Blumenau (SC) teve o seu 1º Festival Cultural Paraense. Organizada pelo Bistrô Pai D’égua, a festa reuniu uma multidão ao ar livre, com barracas de comida típica, música e grupos de dança do Norte, e repercutiu nas redes sociais. De um lado, quem esteve na festa pediu nova edição e comemorou ver a cultura do Pará celebrada na cidade mais alemã do Brasil. Do outro, moradores reclamaram de comida cara, de programação sem horário divulgado e de “música barulhenta”, e parte dos comentários questionou a própria existência de um dia dedicado aos paraenses na cidade.
Nas redes, a festa circulou como o “Dia do Paraense em Blumenau”. A referência é ao 15 de agosto, data que passou a integrar o calendário oficial do município por lei aprovada pela Câmara de Vereadores e sancionada em 2025, a partir do Projeto de Lei 9336/2025, do vereador Jean Volpato (PT), que acrescentou a data ao artigo 25 da lei municipal que organiza o calendário da cidade. O dia é o mesmo em que o Pará comemora a Adesão à Independência do Brasil, e 2026 é o primeiro ano em que a data vale oficialmente em Blumenau.
Ao defender a criação da data, Volpato definiu o Dia do Paraense como “o reconhecimento do trabalho, da cultura e do afeto dessa comunidade paraense” que vive na cidade. Santa Catarina virou um dos principais destinos de quem deixa o Pará atrás de emprego, e essa comunidade já ocupa espaço na economia e na vida cultural das cidades catarinenses. O próprio Bistrô Pai D’égua nasceu desse movimento: aberto em 2023 na Rua General Osório, no bairro Água Verde, o restaurante serve tacacá, maniçoba e vatapá e ficou conhecido por promover eventos com artistas nortistas.
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Pelo relato de quem foi, o festival teve grupos de dança logo depois do almoço, música ao longo da tarde e da noite e barracas de comida típica. O DJ Joelson, que participou do evento, publicou um agradecimento à organização e ao público: “O 1º Festival Cultural Paraense de Blumenau foi um sucesso total!”. Ele agradeceu a quem “compareceu, prestigiou, cantou, dançou e fez dessa festa um momento inesquecível” e resumiu o que viu: “Foi lindo ver a nossa cultura paraense sendo celebrada em Blumenau”. Nos comentários, houve quem pedisse bis: “Muito bom, precisa repetir”.
A primeira frente de reclamação foi a comida. “A gente quer prestigiar, mas não colaboram. Música tava boa, mas as comidas caras deixaram muito a desejar na qualidade, infelizmente”, escreveu uma frequentadora no perfil do Bistrô.
Outra moradora foi à festa esperando música nortista e encontrou pagode no fim da tarde. “No horário da tarde das 16:00 as 19:00 só tocou pagode, achei que iria trocar só música nortista. Pagode tem em qualquer evento em Blumenau”, reclamou. Segundo ela, os grupos de dança se apresentaram logo depois do almoço, “não tinha divulgação da programação” e muita gente chegou mais tarde, no horário em que o blumenauense costuma sair de casa, e perdeu as apresentações. “Queria tanto ter visto e não consegui”, escreveu. Um terceiro resumiu a noite em poucas palavras: “Música ruim, barulhenta… so isso”.
Em outra parte dos comentários, o alvo deixou de ser a festa e passou a ser o motivo de ela existir. “Qual a finalidade desse ‘dia do paraense em Blumenau’???”, perguntou um internauta. Alguém respondeu que “o nome era autoexplicativo”, e o autor da pergunta encerrou: “Política, entendi”. A ligação da data com um vereador do PT alimentou essa leitura, e houve quem misturasse a crítica à música com a eleição, dizendo que o que importava era não votar no partido.
“Que horror! Nada a ver!!!”, escreveu uma internauta. Um perfil de lanchonete da cidade ironizou: “Eu me perguntando se tem ‘dia do paraense’ no Pará”. Outro emendou: “nem os paraenses querem isso”. Um morador foi mais direto: “isso não serve pra Blumenau vaza”. Em outro post sobre a festa, um internauta resumiu tudo numa palavra: “Misericórdia”.
A crítica mais dura ao próprio evento, porém, veio de um paraense. “Aqui fala um Paraense que concorda com você”, escreveu ele em resposta a um dos comentários. “Nosso povo tem uma mania feia de querer chegar na casa dos outros e querer impor as regras deles”, continuou, defendendo que “quando estamos na casa dos outros temos que respeitar as regras deles”. Ele fechou dizendo que, quando fala isso aos conterrâneos, “sou esculachado”. Na outra ponta, um frequentador saiu em defesa da festa e mirou os críticos: “povo daqui é muito frio, implica com tudo e qualquer barulho”.
O Bistrô Pai D’égua respondeu a parte das críticas na própria sequência de comentários sobre a comida. “Entendo perfeitamente seu ponto, e esse é o nosso primeiro festival cultural paraense e ocorreram alguns contratempos mas faz parte, pois serve para melhorar para os próximos”, escreveu o restaurante a um dos frequentadores insatisfeitos.
A discussão acompanha uma cidade em mudança. Blumenau foi fundada por imigrantes alemães em 1850 e vende ao país a imagem germânica da Oktoberfest, mas a cultura do Pará já chegou à Rua XV de Novembro: o restaurante Varanda Amazônica, também aberto em 2023, leva rodas de carimbó e comida típica à principal rua da cidade durante a Rota de Lazer, aos domingos. O festival do Bistrô levou essa presença a uma escala maior, e o resultado, a julgar pelas redes, veio dividido.
A data, agora, é fixa: todo 15 de agosto Blumenau volta a ter Dia do Paraense no calendário oficial. Uma segunda edição do festival vai ser cobrada pelo que ficou registrado nos comentários: programação com horário divulgado, comida com preço e qualidade compatíveis e mais música do Norte no palco. “Que esse seja apenas o primeiro de muitos!”, escreveu o DJ Joelson.














