Guilherme Colombo (PL) sentou no estúdio do Jornal Razão para falar da própria estreia nas urnas, mas foi o nome de outra pessoa que atravessou a conversa do começo ao fim. Apelido, casamento, faltas em Brasília, campanha rodada pelo interior: em quase todo bloco da entrevista, a resposta do candidato a deputado estadual passou pela deputada federal Júlia Zanatta. Advogado há 11 anos e natural de Criciúma, no Sul de Santa Catarina, ele não tratou a associação como um problema a administrar, e sim como o próprio ativo da candidatura.
ASSISTA À ENTREVISTA COMPLETA
Do disquete à advocacia
Antes do Direito, Colombo se apresentou como bacharel em sistemas de informação e disse ter passado anos trabalhando com tecnologia, “passando cabo de rede, por baixo de mesa, dando manutenção em computador, formatando disquete”. É pai de Helena, de 6 anos, e de Olívia, de 1 ano e 4 meses, ambas com a deputada. Esta é a primeira disputa eleitoral dele: perguntado se já havia concorrido a algum cargo, respondeu que nunca, apenas a uma eleição de DCE na época de estudante. O que o credencia, na versão dele, é a estrada. “Rodei muito o estado de Santa Catarina nesses últimos cinco anos, junto com a Júlia”, disse. O pai foi vereador em Criciúma e morreu em 2021 em decorrência da Covid-19.
Sobre o apelido “bebê”, pelo qual é chamado nas redes, contou que a origem é uma música do sertanejo Gusttavo Lima: “Ainda não me chame de bebê”. Provocado pelo repórter Lohan sobre suas referências, resumiu em duas: “Gusttavo Lima, Bolsonaro”.
“Fui incentivado por ele, sim”
Confrontado com a pergunta direta se é candidato de Eduardo Bolsonaro em Santa Catarina ou candidato dos catarinenses, Colombo rejeitou o rótulo. “Eu não gosto de fazer essa: ah, sou o único candidato do Eduardo Bolsonaro. Esse tipo de afirmação, para mim, não faz sentido”, afirmou. Ao mesmo tempo, não escondeu a proximidade: disse ser amigo pessoal de Eduardo e ter estado três vezes na casa dele nos Estados Unidos apenas neste ano.
Segundo o candidato, Eduardo esteve em Criciúma já em novembro de 2019, logo após a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência, na primeira visita de um integrante da família ao município. Depois disso, na versão dele, participou ativamente da campanha de Zanatta e passou por feiras de armas em Joinville, além de eventos em Blumenau, Timbó, Braço do Norte, Tubarão e Criciúma na eleição de 2024. Sobre a própria candidatura, foi direto: “Fui incentivado por ele, sim, porque a gente entende que tem que cada vez mais ocupar os espaços”.
Armas, liberdade e a escala 6×1
O repórter questionou o que a presença em clubes e feiras de tiro credencia para discutir os problemas de Santa Catarina, lembrando que esse é justamente um dos motivos dos ataques que o casal recebe nas redes. Colombo deslocou o tema.
Quando a gente fala de armas, quando a gente fala de clube, a gente não está falando de um objeto. A gente está falando de liberdade.
O mesmo princípio, na argumentação dele, se estende à economia, à “burocracia que sufoca o pagador de impostos” e à desburocratização para “tirar do cangote do empreendedor”. Segundo o candidato, é esse conjunto de valores que o eleitor deve enxergar ao avaliar o voto.
A moldura reapareceu no bloco sobre o fim da escala 6×1, pauta em que Zanatta foi duramente criticada por manter posição contrária. O candidato assumiu o mesmo entendimento e tratou o assunto como questão econômica. “Alguém vai pagar essa conta”, afirmou. Ele disse que, ao conversar com garçons, faxineiras e frentistas pelo estado, ouvia sempre a mesma resposta: “Guilherme, eu só quero ganhar mais, independente se vai trabalhar menos ou se vai trabalhar mais”.
A defesa dele é uma jornada calculada por hora. “Quanto mais tu trabalha, mais tu vai ganhar. Se tu quer trabalhar um dia na semana, beleza. Se tu quer trabalhar sete dias na semana, tudo bem.” Questionado sobre por que a proposta de reduzir jornada tem apoio majoritário mesmo em um eleitorado polarizado, respondeu que as pessoas “são seduzidas por um sentimento de que vão trabalhar menos e ganhar mais”, e que o custo acabaria repassado ao consumidor final, que, segundo ele, é o próprio trabalhador. O repórter ponderou que há quem simplesmente não queira trabalhar mais. Colombo disse respeitar, mas manteve a tese: “Isso não pode ser uma imposição estatal”.
“Quem é irrelevante não é atacado”
Perguntado se é verdade que Zanatta foi a deputada que mais faltou, Colombo classificou a informação como “uma falácia”. Segundo ele, a parlamentar estava em licença maternidade após o nascimento de Olívia, e as ausências do período teriam sido contabilizadas como faltas e viralizadas nas redes, coincidindo, na versão dele, com o momento da votação sobre a escala 6×1. Ele afirmou que o próprio site da Câmara dos Deputados publicou nota esclarecendo o caso.
O candidato também citou um levantamento da ND sobre os deputados mais produtivos, no qual, segundo ele, Zanatta apareceu em segundo lugar entre os catarinenses, atrás de Gilson Marques, mesmo em licença maternidade. E sugeriu ao público um teste de verificação: consultar na ficha de cada parlamentar, no site da Câmara, quantas vezes ele falou em plenário e de quantas comissões participa. “Tem deputado federal, que inclusive já sentou aqui, que nunca falou no plenário”, provocou.
Para ele, os ataques têm origem justamente na relevância: “Quem é irrelevante não é atacado”. Definiu a atuação da deputada como “irretocável” e a chamou de parlamentar catarinense mais atuante, ressalvando que se trata do ponto de vista dele.
“Eu sou marido da Júlia”
O Jornal Razão foi direto ao ponto que circula nas redes: marido ou namorado? “Eu sou marido da Júlia”, respondeu. A confusão, segundo ele, nasceu de uma fala da deputada em um podcast, quando ela disse que o casal não é casado, referindo-se, na explicação dele, apenas ao casamento religioso. Colombo afirmou que já foi casado na igreja e busca a anulação eclesiástica, já que ambos são católicos.
O repórter ponderou que teria sido mais simples ela apenas afirmar que são casados, já que ninguém checaria. Colombo rebateu: “Mas por que ela mentiria? A nossa vida é pautada pela transparência, pela honestidade, pela verdade”.
Segundo o candidato, o casal obteve vitória na Justiça Eleitoral contra um blog que classificou como “esquerdista” e que teria usado termos como “amante”, “concubina” e “ex-mulher” em artes publicadas nas redes. Ele traçou a linha do que considera aceitável.
Quer atacar as propostas, beleza. Quer atacar no pessoal, vai tomar processo e vai perder.
Liberdade de expressão e o limite da honra
Lohan questionou a coerência entre defender liberdade de expressão e processar críticos. Colombo alegou que o limite é a honra: para ele, criticar o trabalho parlamentar é legítimo, mas acusar alguém de corrupção sem prova não é. Citou o caso do ministro Flávio Dino, que processou e venceu após ser chamado de “gordola”, e disse considerar o termo apenas jocoso. “Se tu me chamar de gordola, eu vou dar risada.” Lembrado de que o ministro também tem o direito de se sentir ofendido, brincou: “Um abraço, Flávio Dino. Não me processe, por favor”.
Onde entrevistado e entrevistador divergiram
O tema da regulação das plataformas gerou o contraponto mais explícito da conversa. O repórter afirmou ser, de certa forma, favorável à regulamentação, relatando problemas concretos do próprio veículo: o WhatsApp do jornal foi banido na semana da entrevista e há uma liminar contra a Meta, obtida há dois meses, por bloqueio de monetização no Facebook, onde o Jornal Razão tem quase um milhão de seguidores. Segundo ele, a decisão judicial vem sendo ignorada pela empresa.
Colombo reconheceu a ambiguidade, mas manteve a ressalva. “Botar na mão do Estado esse controle também é perigoso, ao mesmo tempo que deixar a empresa ditar a regra também é perigoso”, disse, avaliando que o risco é criar tantas regras a ponto de inviabilizar o funcionamento das plataformas. Ele citou a derrubada do PL 2630, que chamou de “PL da censura”, como exemplo de que a mobilização popular pressiona parlamentares e muda resultados.
Os dois convergiram sobre perfis falsos. O repórter mencionou representação da equipe de Flávio Bolsonaro no TSE sobre páginas com poucos seguidores e muito dinheiro em impulsionamento, inclusive vindo de fora do país, usadas para espalhar desinformação e depois apagadas. “Quer falar, quer xingar, quer dar a tua opinião, não tem problema. Mas faz com a cara”, cobrou Lohan. Colombo concordou: “Quando tu parte para o pessoal e ainda se esconde, fica difícil fazer esse controle”.
BR-101, Morro dos Cavalos e os limites do mandato
Sobre a BR-101 e o gargalo do Morro dos Cavalos, Colombo admitiu que a competência legislativa não é estadual, mas defendeu envolvimento. “Tudo que envolve o Estado de Santa Catarina, a gente não pode dizer: não, isso aí não é comigo, porque é lá com os deputados federais.” A proposta dele é articular movimentos com federações de indústria, associações comerciais e sociedade civil organizada para pressionar Brasília.
Pressionado sobre por que a pauta não avançou mesmo com Zanatta em Brasília, atribuiu a um “governo revanchista” e afirmou que “o Lula não gosta de Santa Catarina”, lembrando declarações do presidente em visita ao estado. E ponderou: “Não existe um salvador da pátria. Tu se elege, tu não tem superpoderes”.
Autocrítica ao próprio campo
Cobrado sobre bandeiras que um deputado estadual não tem poder de resolver, Colombo fez uma ressalva ao próprio lado. Criticou a lei catarinense que reconheceria de forma tácita a efetiva necessidade de atiradores esportivos, exigência prevista no Estatuto do Desarmamento para o porte. Segundo o candidato, a norma tende a ser judicializada e a chegar ao Supremo Tribunal Federal, que poderia não apenas declará-la inconstitucional como “criar mais uma norma em cima daquilo”, trazendo prejuízo aos próprios atiradores. “O deputado tem que ter responsabilidade sobre aquilo que ele apresenta”, resumiu.
ITCMD, taxa de licenciamento e o veto de Jorginho
A principal proposta apresentada por Colombo para a Assembleia Legislativa é tributária. Ele elogiou o governador Jorginho Mello (PL) por não ter aumentado impostos e afirmou que Santa Catarina teve o quarto melhor desempenho do varejo no país, mesmo sendo, nas palavras dele, “um Estado nanico”. O passo seguinte, propõe, é colocar o estado na vanguarda da redução: “Se a gente fizer uma redução de carga tributária, a gente vai mostrar que arrecada mais. Não é uma teoria econômica”.
Cobrado a dar um exemplo concreto, citou o ITCMD, imposto estadual sobre herança e doação.
Teu pai trabalhou a vida inteira, construiu um patrimônio, e quando vai passar pra um filho, paga imposto. Isso é um negócio bizarro.
Segundo ele, o tributo representa de 3% a 4% da arrecadação estadual, e a proposta inicial seria reduzir, não extinguir, ampliando as faixas de isenção para estimular a regularização imobiliária e a segurança jurídica.
O tema passou também pelo veto do governador à lei que extinguiria a taxa de licenciamento de veículos. Colombo argumentou que a cobrança perdeu justificativa desde que o documento deixou de ser impresso, “a taxa é pra subsidiar esse serviço administrativo”, mas admitiu não saber as razões do veto. Perguntado se iria ao embate com Jorginho, respondeu que não se trata de afronta: “Isso é uma discussão que diz respeito ao povo catarinense”. Vale registrar que a candidatura dele foi homologada com apoio do governador, apesar dos embates públicos entre Zanatta e o Executivo estadual.
O repórter fez o contraponto mais duro do bloco, lembrando que redução de tributo exige compensação de receita e que segurança pública, polícias e bombeiros são custeados por impostos, além de citar países nórdicos que cobram mais e entregam mais serviço. Colombo concordou que extinguir o Estado é “uma utopia”, mas manteve a crítica: “O Estado hoje é maior do que ele deveria ser. Muito maior”.
Cartórios, presídios e pena de morte
Sobre a tentativa de CPI dos cartórios, classificada pelo repórter como populista, Colombo disse precisar se aprofundar no tema, mas apontou o que considera a raiz do custo: a quantidade de serviços gratuitos. “Quando tu tem muito serviço gratuito, seja no SUS, seja no cartório, alguém paga a conta”, disse, aplicando a mesma lógica usada na escala 6×1. A saída que propõe é substituir a gratuidade total por valores simbólicos, “ao invés de ser de graça, ser dois reais”, reduzindo o custo para todos. Defendeu o registro de imóveis pela segurança jurídica que oferece e lembrou que erro de cartório é indenizado diretamente, enquanto erro do Estado joga o cidadão na fila do precatório por décadas.
No sistema penitenciário, avaliou que Santa Catarina é “um modelo hoje pro Brasil”, especialmente no trabalho dentro dos presídios, e creditou investimentos à gestão Jorginho Mello. Questionado diretamente sobre o bordão “bandido bom é bandido morto”, não recuou. “Tem gente que não tem jeito. O cara que mexe com uma criança, pra mim, pode passar fogo e mandar pro inferno”, afirmou, defendendo pena de morte e prisão perpétua para determinados crimes.
Fez, porém, uma distinção. Ao ser questionado sobre condenados por furto ou tráfico, apontou o próprio entrevistador como exemplo de ressocialização possível. “É possível a pessoa errar, reconhecer que errou, pagar pelos seus erros e voltar a ser uma pessoa que pode viver tranquilamente em sociedade.” Para justificar a exceção, relatou um júri popular de que participou, em que um detento teria provocado tumulto para conseguir transferência de presídio com o objetivo de matar alguém: “É uma vida paralela à vida em sociedade”.
“Que a gente extermine de vez a esquerda”
A entrevista terminou com o candidato pedindo que o eleitor acompanhe as redes dele e de Zanatta, e definindo o que chama de missão do ano. “Esse é o ano que a gente tem pra resgatar o Brasil”, disse. E foi além, em um dos trechos mais fortes da conversa.
Nós temos aqui um papel no nosso Estado, que é de eliminar a esquerda. Podem contar comigo pra que a gente extermine de vez a esquerda do nosso Estado.
A entrevista integra a série de conversas do Jornal Razão com candidatos das eleições em Santa Catarina, sem combinação prévia de pauta. O estúdio já recebeu nomes de espectros opostos, como Afrânio Boppré (PSOL) e Paulo Wessel (PT). O deputado Ivan Naatz tinha entrevista marcada e não compareceu nem desmarcou. O espaço segue aberto a todos os concorrentes, de qualquer partido.
Nota da redação: as declarações e opiniões reproduzidas são de responsabilidade do entrevistado. O Jornal Razão garante espaço de resposta às pessoas, veículos, perfis e instituições citados.











































