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Advocacia não é profissão de covardes

Nesses anos todos advogando na área previdenciária, perdemos a conta de quantas vezes um segurado do INSS chegou no escritório maltratado pela perícia médica, pela demora, pelo indeferimento seco…

Advocacia não é profissão de covardes
Foto: Reprodução
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Nesses anos todos advogando na área previdenciária, e daquilo que já ouvi muito dos meus pares, perdemos a conta de quantas vezes um segurado do INSS chegou no escritório maltratado. Maltratado pela perícia médica do INSS, que trata gente doente como se todos tivessem lá para tirar alguma vantagem indevida. Maltratado pela demora, pelo indeferimento seco, pela sensação de que o sistema foi feito para cansar quem já está cansado.

E o que mais vejo, nessas horas, não é o cliente precisando de uma teoria jurídica. É o cliente precisando de alguém que o escute, que dê atenção, que trate o trauma dele como trauma antes de tratar o processo como processo.

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A advocacia não é profissão de covardes. O bom advogado se debruça sobre teses, documentos, teorias e soluções que muita gente sequer imagina existir, até conseguir o resultado que o cliente precisa — e isso é feito longe dos holofotes, sem glamour nenhum.

Um dos maiores honorários que já recebi foi um sorriso de criança, numa família que havia perdido o pai e agora precisava da pensão por morte para o sustento de uma viúva e de um órfão. A advocacia previdenciária, com certeza, guarda com carinho o dia em que um agricultor conseguiu sua aposentadoria e como recompensa pelo trabalho do advogado, apareceu no escritório com aipim, milho, frutas — o que ele tinha para dar, dividindo com quem o ajudou a garantir o que era dele por direito.

O mesmo se repete com os pescadores, que chegam nos escritórios com presente, a exemplo da nossa tradicional tainha. Ninguém pede isso, esse não era o combinado, mas com certeza não reflete a realidade de alguém que se sentiu “enganado”. A gente sabe o quanto é difícil o trabalho de sol a sol de quem vive da terra ou do mar. Mas para nós, é um jeito do cliente nos dizer obrigado!

Pois é justamente esse segurado — o aposentado, o agricultor, o pescador, a dona de casa, o trabalhador que já perdeu tempo e paciência demais com o INSS — que um vereador de Criciúma resolveu insultar essa semana, em plena sessão da câmara. Ao votar contra um projeto de transparência para cargos comissionados, ele disparou: “50% dos advogados estudam para roubar os pobres”, mirando especificamente na profissão do advogado que atua com aposentadoria e benefícios do INSS.

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O mais grave: o efeito prático dessa fala não recai sobre mim, ou diretamente sobre os colegas advogados. Recai sobre o segurado que está em dúvida se procura ajuda jurídica para não perder o prazo do benefício, e que agora ouve de um agente público que o advogado que ele vai procurar tem 50% de chance de ser um ladrão! É o aposentado ficando sem assistência exatamente quando mais precisa dela — o efeito colateral de um discurso irresponsável recai sobre quem menos tem estrutura para se defender sozinho diante do INSS.

Isso não significa fechar os olhos para quem erra. Existem maus profissionais em toda categoria, e na advocacia não seria diferente — e esses devem ser investigados e punidos com todo o rigor da OAB e da Justiça, sem contemplação.

Mas há uma diferença enorme entre apontar o dedo para quem de fato erra, com prova e processo, e generalizar sem nenhum critério para uma plateia de câmara municipal. Como a própria OAB de Santa Catarina resumiu bem: liberdade de expressão não se confunde com liberdade para ofender.

Ora! Se alguém que ocupa uma cadeira para representar o povo escolhe usá-la para desqualificar justamente quem defende o aposentado, a viúva, o trabalhador diante do Estado, cabe a pergunta: que povo, afinal, esse vereador acha que representa?

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