O dono de uma empresa aberta em Florianópolis é um dos dois nomes que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teria dado como saída quando a lobista Roberta Luchsinger avisou que pararia de bancar as passagens aéreas do filho do presidente. A cena está registrada em mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular da lobista, hoje alvo de investigação por tráfico de influência.
Numa mensagem de áudio de 25 de agosto do ano passado, enviada ao empresário Cléber Ribas, Roberta conta que cortou o benefício e reproduz a resposta que teria ouvido de Lulinha. Naquele período, o filho de Lula já havia se mudado para Madri, na Espanha, e ela dizia gastar cerca de R$ 100 mil por mês para manter a casa.
“Se você souber o que que o outro disse, eu fui cortar o negócio, né? Daí eu falei: ‘Ó, Fábio, agora acabou, porque a casa, por mês, a gente gasta em torno de [R$] 100 mil. Então, assim, não vai dar mais pra ter essas passagens, né?’. Ele falou: ‘Ah, eu vou ficar pedindo pro Cleber e pro Checon’. Eu ri pra caramba. Eu falei: ‘Ué, boa sorte pra você’”
Poucos minutos antes, às 11h09 do mesmo dia, a lobista já havia mandado outro áudio ao empresário cobrando um pagamento em atraso. “Deixa eu te falar, o Freitas paga quando? Aí será que ele não paga hoje não? Tem que pagar essa bosta dessas passagens pro Fabio, aí vai pagar com o dinheiro do Freitas, tá foda”, diz ela. Às 11h11, veio a resposta de Cléber Ribas: “Ele paga sempre dia 28, vou ver com ele aqui”.

A empresa catarinense no centro do caso
Cléber Ribas de Oliveira é CEO da 3Structure It, empresa de tecnologia da informação aberta em Florianópolis em 2019, que inaugurou uma filial em São Paulo em maio de 2023. É essa companhia que está no centro do inquérito autorizado pelo Supremo Tribunal Federal para apurar suspeita de tráfico de influência do filho do presidente em órgãos federais.
A 3Structure It acumula seis contratos com o governo federal que somam R$ 85,7 milhões, ao menos cinco deles firmados após licitação. O maior é de 2023, com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, para sustentação do ambiente analítico de dados da pasta, com valor acumulado acima de R$ 42 milhões. Em abril deste ano, o mesmo ministério assinou outro, de R$ 19,3 milhões, para trocar a solução de backup em uso. Há ainda um contrato de R$ 21,8 milhões com o Centro Integrado de Telemática do Exército, de novembro de 2022, que recebeu aditivo de R$ 3,6 milhões em julho. Fora da esfera federal, a empresa soma R$ 182 milhões em contratos com os governos do Rio de Janeiro, do Paraná e de Minas Gerais.
Os relatórios da Polícia Federal registram também um pagamento de R$ 150 mil da 3Structure It à RL Consultoria e Intermediações, empresa de Roberta Luchsinger. A defesa de Ribas sustenta que o contrato foi de assessoria para prospecção de clientes e identificação de oportunidades no setor de tecnologia, que a operação foi legítima, escriturada e tributada, e que não teve relação com os contratos federais. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que a lobista esteve 17 vezes no Ministério do Desenvolvimento Social desde o início do governo Lula.

O segundo nome montou a Casa Brasil da COP30
O outro citado é Marcelo Checon, dono da MChecon Design e Cenografia. Desde a volta de Lula (PT) ao Planalto, a empresa dele fechou 13 contratos com o Executivo federal, que somam R$ 63.406.954,74. Antes disso, tinha um único contrato com o governo federal: R$ 197 mil, firmado em maio de 2022 com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Com os aditivos, os pagamentos já recebidos chegam a R$ 84,2 milhões.
A companhia existe desde 2012, segundo dados da Receita Federal, e é sediada em São Paulo. Os principais contratos são com os ministérios do Desenvolvimento Agrário, do Turismo, da Cultura e do Desenvolvimento e Assistência Social, e em todos eles o valor básico se repete: R$ 8,74 milhões. Há acordos menores com o Ministério da Educação, a Fundação Nacional de Artes e a Presidência da República, todos para produção de eventos, cenografia e montagem de palcos.
Foi a MChecon que assinou a Casa Brasil Belém 2025, espaço oficial de 7 mil metros quadrados montado no Portal da Amazônia durante a COP30, em novembro do ano passado, com estruturas terrestres e flutuante. A empresa também executou a Casa Brasil em Paris, durante os Jogos Olímpicos de 2024, e o estande do Ministério do Turismo na COP29, em Baku, no Azerbaijão. Somadas, as duas empresas citadas na mesma frase de Lulinha passam de R$ 149 milhões em contratos com o governo federal.
“A gente tá se arriscando”
As mensagens recuperadas mostram que a preocupação com o custo das viagens vinha de antes. Em 18 de janeiro de 2024, ao tratar de uma viagem com a lobista, Lulinha escreveu: “Então…. Deixa eu te falar…. Não estou nada confortável com essa viagem…. Não acho que devíamos fazer nesse momento”. Ela insistiu, disse que não ficaria caro e que estava levantando tudo, e estimou “uns 100 mil com tudo tudo tudo”.
Na sequência da mesma conversa, ele voltou ao assunto: “Roberta… a gente ta se arriscando…. Não precisa…. É só esperar uns poucos meses e poderemos fazer isso sem medo de nada”. Questionada por ele se os R$ 100 mil cobriam as oito pessoas do grupo, a lobista respondeu que o valor era por pessoa, mas que deveria sair menos.

O que a Polícia Federal apura
O ministro André Mendonça autorizou em 31 de julho a abertura de inquérito para investigar suspeita de tráfico de influência de Lulinha na Dataprev e em outros órgãos do governo federal. A estatal de tecnologia afirmou não ter contrato com a 3Structure It. Em 4 de agosto, o ministro Flávio Dino autorizou um terceiro inquérito, sobre suspeitas de negócios ilícitos do filho do presidente com o Executivo federal, além de uma apuração sobre o vazamento das mensagens privadas.
Entre os elementos reunidos pelos investigadores está uma viagem feita por Lulinha e Cléber Ribas em 15 de dezembro de 2024, com o mesmo localizador, destino Foz do Iguaçu. Para a corporação, o detalhe indica que o empresário arcou com as despesas do filho do presidente. A investigação nasceu de um encontro fortuito durante a apuração das fraudes no INSS.
Procurado por mensagens de texto e ligações, Marcelo Checon não respondeu. Cléber Ribas se manifestou por nota, afirmando que ainda não teve acesso às investigações e que, por isso, não teria como comentar o conteúdo.
“Reiteramos que os contratos celebrados com o Governo Federal foram firmados com a mais absoluta transparência, depois dos procedimentos administrativos previstos em lei e sem o favorecimento de quem quer que seja”
As apurações seguem em andamento no Supremo Tribunal Federal, com quebras de sigilo autorizadas e novos relatórios da Polícia Federal em análise. Até agora não há acusação formal contra os dois empresários citados, e os nomes deles aparecem no relato da lobista sobre uma conversa com o filho do presidente. O que já está registrado em documento público é o caminho do dinheiro: as duas empresas mencionadas naquela frase somam quase R$ 150 milhões em contratos com o Executivo federal, e uma delas nasceu na capital catarinense.






















