“Ana, guarda teu veneno pra minha eleição de 2030.” Foi com essa frase que o senador Jorge Seif (PL-SC) abriu a resposta em vídeo às declarações da deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), que o havia classificado como “o senador mais incompetente do Estado, talvez o mais incompetente do Brasil” em entrevista à Jovem Pan News Litoral. Em pouco mais de dois minutos, Seif acusou a colega de partido de fingir alinhamento ao bolsonarismo, cobrou que ela ataque os Bolsonaro pelo nome e encerrou com o apelido que resume toda a acusação: “Beijo, Joice Catarinense.”
As críticas da deputada vieram na primeira entrevista dela depois da convenção estadual do PL, que oficializou Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni como candidatos ao Senado por Santa Catarina. Além de chamar o trabalho do senador de “lamentável”, Campagnolo disse que Jair Bolsonaro “escolheu o filho errado” ao mandá-lo a Brasília e sugeriu que Seif teria “uma maneira carioca de ver o Estado catarinense”.
Por que “Joice”
O apelido não é aleatório. Joice Hasselmann é o nome que o bolsonarismo transformou em sinônimo de traição. Jornalista, ela se elegeu deputada federal por São Paulo em 2018 na onda de Jair Bolsonaro, com 1.078.666 votos, uma das maiores votações do país, e chegou a ser líder do governo no Congresso já em fevereiro de 2019.
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O casamento durou meses. Em outubro daquele ano, Joice perdeu a liderança e classificou a manobra como “uma traição clara”. Rompeu de vez com o Planalto, virou uma das vozes mais duras contra o governo, deixou o PSL em 2021 e migrou para o PSDB. Em 2022, tentou a reeleição e despencou: fez 13.679 votos, pouco mais de 1% do que havia conquistado quatro anos antes. Ao lado de Alexandre Frota, virou o exemplo que o bolsonarismo usa até hoje para descrever quem sobe na onda e depois se volta contra ela.
Chamar alguém de “Joice” nesse vocabulário não é comparação de estilo, é sentença política: significa dizer que a pessoa se elegeu com voto emprestado e vai desaparecer quando devolver.
A comparação já vinha sendo feita
Seif não inventou o rótulo. Em 9 de julho deste ano, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) publicou no X a imagem “Joice & Frota x Zé Trovão & Ana Campagnolo”, colocando a deputada catarinense e o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) na mesma prateleira dos dois ex-aliados de 2018.
Na mesma live, Eduardo justificou o lançamento de Jair Renan Bolsonaro à Câmara dizendo que o pai só pode confiar nos próprios filhos, porque haveria gente “se fantasiando de direita” e traindo o ex-presidente, “tipo Joice e Frota”. A fala foi feita depois de Zé Trovão chamar Bolsonaro de “covarde” em um podcast.
“Sabor direita”
Na resposta desta semana, Seif inverteu a acusação de deslealdade. “Nós sabemos que você quer se descolar do bolsonarismo. Por isso nas suas redes sociais não tem apoio ao Flávio. Por isso que esses dias o Eduardo te chamou de ingrata. Por isso que o Carlos já te desmascarou nas redes sociais”, disse.
O senador afirmou que a deputada nunca foi bolsonarista de fato. “Você é sabor direita, você não é de verdade. Você se aproveitou sempre do bolsonarismo e não embarcou no bolsonarismo”, declarou, antes de dizer que usou a tribuna do Senado “para mostrar para a população catarinense exatamente quem você é”. Seif também cobrou que ela dirija as críticas diretamente à família: “Quer atacar os Bolsonaro? Ataca. Não adianta só me atacar porque eu sou filho 06 do Bolsonaro.”
Foi o próprio apelido citado por Campagnolo na entrevista, quando ela disse que Seif “era chamado de 06” e que o ex-presidente teria errado ao escolhê-lo.
Você é uma traíra, e Jair Bolsonaro, como sempre, é o melhor pescador de traíras do Brasil.
Jorge Seif, senador (PL-SC)
O apoio protocolar a Carlos
A leitura de Seif se apoia no contraste que a própria entrevista de Campagnolo escancarou. Sobre a candidatura de Caroline de Toni ao Senado, a deputada foi calorosa e disse que vai trabalhar pela colega. Sobre Carlos Bolsonaro, também carioca, resumiu o apoio a uma obrigação de legenda: “O Carlos Bolsonaro é o candidato do partido, escolhido pelo partido. Estamos num período pré-eleitoral, a convenção foi ontem, temos todos obrigação de carregar o time 22.”
Para o senador, é exatamente aí que está a explicação do ataque. Na publicação no X, ele escreveu que à deputada “falta coragem para atacar nominalmente Carlos, Eduardo, Flávio ou Jair Bolsonaro” e que, por isso, ela o escolheria como alvo, “achando que, me atacando, atinge a família Bolsonaro e os bolsonaristas”. “O problema é que isso já não cola mais”, afirmou.
“O print é eterno”
Na sequência do mesmo texto, Seif fez a referência que sustenta o resto da acusação. “Pode apagar postagem, apagar perfil, apagar o que quiser… só esqueceu que o print é eterno. No caso, os prints.” E fechou lembrando a própria situação eleitoral: enquanto ele não disputa nada, a deputada estaria “mais preocupada” com ele do que com a própria eleição e com os candidatos que apoia.
Os tuítes de 2012
O ponto que Seif cobrou no vídeo, quando pediu que Campagnolo não apague mais as redes sociais “mostrando que você exaltava droga, que você exaltava adultério, que você exaltava alcoolismo”, remete a um episódio de 2019.
Naquele ano, publicações feitas pela deputada entre 2011 e 2012, quando ela tinha pouco mais de 20 anos e ainda era estudante, voltaram a circular. Os textos tratavam de suposto uso de maconha, relações extraconjugais, consumo de álcool e críticas à religião, temas em choque com a pauta conservadora que a projetou politicamente. O ND+ publicou reportagem sobre o caso em 8 de abril de 2019, atestando que as postagens estavam vinculadas ao perfil usado por ela, e a parlamentar desativou a conta no Twitter no mesmo dia.
À época, Campagnolo negou o uso de drogas e classificou o material como ironia. Disse que se tratava de “tuítes de 2012 ironizando manés que se drogam na faculdade” e atribuiu a circulação das imagens a adversários da esquerda. Em outra ocasião, explicou que cursava enfermagem no período e que piadas do tipo eram comuns entre colegas.
São essas capturas de tela, que voltaram a circular nas redes nos últimos dias, que Seif chama de “os prints”.
Mandato até 2031
O senador repetiu no vídeo o argumento que já havia usado no X: não está na disputa deste ano. O mandato de senador é de oito anos, e Seif foi eleito em 2022 para o período 2023-2031. A cadeira dele só volta às urnas em 2030. Atualmente, ele está licenciado, com o suplente Hermes Klann no exercício do mandato.
As duas vagas catarinenses em jogo em outubro são as ocupadas por Esperidião Amin (PP) e Ivete da Silveira (MDB), eleitos em 2018.
Seif também afirmou, sem apresentar comprovação, que a deputada teria “um projeto pessoal para fundar seu novo partido”. Campagnolo foi homologada pelo PL como candidata à reeleição para a Assembleia Legislativa e não anunciou publicamente qualquer movimento de mudança de legenda.
Entenda o caso
O racha entre Campagnolo e o entorno dos Bolsonaro em Santa Catarina começou em outubro de 2025, quando ela foi a primeira liderança do PL catarinense a se posicionar publicamente contra a vinda de Carlos Bolsonaro para disputar o Senado pelo Estado. Carlos respondeu chamando a deputada de “mentirosa”, e o então deputado federal Eduardo Bolsonaro classificou as falas dela como “totalmente inaceitáveis”, cobrando lealdade à liderança nacional.
Dias depois, Seif subiu à tribuna do Senado e disse que a parlamentar “não era nada até ontem, era professora”. A frase gerou reação de professores e de deputados na Alesc, e foi retomada por Campagnolo na entrevista desta semana, quando ela afirmou que o senador “tentou falar mal da deputada Ana e acabou falando mal de todos os professores”.
Em abril de 2026, Carlos publicou um texto no X acusando um “grupelho” de tentar aniquilar sua liderança no Estado. No mesmo mês, os dois se cumprimentaram no “Almoço de Ideias 2026”, em Governador Celso Ramos, e em maio uma reunião convocada pelo governador Jorginho Mello terminou com pedido público de desculpas de Carlos à deputada. Em junho, Eduardo voltou a criticá-la, dizendo que ela se comportava “igual siri na lata” ao minimizar uma eventual candidatura de Júlia Zanatta à vice-presidência.
Até a publicação desta reportagem, Ana Campagnolo não havia respondido publicamente ao vídeo e à postagem de Jorge Seif. As convenções partidárias podem ser realizadas até 5 de agosto, quando se encerra o prazo para os partidos fecharem oficialmente suas chapas para outubro.
































