Nas ruas de Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, a rotina não dá trégua. Mesmo convivendo diariamente com as dores causadas por uma hérnia de disco e osteoporose, a catadora Neli não deixa de empurrar seu carrinho grande e pesado para recolher plásticos, latas e outros materiais recicláveis.
Com quatro décadas dedicadas à reciclagem, sua história veio à tona após um encontro emocionante com o influencer digital Leonardo Battiston, idealizador do projeto “Quarta Love”, que aborda trabalhadores nas ruas para entregar flores e ouvir suas trajetórias.
A dura realidade dos números e a escolha do material
Ao ser abordado, o influenciador tentou mover o carrinho e sentiu o impacto físico do trabalho de Neli.
“Posso pegar para ver? Pesado, tá louco, não é para qualquer um”, disparou Leonardo. Ele logo percebeu a estratégia que a trabalhadora precisa adotar no dia a dia para não agravar seus problemas de saúde: “O papelão não adianta levar que pesa muito. Eu entro dentro e tiro os plástico”, explicou ela.
A recompensa financeira por tanto esforço impressiona pela fragilidade dos valores. Ao ser questionada sobre quanto gera um carrinho totalmente lotado, a resposta revela o tamanho da batalha diária.
“Mas num carrinho acho que dá uns 15 pila. (…) Quando eu acho bastante que fecha o carrinho inteiro, dá uns 300 por mês, mas quando é assim, dá 200 por mês.”
O peso do carrinho e o limite do corpo
Com limitações médicas claras, Neli reconhece que está extrapolando o que seu corpo suportaria.
“Só o que tá aí, porque eu tenho hérnia de disco e osteoporose, daí não posso carregar muito peso. Pelo certo, eu não podia tá trabalhando, mas eu preciso, né?”, relatou a trabalhadora. Ela ainda explicou o cuidado constante ao manusear a ferramenta de trabalho: “Não pode ir assim, empurrar cai. Preciso eu ter que segurar ele.”
Sensibilizado pela situação e pela força de Neli, o influenciador pediu os dados bancários da catadora para realizar uma contribuição via Pix. A reação imediata foi de pura gratidão.
“Ô, glória a Deus. Deus te abençoe, tá? (…) Graças a Deus, encontro uns filho de Deus que nem você para ajudar a gente.”
Quatro filhos criados e a alegria de ser bisavó
Apesar de a rotina ser exaustiva, o combustível de Neli sempre foi a família. Durante a conversa, ela destacou com orgulho que o trabalho nas ruas garantiu o sustento da casa ao longo das últimas décadas.
“Eu tenho quatro [filhos], mas são casado. Consegui criar eles. (…) Nunca faltou nada. Não, graças a Deus. Sempre, sempre eu consigo”, comemorou. Hoje, ela celebra a ampliação da família: “Já sou bisa. Quatro bisneto eu tenho.”
Mesmo diante de todas as adversidades do cotidiano, Neli faz questão de manter o alto-astral e dar uma lição de resiliência para quem cruza o seu caminho.
“Sempre eu sou assim. Que não adianta a gente ficar jururu no canto lá e não lutar. Tem que levantar a cabeça.”















