Filho de um gari de Joinville e de uma lavradora analfabeta, o ex-vereador Levi Rioschi (Avante, nº 7022) esteve nos estúdios do Jornal Razão para falar de sua candidatura a deputado federal em Santa Catarina. Na entrevista a Kaiann Barentin, ele revelou ter sido alvo de uma nota de repúdio da executiva do PL em Barra Velha quando lançou a ideia de disputar o Senado em 2025, classificou a atuação do governo federal na BR-280 como uma “ação de vingança”, disse não ver hoje “um deputado bater na mesa” pela região norte do estado e defendeu as emendas parlamentares, desde que distribuídas por edital e fiscalizadas.
FILHO DE GARI, CARTEIRA ASSINADA AOS 14 E A FORMAÇÃO DE UM CANDIDATO
Levi Rioschi abriu a conversa com Kaiann Barentin apresentando a própria biografia. Natural de Joinville, ele completa 53 anos em 29 de agosto e é filho de dona Itelvina, hoje com 85 anos. Perdeu o pai aos 14 anos. Servidor da prefeitura de Joinville, o pai fazia a limpeza urbana em uma época em que, segundo Rioschi, o serviço não era terceirizado. A morte precoce empurrou o adolescente para o mercado de trabalho: “registrei minha carteira com 14 anos de idade, foi numa panificadora”, contou, lembrando a Panificadora União, na zona sul da cidade.
De lá, disse, não parou mais. Passou por grandes empresas de Joinville, foi representante de classe na escola e depois se envolveu com associações de moradores, conselho de saúde e conselho de segurança. É formado em gestão pública e afirma ter sido secretário parlamentar em Brasília por cinco anos, experiência que apresenta como credencial. “O Levi é o amigo do povo”, resumiu, recuperando um slogan antigo de campanha: “Levi é o agente da comunidade, essa é a nossa identidade”.
Kaiann Barentin lembrou a trajetória eleitoral do candidato: vereador eleito em Joinville em 2012 com 3.301 votos, nova tentativa de reeleição sem o mesmo desempenho e uma candidatura a prefeito na maior cidade do estado. Sobre a queda de votos, Rioschi rejeitou procurar culpados. “Eu sempre, quando ganhei ou quando perdi uma eleição, nunca procurei culpados. O resultado é soberano, ele é através do voto”, disse, ponderando em seguida que “a gente tem que ter observância dos números”.
“LIGOU PARA BRASÍLIA, TEM QUE SER ATENDIDO”: A BANDEIRA DA DESBUROCRATIZAÇÃO
Questionado sobre o que ainda não realizou na política, o candidato colocou a desburocratização e o “destravamento” do serviço público como razão central da candidatura. Segundo ele, a dificuldade de comunicação entre poder público e cidadão atinge desde o trabalhador comum até o grande empresário, e se repete na Câmara Federal, na Assembleia Legislativa e nos municípios.
Rioschi citou um dos anúncios que afirma ter elaborado para a campanha: “Ligou para Brasília, tem que ser atendido, e na hora”. Ele evitou listar promessas específicas: “se eu for aqui elencar vários itens, pode ser que talvez no meio da caminhada eu possa não cumprir”, ressalvou, dizendo preferir se comprometer com o atendimento direto e com a resposta às demandas da população.
O candidato afirmou ainda que Santa Catarina precisa de “uma modificação da representatividade”. Contou que, na eleição passada, votou em um deputado federal e depois o procurou por uma demanda coletiva, sem sucesso. “Eu nunca falei mal de nenhum” dos 16 deputados federais catarinenses, ponderou, mas disse sentir que “a Câmara Federal deve restabelecer a sua credibilidade”, citando o artigo 1º da Constituição para lembrar que “o poder emana do povo”.
DO PP AO AVANTE: “CAMINHANDO NA ALA DIREITA”, MAS SEM RADICALISMO
Kaiann Barentin apontou que o candidato já passou por PP, PPS, Democracia Cristã e PL antes de chegar ao Avante. Ponderou também que a troca de legendas deixou de ser demérito no país, citando o próprio Jair Bolsonaro como exemplo de quem migrou várias vezes. Rioschi respondeu que respeita todos os partidos e seus dirigentes e que nenhuma das saídas foi motivada por atrito com os pares.
Sobre ideologia, foi direto: “eu hoje me sinto caminhando na ala direita, nós temos essa convicção”, ainda que, na avaliação dele, isso não signifique radicalismo. O candidato defendeu uma reforma política ampla e até uma reforma partidária e cravou a frase que sintetiza sua leitura do mandato: “o cidadão que tem mandato é um servidor público, e não um senhor público”. Também lamentou que o Brasil ainda não permita candidatura independente, fora da estrutura partidária.
A RUSGA COM O PL: PRÉ-CANDIDATURA AO SENADO E NOTA DE REPÚDIO
O momento mais tenso da entrevista veio quando Kaiann Barentin cobrou explicações sobre a saída do PL, partido pelo qual Rioschi chegou a anunciar em 2025 uma predisposição a disputar o Senado por Santa Catarina. O candidato admitiu que “pensar alto” custou caro. Segundo ele, faltou apoio, não da executiva estadual, mas da executiva municipal de Barra Velha.
“Quando coloquei o nome, eu pensei em ser candidato ao Senado, eu sofri uma represália muito forte, até com uma nota de repúdio”, afirmou. A versão é dele; o partido não foi ouvido na conversa. Kaiann Barentin ponderou que se trata de um contrassenso, já que um partido deveria incentivar candidaturas, e lembrou o caso do PSD, que não fechou chapa completa. Para ele, é sinal de que está ficando difícil encontrar bons nomes dispostos a se colocar à disposição.
Rioschi concordou e generalizou o episódio: “quando uma pessoa dentro de um partido, que tem uma liderança, que já teve mandato e que tem o desejo de continuar a sua representatividade, é tolhida dessa maneira, isso aí é desmotivar as boas pessoas a continuarem na política”. E completou: “que não se cerceie o direito de ninguém de concorrer a uma eleição. Afinal, nós vivemos em uma democracia”. Hoje filiado ao Avante, disse ter sido acolhido pela direção da nova legenda e resumiu: “é uma pena que naquele momento não fui valorizado pela executiva do PL em Barra Velha”.
BR-280 COLAPSADA E A ACUSAÇÃO DE “AÇÃO DE VINGANÇA” DO GOVERNO FEDERAL
Ao ser questionado sobre a infraestrutura catarinense e as rodovias congestionadas, o candidato reconheceu o colapso das estradas e elogiou o governador Jorginho Mello (PL), citando o programa de recuperação de estradas do governo estadual como “um trabalho de excelência” na mobilidade. A crítica dele foi endereçada a Brasília.
Rioschi disse ficar triste quando um ministro dos Transportes vem a Santa Catarina inaugurar “talvez poucos quilômetros de uma duplicação” na BR-280, rodovia que corta o norte catarinense a partir de São Francisco do Sul, passando por Araquari. “Eu vejo uma ação do governo federal que parece uma ação de vingança, uma ação de ódio. O governo não deve fazer isso”, afirmou. A avaliação é opinião do candidato, não fato apurado. Ele defendeu uma aproximação entre o estado e a União e lembrou que a distância entre Santa Catarina e a capital federal é de cerca de 1.500 quilômetros. “Toda vida que líderes se afrontam por vaidade, por ego, quem perde é a população”, disse, propondo-se a ser “um deputado que possa trazer a pacificação e buscar o recurso”.
SAÚDE E EMENDAS: “NÃO VEJO NENHUM MAL”, MAS COM EDITAL E FISCALIZAÇÃO
Ex-presidente da comissão de saúde da Câmara de Joinville, Rioschi contou que cobrou do secretário municipal um planejamento que mostrasse o staff disponível, o que a pasta tinha a oferecer e onde estavam as dificuldades. Era, segundo ele, uma forma de pressionar o Executivo. No período, afirma ter dialogado com outras prefeituras e ido ao Ministério da Saúde, em Brasília.
Sobre as emendas parlamentares, alvo de críticas e de questionamentos no Judiciário, foi favorável com ressalva: “eu não vejo nenhum mal sobre as emendas; elas precisam, de fato, ser fiscalizadas e destinadas para aquele setor”. Kaiann Barentin citou o modelo adotado por deputados estaduais como Matheus Cadorim (Novo) e Mário Motta, que abrem editais e chamamentos para que entidades apresentem propostas. Rioschi endossou o mecanismo: “esse modelo do edital é bem importante, porque ele se torna transparente para o destino desse recurso”. Questionado diretamente se Cadorim acertou, respondeu: “nesse caso dos editais, sim”.
O candidato ligou a transparência à crise recente do orçamento secreto, citando o ministro Flávio Dino, do STF, lembrado por Kaiann Barentin como relator do tema, e sua atenção à distribuição das emendas. Como deputado, disse que pretende consultar a população em plenárias, além de prefeituras e câmaras municipais, para definir o destino dos recursos, sempre com a função primeira do parlamentar em vista: fiscalizar as ações do governo federal.
COLIGAÇÃO COM JORGINHO MELLO E O AVANTE DE AUGUSTO CURY NA PRESIDÊNCIA
Rioschi disputa pelo Avante, que integra a coligação de Jorginho Mello ao governo do estado, cenário em que a pesquisa Quaest, encomendada pela NSC e citada por Kaiann Barentin, aponta vitória no primeiro turno. O candidato chamou Jorginho de “melhor governador do Brasil” e cumprimentou Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville, hoje candidato a vice na chapa, afirmando que ele foi “eleito e reeleito com mais de 80% de aprovação”, número apresentado por ele, sem fonte citada na conversa. Também saudou a vice-governadora Marilisa Boehm, que, segundo Rioschi, assume agora o governo.
Kaiann Barentin ponderou que o peso de Joinville não é apenas demográfico: Jorginho já buscou a vice na cidade em 2022 e repetiu a fórmula com um nome de “mais envergadura”, lembrando que Adriano Silva assumiu e cumpriu o compromisso de estadualizar a folha do Hospital Municipal São José, que consumia parte relevante do orçamento municipal. Rioschi recorreu à memória do ex-governador Luiz Henrique da Silveira, que, segundo ele, dizia que “quando abre as urnas de Joinville, todos ficam naquela expectativa”.
Sobre o presidenciável do próprio partido, o escritor Augusto Cury, em evidência nas redes após o primeiro debate, o candidato foi elogioso: “o Brasil tem muito a ganhar com o conhecimento que tem o doutor Augusto Cury”, disse, citando o mote de campanha “o Brasil tem Cury”, ao mesmo tempo em que reafirmou estar na coligação estadual do PL com Jorginho Mello.
“NÃO VEJO UM DEPUTADO BATER NA MESA”: A COBRANÇA À BANCADA DO NORTE
Provocado por uma pergunta que o próprio Kaiann Barentin classificou como desconfortável, já que Joinville tem deputados estaduais e federal mas parte do público se diz “órfã de representação”, Rioschi fez a crítica mais dura da entrevista, sem citar nomes. Ele disse ver “alguém que usa da estrutura do mandato para um benefício próprio” e alguém que “às vezes chora diante de uma câmera por situações que dizem respeito à vida pessoal dele”.
“Eu não vejo um deputado bater na mesa para defender a melhoria da economia no nosso país. Não consigo ver um deputado que bate na mesa para a questão da mobilidade, do trânsito”, afirmou, referindo-se especificamente à região de Joinville e ao norte catarinense. Para ele, há hoje “um jogo de vaidades” e “pessoas se afrontando entre si” em vez de debate sobre economia, segurança pública, mobilidade e saúde, enquanto cidadãos seguem com cirurgias eletivas travadas e exames de alta complexidade na fila. “Nós merecemos um pouco mais de atenção. Nós merecemos um pouco mais de respeito”, completou. As avaliações são do candidato; nenhum parlamentar foi nomeado ou ouvido.
FEMINICÍDIO, SAÚDE MENTAL E FÉ: “LEIS NÓS TEMOS MUITAS, O QUE FALTA É FISCALIZAÇÃO”
Kaiann Barentin puxou o tema da crise moral a partir de um caso noticiado recentemente pelo Jornal Razão: um homem que, ao não aceitar o fim do relacionamento, matou a ex-companheira e o namorado dela antes de tirar a própria vida. Cristão evangélico, Rioschi respondeu recorrendo aos ensinamentos do pai: sucesso na vida vem “através do trabalho, do respeito às pessoas e do temor a Deus”.
Ele anunciou como projeto a fiscalização severa no combate ao feminicídio. “Leis nós temos muitas, mas o que falta é uma fiscalização”, disse, citando as medidas protetivas e a Lei Maria da Penha, norma cuja importância, ponderou Kaiann Barentin, chegou a ser questionada recentemente, e que ele considera intolerável relativizar, lembrando que a violência contra a mulher não se resume à agressão física. O candidato disse defender o empoderamento feminino e homenageou a mãe, dona Itelvina, afirmando ser pai de uma filha e casado.
Rioschi acrescentou um segundo projeto: saúde mental desde a iniciação escolar. Para ele, fé e ciência não apenas podem como devem caminhar juntas, assim como política e religião devem ser discutidas. “Respeitar pai e mãe, dar um bom dia, perguntar como vai, aquele muito obrigado, no que posso ajudar, essas frases estão faltando hoje nas nossas vidas”, afirmou, ressalvando não ser saudosista: “somos modernos e atuais”.
“O MELHOR GABINETE DE UM DEPUTADO FEDERAL É NAS RUAS”
Lembrado por Kaiann Barentin de que Santa Catarina tem quase 300 municípios com realidades distintas, e de que há prefeito que só governa se for a Brasília atrás de emenda ou convênio, o candidato resgatou a proposta de “prefeitura itinerante” que apresentou quando disputou a prefeitura de Joinville e a transpôs para o mandato federal. “O melhor gabinete de um deputado federal é nas ruas, conversando com a população”, disse, prometendo percorrer o estado, ouvir prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, comerciantes e associações.
No encerramento, olhando para a câmera, Rioschi pediu voto e voltou à origem: “aqui está o filho de um gari, aqui está o filho de uma mulher que trabalhou na lavoura, analfabeta, mas que cuidou dos seus filhos”. Disse se sentir preparado “pela vivência e pela convivência em sociedade” e afirmou que o que o move é “ver a transformação de muitas pessoas através da política”, com trabalho não apenas em período eleitoral. Lembrou ao eleitor que deputado federal é o primeiro voto na urna e repetiu o número: 7022, pelo Avante. Ao final, Kaiann Barentin agradeceu a franqueza da conversa e desejou boa jornada de campanha.























