O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal abrir um inquérito para investigar se a Rockbridge Network, uma rede americana criada em 2019 por JD Vance, hoje vice-presidente de Donald Trump, participou de tratativas para bancar a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. A decisão foi assinada nesta terça-feira (27), dois dias depois do segundo turno que reelegeu Lula (PT) com 51,79% dos votos válidos.
A primeira frente da investigação mira dois empresários brasileiros. A PF vai esclarecer “a natureza das tratativas noticiadas entre representantes da Rockbridge Network e os Srs. Tallis Gomes e Pedro Sang, inclusive eventual vínculo entre recursos, serviços ou outras vantagens economicamente aferíveis e campanha eleitoral”, diz a decisão.
O inquérito tem mais quatro frentes. A PF terá de identificar quem pagou e contratou a publicidade eleitoral atribuída a perfis estrangeiros, de onde saiu o dinheiro e se pessoas ou empresas no Brasil participaram sabendo do esquema. Segundo o Correio Braziliense, são publicações pagas por perfis do exterior, sem identificação de quem pagou, com projeções favoráveis a Flávio tiradas da Polymarket, uma plataforma de apostas em previsões.
A investigação também vai apurar se há elementos concretos que liguem as conversas sobre financiamento político aos interesses econômicos em terras raras e minerais críticos brasileiros, quem participou dos contatos entre a Rockbridge e empresários brasileiros e com que objetivo, e se empresas de internet manipularam algoritmos “visando favorecer ou prejudicar candidaturas no processo eleitoral do Brasil”.

“Sublinho, ainda, a necessidade de esclarecer o possível vínculo entre apoio eleitoral e o interesse econômico de agentes estrangeiros nas terras raras e nos minerais críticos brasileiros”, escreveu Dino, segundo o Correio Braziliense. O ministro lembrou que a proibição vale mesmo sem dinheiro vivo: “Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a vedação ao financiamento estrangeiro alcança toda vantagem economicamente aferível recebida por partidos ou candidatos, ainda que não haja transferência de dinheiro”.
Na parte das redes sociais, Dino citou um documento da ONU sobre “desequilíbrio digital” na eleição e um experimento de uma ONG em que uma conta nova, que seguia Lula, o PT, Flávio e o PL, recebeu 74% de sugestões de conteúdo favoráveis a Flávio e 18% favoráveis a Lula, segundo a Gazeta do Povo.
O diretor-geral da PF terá de informar ao Supremo o número do inquérito. A investigação vai correr sob a supervisão do STF “diante da possível participação de membros do Congresso Nacional nos fatos objeto de apuração”. A decisão não diz quais parlamentares seriam esses.
Dino também mandou avisar da decisão os ministérios da Justiça, de Minas e Energia e das Relações Exteriores, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Agência Nacional de Mineração, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o Banco Central, a Receita Federal e a Advocacia-Geral da União, “para que avaliem e adotem as providências que entenderem cabíveis”. A Procuradoria-Geral da República também foi comunicada, e a ordem é de cumprimento imediato.

A decisão saiu dentro da ADPF 1.178, uma ação do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) protocolada em junho de 2024 contra municípios brasileiros que processam empresas em tribunais de outros países, como nos casos das tragédias de Mariana e Brumadinho. Foi nessa mesma ação que Dino decidiu, em agosto de 2025, que leis e decisões estrangeiras não valem automaticamente no Brasil, no auge das sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.
Em 23 de setembro, a coligação de Lula e o PT pediram nessa ação a abertura de um inquérito sobre a suposta interferência americana na eleição, segundo a ConJur. Dino negou a entrada do partido no processo, mas mandou abrir a investigação em separado. “Embora reconheça a conexão temática com esta ADPF, considero ser mais eficiente a instauração de procedimentos próprios, tanto policiais quanto administrativos, a fim de que os fatos sejam apurados”, escreveu o ministro, segundo a Revista Oeste.
Quem primeiro levantou a suspeita em público foi Renan Santos, do partido Missão, que também disputou a Presidência, em 11 de setembro. Ele levou argumentos parecidos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde a coligação de Lula também abriu uma ação de investigação judicial eleitoral contra a campanha de Flávio.
Fundada por Vance e pelo empresário Chris Buskirk, a Rockbridge é uma organização privada que capta recursos para campanhas e movimentos alinhados à agenda republicana e conservadora nos Estados Unidos, segundo a ConJur.
Em setembro, o site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, mostrou que Pedro Sang trabalhava no comitê de Flávio em São Paulo, num casarão perto do Parque Ibirapuera, onde cuidava de móveis e de estrutura como a internet. Segundo o site, ele se apresentava como “Pedro da Rockbridge”. Sang confirmou a ligação com a Rockbridge, mas negou ser intermediário de dinheiro para a campanha e disse desconhecer qualquer financiamento da organização a Flávio.
Tallis Gomes, um dos fundadores da Easy Taxi e do G4 Educação, confirmou que é membro da Rockbridge, ao lado de empreendedores e investidores de diferentes países. Ele negou ter cargo de direção ou de representação da rede, no Brasil ou no exterior, e disse que não participou da campanha de Flávio nem doou dinheiro a candidatos ou partidos.
O tema das terras raras entrou no caso por causa de um memorando em inglês chamado “Prosperity Partnership”, também revelado pelo Amado Mundo. Com a capa “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign”, o documento propõe uma parceria de um eventual governo Flávio com os Estados Unidos em minerais críticos e terras raras, afastando o Brasil da China. O autor é André Marinho, que foi candidato do Novo ao governo do Rio e é filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado. Marinho admitiu ter escrito o texto, mas disse que fez o estudo por conta própria, como um cenário hipotético, e que não o mandou à campanha nem a autoridades americanas.
Em março, num discurso na CPAC, o maior encontro conservador dos Estados Unidos, Flávio defendeu que o Brasil fosse a solução para os americanos deixarem de depender da China em terras raras e minerais críticos.
A Lei das Eleições proíbe candidatos e partidos de receber doação, em dinheiro ou estimável em dinheiro, de entidade ou governo estrangeiro. Até agora, não apareceu prova pública de que dinheiro da Rockbridge tenha chegado à campanha de Flávio. A abertura do inquérito é o começo da apuração, não uma conclusão sobre a responsabilidade de quem foi citado.
Flávio Bolsonaro ainda não comentou a decisão de Dino. Em setembro, quando o caso veio à tona, ele não respondeu às perguntas do Amado Mundo. A decisão sai no mesmo dia em que o JR mostrou que a Argentina negou a entrada de Flávio no país e que o senador ainda não tinha entregado os passaportes à PF.
Fontes: Correio Braziliense, Gazeta do Povo, Revista Oeste, ConJur e site Amado Mundo, de Guilherme Amado.
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