O telefone toca ou chega uma mensagem no WhatsApp. Do outro lado, alguém diz que é do escritório que cuida do seu processo contra o INSS. A pessoa sabe o seu nome completo e o número do processo, às vezes até o valor que você tem para receber. A notícia parece ótima: “Seu dinheiro saiu! Mas, para liberar, é preciso pagar uma taxa agora, por Pix.”
É golpe.
O golpe do falso advogado se espalhou pelo país. Os aposentados, pensionistas e quem espera um benefício do INSS estão entre as vítimas preferidas. Todos os dias, segurados são procurados por criminosos que se passam por advogados, funcionários de escritório ou até servidores da Justiça.
Como eles sabem tanto sobre você?
Muitos processos judiciais podem ser consultados pela internet, isso sem falar do vazamento de informações internas de órgãos públicos. Os golpistas usam essas informações para parecer confiáveis. Pegam o seu nome e o número do processo, às vezes até a foto do seu advogado tirada das redes sociais, e montam um perfil falso no WhatsApp. Hoje fazem a clonagem até da voz. Por isso a conversa parece tão verdadeira.
Só que conhecer o seu processo não quer dizer que a pessoa trabalhe nele.
A regra de ouro: desconfie de qualquer cobrança
Para receber um valor ganho na Justiça, você não precisa pagar taxa por Pix para ninguém. Quando há honorários do advogado, eles já foram combinados no contrato que você assinou com o escritório, lá no começo. Não aparecem de surpresa numa mensagem pedindo urgência.
Se alguém pedir dinheiro para “liberar alvará”, “pagar imposto”, “pagar custas” ou “destravar o pagamento”, ou ainda chamar você de repente para uma ligação de urgência dizendo que é uma audiência com o juiz, pare a conversa na hora.
O que fazer para não cair no golpe
- Confira o número de telefone. Antes de qualquer coisa, compare o número que está falando com você com o número que você sempre usou para conversar com o escritório. Se mudou, desconfie. Golpista costuma dizer que “o escritório trocou de número”.
- Ligue você mesmo. Desligue e ligue para o número do escritório que já está salvo no seu celular ou que aparece no seu contrato. Não use o número que mandou a mensagem.
- Se puder, vá pessoalmente. Ir até o escritório e falar olho no olho com o advogado que cuida do seu processo continua sendo a forma mais segura de tirar a dúvida.
- Não tenha pressa. O golpista sempre diz que é urgente, que o dinheiro “vai voltar” se você não pagar hoje. Isso é para você não pensar. Nenhum valor ganho na Justiça some porque você esperou um dia para confirmar.
- Use a ferramenta da OAB. A Ordem dos Advogados do Brasil criou o site confirmadv.oab.org.br, gratuito. Você informa o número de inscrição do advogado na OAB, o estado e o e-mail dele. O sistema manda um aviso para o advogado, que tem até cinco minutos para confirmar que é ele mesmo.
- Não clique em links e não mande fotos de documentos para números desconhecidos.
- Converse com a família. Muitos idosos caem no golpe sozinhos, com vergonha de perguntar. Combine em casa: chegou mensagem sobre processo pedindo dinheiro, fala com alguém antes.
Caí no golpe. E agora?
Primeiro: não se culpe. Esses criminosos são profissionais. O importante é agir rápido, porque cada hora faz diferença.
1. Avise o banco imediatamente. Ligue para a central ou use o aplicativo. Diga que fez um Pix por causa de um golpe e peça a devolução pelo MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central. Você tem até 80 dias para fazer esse pedido, mas quanto mais cedo, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta do golpista. Desde fevereiro de 2026 os bancos são obrigados a usar uma versão mais nova do sistema, que consegue seguir o dinheiro mesmo depois que o criminoso o passa para outras contas. Anote o número do protocolo.
2. Faça o boletim de ocorrência. Pode ser na delegacia ou pela Delegacia Virtual da Polícia Civil, pela internet. Junte prints das conversas, o número de telefone do golpista e o comprovante do Pix. O B.O. vai servir em todas as etapas seguintes.
3. Avise o seu advogado de verdade. Assim o escritório pode orientar você e alertar outros clientes.
4. Reclame no Banco Central. Se o banco não responder ou negar a devolução sem explicar direito, registre uma reclamação no site do Banco Central (bcb.gov.br). O banco é obrigado a responder.
5. Em último caso, a Justiça. Às vezes nada disso resolve. Aí é possível entrar com uma ação contra o banco. O Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento, na Súmula 479, de que o banco responde pelos prejuízos causados por fraudes de terceiros ligadas às operações bancárias. Na prática, cada caso é analisado com cuidado. Se ficar demonstrado que o banco falhou na segurança, ele pode ser condenado a devolver o dinheiro. Falhar na segurança é, por exemplo, deixar passar uma transferência muito fora do seu padrão sem nenhum bloqueio ou confirmação, ou permitir que o golpista abrisse uma conta com documentos falsos. Para valores menores, o Juizado Especial costuma ser o caminho mais simples.
Para guardar
Advogado de verdade não cobra taxa surpresa por WhatsApp. INSS e Justiça não pedem Pix para liberar benefício. Na dúvida, desligue, ligue para o número de sempre ou vá até o escritório.
O seu tempo de contribuição custou anos de trabalho. Não deixe um golpista levar isso embora em cinco minutos.
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/opiniao/seu-processo-no-inss-virou-isca-para-golpista-saiba-como-se-proteger-do-falso-advogado-e-como-recuperar-o-prejuizo













