Logo Jornal Razão
Publicidade

O aposentado do INSS ainda espera o dinheiro de volta enquanto Lulinha reclama de vazamento

No dia em que Paulo Gonet nega pedido de Lulinha sobre vazamentos, aposentados ainda esperam a devolução de bilhões descontados indevidamente pelo INSS.

2º turnoApuração do 2º turno, domingo às 17hFlávio × Lula voto a voto, no Brasil, em SC, nas 5.570 cidades e no exteriorAcompanhar →
O aposentado do INSS ainda espera o dinheiro de volta enquanto Lulinha reclama de vazamento
Foto: Reprodução
Publicidade

No dia de hoje, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou a Fábio Luís Lula da Silva — o Lulinha, também investigado na Operação Sem Desconto — o pedido para apurar quem vazou dados sigilosos dele. A justificativa é tecnicamente correta: vítima de crime de ação pública incondicionada não dita o rumo do inquérito policial. Mas o episódio escancara a desproporção. Enquanto um nome poderoso reclama de exposição de dados, milhões de aposentados seguem esperando resolução para um prejuízo que nunca parou de crescer.

Porque é isso que está em jogo. Não é só uma investigação com nomes grandes, CPMI e parecer de cinco mil páginas. É dinheiro tirado, mês após mês, de quem menos pode perder.

Publicidade

Números que doem

A fraude começou em 2019. Em 2020, o rombo já somava R$ 510 milhões — e daí só multiplicou: em 2024, chegou a R$ 2,8 bilhões, quase seis vezes mais em quatro anos.

Um relatório da CGU identificou que 7,6 milhões de aposentados e pensionistas do INSS sofreram descontos na folha de pagamento, e a pesquisa sugere que 98% deles foram vítimas de descontos indevidos. Mais de 742 mil pediram o cancelamento do desconto associativo só nos seis primeiros meses de 2024, e em 95,6% dos casos os próprios beneficiários disseram nunca ter autorizado nada. Gente que trabalhou a vida inteira descobrindo, no extrato, que estava pagando mensalidade pra uma associação que nunca ouviu falar.

A reação do governo, no papel, até veio: suspensão dos acordos com as entidades, abertura de canal de ressarcimento, promessa de devolução corrigida pela inflação. Na prática, o que se viu foi uma sucessão de prazos empurrados com o pé: primeiro até novembro de 2025, depois até 14 de fevereiro de 2026, depois — “definitivamente, sem nova prorrogação” — e agora até 31 de dezembro de 2026. Cada adiamento anunciado como se fosse um gesto de cuidado. Na verdade, é a confissão de que a máquina não dava conta do estrago que ela mesma deixou acontecer.

Enquanto isso, o aposentado espera

Até o início de 2026, cerca de R$ 2,9 bilhões já haviam sido devolvidos a mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas — um avanço real, mas que ainda deixa de fora milhões de pessoas num universo de quase oito milhões de prejudicados. E o ressarcimento não é automático: o idoso precisa entrar no Meu INSS, contestar, aderir a um acordo, acompanhar prazo. Quem devia estar sendo indenizado de ofício virou, mais uma vez, responsável por correr atrás do próprio prejuízo.

Publicidade

No Congresso, a base do governo mobilizou votos para derrubar o relatório final do deputado Alfredo Gaspar — que recomendava o indiciamento de 228 pessoas, entre elas o próprio Lulinha — e, segundo parlamentares de oposição, descumpriu o regimento ao não designar um relator alternativo para apresentar um texto substitutivo. O resultado de sete meses de CPMI foi o pior cenário possível: nenhum relatório aprovado. Dois pareceres avulsos — o rejeitado e o da base governista — acabaram encaminhados por fora, direto à Polícia Federal e ao STF, cada lado com sua versão de quem deve responder pelo escândalo.

O prejuízo não é só do aposentado

Tem uma conta que pouca gente lembra de cobrar: a da própria Previdência Social. Reportagens já indicam que o Estado poderá ser responsabilizado solidariamente pelos danos causados aos aposentados — ou seja, o rombo bilionário que entidades picaretas abriram no bolso do segurado pode acabar, no fim da linha, batendo também no caixa público. Um sistema que já reclama de déficit, que é alvo de reforma atrás de reforma em nome do “equilíbrio fiscal”, vai ter que arcar com a fatura de uma fiscalização que falhou durante anos.

É esse o ponto que mais incomoda nessa história toda: não faltou aposentado avisando. Não faltou imprensa noticiando. O que faltou foi o Estado olhar pra dentro antes que o prejuízo chegasse a bilhões — e, depois que chegou, faltou rapidez pra consertar. Entre a fraude e a devolução, se passam anos. Entre o escândalo e um relatório que aponte responsáveis com nome e sobrenome, o Congresso nem conseguiu fechar questão.

Pra quem trabalhou quarenta anos esperando a aposentadoria, isso não é estatística de jornal. É o mês que fechou no vermelho porque uma associação fantasma levou o que não devia. A burocracia pode debater prazo, relatório e quem fica com a culpa política. O aposentado só quer o dinheiro de volta — e, principalmente, a garantia de que isso não vai se repetir.

Publicidade

Samuel Azzi Simões é advogado, sócio do escritório Silva e Simões Advogados, em Tijucas (SC).

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/opiniao/o-aposentado-do-inss-ainda-espera-o-dinheiro-de-volta-enquanto-lulinha-reclama-de-vazamento

Publicidade
Publicidade
Publicidade