Logo Jornal Razão
Publicidade

Influenciador petista debocha das enchentes no Sul e diz que o estado vira “Fenda do Biquíni”

Goiano com 1 milhão de seguidores reagiu à consulta separatista em Balneário Camboriú; a dívida que ele cita é só do RS, e Santa Catarina recebe de volta R$ 13,50 a cada R$ 100 que manda em impostos

2º turnoApuração do 2º turno, domingo às 17hFlávio × Lula voto a voto, no Brasil, em SC, nas 5.570 cidades e no exteriorAcompanhar →
Influenciador petista debocha das enchentes no Sul e diz que o estado vira ‘Fenda do Biquíni’
Foto: Reprodução
Publicidade

O influenciador petista José Diogo Cotrim, de Goiás, reagiu à proposta de separar o Sul do resto do Brasil com um vídeo em que debocha das enchentes na região. “Toda vez que aparece uma enchente, o estado vira uma Fenda do Biquíni”, disse ele, comparando o estado alagado à cidade submarina do desenho Bob Esponja. O vídeo foi publicado neste sábado (31) no Instagram, onde ele tem 1 milhão de seguidores.

Cotrim reagiu à reportagem do Jornal Razão sobre a consulta feita pelo movimento “O Sul é o Meu País” em Balneário Camboriú, que registrou 314 votos a favor da separação e 27 contra. O grupo defende tirar Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul do país. Depois de mostrar a reportagem, o influenciador diz que, se a separação fosse possível, ele apoiaria: “Eu ia dizer: vão com Deus”.

Publicidade

Segundo ele, quem aparece “com bilhões pra socorrer, reconstruir, ajudar as famílias e recuperar tudo que tá destruído é o Brasil, é o Governo Federal”. “Então pelo menos ia ser um gasto a menos pro Lula, cê não acha?”, completa.

Em seguida, Cotrim cobra a dívida gaúcha com a União. “Só o Rio Grande do Sul deve cem bilhões de reais pra União. Quer independência, quer largar do Brasil, mas deve uma fortuna pro próprio Brasil”, afirma. “A bandeira é de vocês, o país é de vocês, a independência é de vocês, mas o boleto manda pra Brasília?” Logo depois, provoca: “Quer separar, então separa tudo, meu amor”.

Ele termina o vídeo pedindo desculpas “pelas pessoas de bem desse estado” e chamando a ideia separatista de “tóxica” e “vergonhosa”.

Nos comentários, seguidores do influenciador atacaram a região. “Primeira chuva o país some do mapa kkkkk” passou de 9 mil curtidas, e “Manda o Milei administrar o Sul, por favor!” chegou a 9,5 mil. Moradores do Sul também responderam: “Sou gaúcha e amo o Nordeste, não devemos ser incluídos em uma fala tão ridícula e exclusiva”, escreveu uma seguidora.

Publicidade
Comentários mais curtidos no vídeo do influenciador, com nome e foto borrados

A dívida é só do Rio Grande do Sul

A dívida citada por Cotrim é só do Rio Grande do Sul, e não nasceu de dinheiro emprestado. Em 1998, pela lei que renegociou as dívidas dos estados, a União assumiu cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos do governo gaúcho e R$ 2,4 bilhões do socorro ao Banrisul. O estado passou a pagar essa conta corrigida pelo IGP-DI mais 6% ao ano.

Até 2021, o RS já tinha pago cerca de R$ 40 bilhões, segundo uma comissão da Assembleia Legislativa gaúcha. Mesmo assim, juros, correção e as liminares do STF que suspenderam os pagamentos entre 2017 e 2022 levaram o saldo a R$ 100 bilhões no fim de 2024, de acordo com a Secretaria da Fazenda do RS. No pedido de adesão ao novo programa de renegociação da União, o Propag, em dezembro de 2025, o governo gaúcho informou saldo de R$ 106,5 bilhões.

A suspensão de três anos que ele cita existe, mas não perdoou a dívida. Ela veio de uma lei complementar proposta pelo governo e aprovada pelo Congresso em maio de 2024, por 61 votos a 0 no Senado, depois das enchentes. Os juros do período, cerca de R$ 12 bilhões, foram perdoados. As parcelas, cerca de R$ 11,7 bilhões, só foram adiadas: voltam para o saldo da dívida e serão pagas até 2048. O dinheiro que deixou de ser pago tem de ir para o fundo de reconstrução do estado.

Santa Catarina deve cerca de R$ 11,2 bilhões à União, nove vezes menos que o Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria da Fazenda catarinense. O estado não teve a dívida suspensa nas enchentes de 2023 a 2026 e não aderiu ao Propag.

Publicidade

Quanto o Sul manda e quanto recebe

Em 2024, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul recolheram R$ 383,6 bilhões em impostos federais, pelos dados da Receita Federal. No mesmo ano, receberam R$ 86,2 bilhões em transferências da União, somando os repasses obrigatórios, como os fundos de participação dos estados e dos municípios, e os recursos para saúde, educação e convênios, segundo a Controladoria-Geral da União. Voltaram R$ 22,50 a cada R$ 100.

Santa Catarina é o estado do Sul que menos recebe de volta. Foram R$ 140,2 bilhões arrecadados e R$ 18,9 bilhões transferidos, ou R$ 13,50 a cada R$ 100. No Paraná, voltaram R$ 27,80; no Rio Grande do Sul, R$ 27,50. Contando só os repasses obrigatórios, Santa Catarina recebeu R$ 7 a cada R$ 100.

A conta tem limites. Ela não inclui o que a União gasta direto no estado, como as aposentadorias do INSS, os salários de servidores federais e as obras federais. E a Receita registra o imposto no estado da sede da empresa: entram na arrecadação de Santa Catarina os tributos de empresas catarinenses que vendem para o país inteiro e os R$ 23,7 bilhões de impostos sobre importação pagos nos portos do estado em 2024.

Socorro nas enchentes

No Rio Grande do Sul, a ajuda federal em 2024 chegou mesmo à casa dos bilhões, mas foi menor que o anunciado. O governo federal divulgou um pacote de R$ 111,7 bilhões, dos quais R$ 32 bilhões eram dinheiro novo. O resto era crédito, antecipação de benefícios, adiamento de tributos e a suspensão da dívida. O Tesouro Nacional informou que R$ 29 bilhões foram efetivamente gastos com o estado em 2024.

Publicidade

Em Santa Catarina, os repasses federais para a Defesa Civil somaram R$ 39,8 milhões em 2023, ano das enchentes no Vale do Itajaí, e R$ 63,6 milhões em 2024, segundo o Portal da Transparência. Em 2025 foram R$ 33,6 milhões. O valor não inclui gastos diretos da União, como o envio das Forças Armadas e a liberação do saque do FGTS.

Separar o Sul é proibido

Nesse ponto, o influenciador está certo. O artigo 1º da Constituição diz que o Brasil é formado pela “união indissolúvel” dos estados, municípios e do Distrito Federal, e o artigo 60 proíbe até emenda constitucional que tente abolir a federação. Defender a ideia, no entanto, não é crime: a lei que trata do tema só pune quem usa violência ou grave ameaça para tentar separar parte do território.

Leia também: 314 a favor e 27 contra: movimento que quer o Sul separado do Brasil faz consulta em Balneário Camboriú

Leia também: Nordestinos e nortistas se revoltam com consulta do movimento “O Sul é o Meu País” em Balneário Camboriú

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/politica/influenciador-petista-debocha-enchentes-sul-fenda-do-biquini

Publicidade
Publicidade
Publicidade