Um bando de urubus girando baixo sobre o quintal foi o primeiro sinal de que havia algo errado na beira do rio. Um morador de 67 anos do bairro Jardim Dourado, em Porto Belo (SC), chegava com a ração do gado no fim da tarde quando percebeu as aves concentradas no mesmo ponto, na margem de um afluente do Rio Perequê que corta o fundo do terreno. Foi até lá conferir e viu um vulto parado dentro da água, de bruços. Por volta das 16h15, ele acionou a Polícia Militar.
A primeira impressão foi de que não se tratava de uma pessoa. “É um boneco que está lá, ou um porco, alguma coisa”, disse o morador ao descrever o que pensou naquele instante. O genro chegou logo depois, olhou mais de perto e desfez a dúvida. “Não, senhor, eu acho que é um corpo.” Ninguém encostou. A família recuou e ligou para a emergência.
Uma moradora da mesma casa contou à reportagem que chegou no momento em que o cunhado voltava do rio. Ela se aproximou da margem e confirmou o que os outros já suspeitavam. “A minha perna tremeu, deu dor de cabeça, deu tudo”, relatou. A reação seguinte foi imediata: “Então vamos, não vamos contar tempo, gente. Vamos ligar para a polícia, vamos ver o que eles fazem.”
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Ao telefone, ela fez questão de se identificar por completo antes mesmo de a atendente pedir. Deu nome, rua, bairro e número da casa, preocupada em não ser confundida com um chamado falso. “Porque às vezes tem muito trote por aí”, explicou. Depois, ficou aguardando na frente da residência, como foi orientada, até a chegada da guarnição.
A Polícia Militar confirmou no local que se tratava de um corpo em estágio avançado de decomposição dentro da água. “Um morador local localizou um corpo nas águas aqui da área e fez acionamento da Polícia Militar para averiguações”, relatou a corporação. O Corpo de Bombeiros Militar foi acionado para prestar apoio e fez a retirada do corpo do rio, com a presença também da Polícia Científica e da Polícia Civil no atendimento.
A causa da morte segue indefinida. Segundo a Polícia Militar, não é possível determinar por enquanto se houve afogamento, morte natural ou sinais de violência. O corpo foi encaminhado para exame pericial, e é o laudo da Polícia Científica que deve responder tanto à identificação quanto às circunstâncias.
Também não há, até o momento, registro de desaparecimento na região que possa ser cruzado com o caso. A corporação informou que não existe ocorrência aberta de pessoa desaparecida compatível com o corpo encontrado, o que amplia a possibilidade de a vítima ter vindo de outro município.
Terceiro corpo em 48 horas no Litoral Norte
O corpo de Porto Belo é o terceiro encontrado na região em pouco mais de 48 horas. Na tarde de quarta-feira (26), equipes de segurança localizaram no Alto São Bento, região de morro em Itapema, o corpo do estudante de Direito Brendon Lucas, de 23 anos, natural de Dourados, no Mato Grosso do Sul. Ele estava desaparecido desde a noite de sábado (22) e foi achado em uma cova aberta em trecho de mata de acesso difícil.
O ponto onde o corpo do estudante foi encontrado é apontado como posição de vigia usada pelo crime organizado, de onde é possível enxergar todo o bairro. A linha levantada por quem acompanhou as buscas é a de que o jovem teria subido o morro para comprar droga e teria acabado morto após um desacerto no local. A Polícia Civil não confirmou a motivação nem divulgou a causa da morte.
Na manhã desta quinta-feira (27), poucas horas antes do caso de Porto Belo, outro corpo foi encontrado em um matagal às margens da BR-101, no bairro Tabuleiro, também em Itapema. A vítima foi identificada como José Dário Siqueira Junior, de 36 anos, natural de São Bento do Sul, que vivia em situação de rua e acumulava mais de 64 passagens pela polícia. O corpo estava de bruços, com uma pedra de grandes dimensões ao lado da cabeça, e a Polícia Militar registrou a ocorrência como homicídio doloso.
Os três casos são apurados de forma independente e, até o momento, não há qualquer elemento que os relacione entre si. O corpo encontrado em Porto Belo não tem identificação, e a Polícia Militar informou que não existe registro de desaparecido na região compatível com o caso.
O tempo de exposição explica a quantidade de aves que denunciou o local. Segundo o morador, havia cerca de dez urubus sobre o ponto quando ele se aproximou, e os animais já se movimentavam em direção ao corpo. Foi justamente esse movimento no céu, visível de dentro do terreno, que levou a família a caminhar até a margem no fim da tarde.
Quem mora ali convive com o rio há décadas. O morador que encontrou o corpo está no mesmo endereço há 25 anos. Outra moradora da casa fala em 27 ou 28 anos no local. Em todo esse período, segundo os dois, nunca havia acontecido nada parecido. “Estou igual uma bailarina, com as pernas bambiando, de nervoso”, contou ele, ainda no quintal, enquanto aguardava a liberação da área.
A rotina do bairro, descrevem, é tranquila e vigiada. “A polícia passa todo dia aqui na frente, pra lá e pra cá. Todo dia faz a ronda aqui, direto”, afirmou o morador. Nos dias anteriores, nenhum dos dois percebeu movimentação estranha, barulho fora do comum ou circulação de desconhecidos nas proximidades da margem.
O que mais intriga a família é o trajeto. Segundo o relato, o curso d’água não tem continuidade a montante do terreno, o que torna difícil explicar de onde o corpo teria vindo. “Pra lá o rio não passa. Aí lá ele corta pra lá direto, aqui não tem acesso d’água. Então, como é que esse corpo chegou ali?”, questionou o morador. “Tem alguma coisa, tem algum mistério.”
A moradora, por sua vez, resumiu o incômodo de outra forma. Ela diz que repetia a mesma frase havia anos, quase como presságio. “Eu sempre falava, toda vida eu falava, um dia vai passar um corpo nesse rio. E dito e feito.” Sem saber se a vítima é homem ou mulher, jovem ou idosa, ela pensou primeiro em quem está do outro lado da história. “A família deve estar procurando. Muitos já perderam a chance de procurar, porque não sabem nem o que aconteceu.”
O apelo dela é por desfecho, não por explicação. “Pelo menos que dê um enterro digno para esse cadáver que está no rio”, disse. Até que o laudo fique pronto, o caso segue sem nome, sem idade e sem origem confirmada, com a apuração concentrada em cruzar as características do corpo com registros de desaparecimento na região.
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