A caneta do ministro e o microfone do presidente se cruzaram no mesmo dia. Na quinta-feira (30), o Supremo Tribunal Federal liberou a Polícia Federal para investigar o filho mais velho de Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção e tráfico de influência. Poucas horas depois, o próprio presidente sentou diante de um podcast, disse acreditar na inocência do filho e avisou que não vai usar o cargo para protegê-lo.
O ministro André Mendonça autorizou a abertura do inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para apurar suspeitas em tratativas envolvendo a autorização para comercialização de cannabis medicinal em programas ligados ao Ministério da Saúde. A investigação corre em sigilo e alcança também a empresária Roberta Luchsinger e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso desde 2025.
O pedido saiu da Polícia Federal no dia 24 e chegou ao gabinete de Mendonça no dia 29, por prevenção. Os investigadores haviam sugerido distribuição livre no tribunal, o que tiraria o caso das mãos do ministro. A Procuradoria-Geral da República concordou com a redistribuição, mas o processo voltou para o mesmo relator, que autorizou a apuração no dia seguinte.
ASSISTA AO VÍDEO
O que Lula disse
Questionado sobre o filho em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., o presidente misturou defesa pessoal e recado público. Disse que acredita na inocência de Lulinha, mas que não interferirá em nada e que o tratamento será o mesmo dado a qualquer brasileiro.
Se o meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como filho de qualquer pessoa, como eu. Não haverá nenhum privilégio.
Na sequência, o presidente colocou a própria trajetória como advertência ao filho. “Se ele estiver certo, ele vai ter a ajuda minha. Se ele fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei”, afirmou. Lula acrescentou que jamais pediria a um delegado ou a um juiz para deixar de fazer o trabalho corretamente, e que Lulinha terá de provar a inocência como ele próprio precisou provar. Se for culpado, disse, pagará o que qualquer pessoa paga quando erra.
Sobre a possibilidade de julgamento, o presidente afirmou que o filho, que mora na Espanha, virá ao Brasil e não ficará escondido. No mesmo trecho, sustentou que adversários usam Lulinha como atalho para atingi-lo desde 2006 e repetiu que acredita nele.
O que a PF apura
A linha de investigação parte da empresa World Cannabis, que pertencia ao Careca do INSS. Segundo os investigadores, o lobista contratou Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, para prospectar negócios no setor de cannabis medicinal junto ao governo federal. A empresa tentou negociar o fornecimento de medicamentos à base de canabidiol em 2024 e 2025, mas nenhum contrato chegou a ser fechado.
A representação enviada ao Supremo menciona contatos entre os investigados e servidores públicos, incluindo integrantes do gabinete presidencial. No início de 2025, o lobista foi recebido no Ministério da Saúde por Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário-executivo da pasta. Depois de deixar o ministério, Berger assumiu a chefia do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do Gabinete Pessoal da Presidência da República. Em nota, ele afirmou que a agenda ocorreu em conformidade com as atribuições do cargo e negou qualquer orientação para realizá-la.
Registros oficiais de acesso ao Ministério da Saúde mostram que Luchsinger esteve quatro vezes no prédio entre 2023 e 2024, com apenas um dos encontros lançado em agenda oficial. O lobista esteve cinco vezes, duas delas em 2025 já como presidente da World Cannabis.
A defesa reage
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa Lulinha, classificou a abertura do inquérito como uma tentativa de encontrar provas sem alvo definido. Disse receber a decisão com estranheza, mas com tranquilidade, e sustentou que a apuração sobre as fraudes no INSS não localizou nenhum elemento que ligasse o filho do presidente ao esquema. A defesa também questionou a competência do Supremo para o caso e afirmou não ter tido acesso formal ao processo.
A impressão que passa é que a Polícia Federal está promovendo uma espécie de pesca probatória.
A defesa de Roberta Luchsinger informou não ter dados sobre o novo inquérito, afirmou que os fatos já foram objeto de apurações anteriores e disse que jamais houve repasse de valores a Lulinha. Para a empresária, reabrir uma investigação envolvendo o filho do presidente às vésperas do processo eleitoral só teria sentido para exploração política.
O caso maior
O novo procedimento nasce ao lado de uma apuração mais antiga. Nos autos da Operação Sem Desconto, que investiga descontos associativos estimados em R$ 6,3 bilhões em aposentadorias e pensões entre 2019 e 2024, uma das linhas verifica se Lulinha teria atuado como sócio oculto do Careca do INSS. Em fevereiro, Mendonça já havia autorizado a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do empresário.
O andamento dessa investigação virou ponto de atrito. O ministro fixou prazo de 60 dias para a Polícia Federal concluir a análise do material apreendido e exigiu que qualquer troca de policiais da equipe fosse justificada previamente ao Supremo. A corporação respondeu que não conseguiria cumprir o prazo, alegando contar com onze policiais no caso quando precisaria de mais de quarenta, e informou ter analisado cerca de 40% de aproximadamente 1.700 itens recolhidos.
Não há denúncia, indiciamento ou acusação formal contra Fábio Luís Lula da Silva. O inquérito autorizado nesta quinta-feira é o passo inicial da apuração, que corre em segredo de Justiça. A investigação começa a menos de três meses da eleição de outubro, quando o eleitor catarinense volta às urnas para escolher presidente.




































