Fernandes, de Joinville, no Norte de Santa Catarina, reflete o perigo do crédito informal e acende um alerta sobre os riscos da agiotagem.
Em um passado recente, o cenário de Tatiane era de prosperidade. Ela comandava uma loja física, mantinha equipe de funcionários e registrava um faturamento mensal expressivo entre R$ 100 mil e R$ 135 mil, impulsionado principalmente pelas vendas efetuadas durante transmissões ao vivo na internet. No entanto, a estrutura do negócio ruiu quando ela adoeceu gravemente e precisou manter o estabelecimento fechado por cerca de um mês a um mês e meio.
“Eu estava com a loja aberta, funcionária, aluguel, água, luz e adoeci”.
A porta de entrada para o endividamento
Sem a entrada de novas receitas, a pressão das despesas fixas da empresa e de casa permaneceu inalterada. Aluguel, salários, fornecedores e contas básicas acumularam-se rapidamente. Sem alternativas imediatas no sistema bancário tradicional, Tatiane buscou socorro financeiro no mercado informal pela primeira vez para honrar os compromissos mais urgentes.
O alívio temporário, porém, deu lugar a uma armadilha recorrente. No mês seguinte, sem capital para repor o estoque e com parcelas de empréstimos cobradas em prazos curtos, ela se viu forçada a recorrer a novos agiotas. Em menos de cinco meses, a empresária já havia pegado dinheiro emprestado com três ou quatro credores diferentes. A dívida inicial, que somava aproximadamente R$ 20 mil, foi engolida por taxas desproporcionais e pela incidência de juros sobre juros, atingindo a marca de R$ 100 mil.
“Trabalho só pra pagar eles”.
O preço da sobrevivência e a perda de bens
Durante cerca de dois anos, a empreendedora conseguiu manter a quitação das parcelas em dia, mas o custo da manutenção do esquema tornou-se insustentável. Para honrar os pagamentos, Tatiane perdeu a loja física, o carro, os fornecedores e viu seus relacionamentos pessoais serem profundamente abalados pelas consequências da crise financeira.
A rotina de trabalho tornou-se extrema: jornadas de domingo a domingo, com poucas horas de sono por noite. Atualmente, ela opera o negócio a partir de casa, trabalhando sozinha e sem estrutura de apoio. Grande parte dos valores obtidos com as vendas ativas continua destinada ao pagamento de juros e amortizações, a ponto de, em determinados momentos, faltar recurso para o sustento básico diário.
“Não peguem dinheiro com agiota”.
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O alerta público e a lei brasileira
Diante do colapso e do processo de reconstrução do próprio sustento, Tatiane decidiu expor publicamente o seu relato nas redes sociais com o objetivo de conscientizar outros empresários e pessoas físicas a não recorrerem a empréstimos informais, independentemente da gravidade do momento.
Vale ressaltar que a cobrança de juros excessivos por pessoas não autorizadas pelo Banco Central configura crime de usura no Brasil (Lei nº 1.521/1951), popularmente conhecido como agiotagem. Além da ilegalidade das taxas cobradas, a prática frequentemente desdobra-se em outras infrações penais quando há o emprego de ameaças, constrangimento ilegal ou extorsão para a cobrança dos valores cobrados.














