O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que quer levar o modelo brasileiro de votação para o resto do planeta e usou a palavra “bandalheira” para descrever o que enxerga nas eleições de outros países. A declaração foi dada nesta quinta-feira (17), em entrevista à Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, com transmissão ao vivo pelo canal do presidente no YouTube, a menos de três semanas do primeiro turno.
“Aqui as eleições são nossas, nós temos o processo eleitoral mais seguro, sabe, do mundo”, disse Lula na entrevista. Em seguida, comparou o sistema brasileiro ao norte-americano: “O Trump, se tivesse utilizado o processo brasileiro, não teria problema de ficar esperando vários dias para saber o resultado eleitoral”.
Foi nesse ponto que o presidente estendeu a proposta ao mundo inteiro. “Tem uma coisa que eu quero fazer, é convidar todo mundo para vir à eleição brasileira. Quem sabe a gente consiga introduzir o voto eletrônico em todos os países do mundo e aí quem sabe para com toda a bandalheira eleitoral no mundo”, afirmou. Ele também disse estar “muito tranquilo” com o pleito deste ano.
Ao descrever a rapidez da apuração, Lula disse que a votação termina às 18h e que o resultado sai às 20h. A votação nas eleições brasileiras se encerra às 17h, no horário de Brasília. Em declarações anteriores sobre o mesmo tema, o próprio presidente citou os horários corretos, afirmando que a eleição acaba às cinco da tarde e que às sete da noite o país já conhece o resultado.
A fala desta quinta é o desdobramento mais recente de uma sequência de manifestações do presidente sobre urnas e soberania eleitoral. Na quarta-feira (16), no Palácio do Planalto, em encontro com lideranças evangélicas do Brasil, dos Estados Unidos e de Cuba, Lula chamou Donald Trump de amigo e disse: “Eu já disse inclusive ao meu amigo Trump, não se meta nas eleições brasileiras, que esse é um problema do povo brasileiro. E não duvide das urnas brasileiras”.
No mesmo encontro, o presidente apresentou a própria trajetória como argumento de confiabilidade do sistema. “A prova mais contundente que eu tenho de que a urna brasileira é a mais séria do mundo é que se ela pudesse roubar, o Lula não seria presidente da República três vezes”, declarou.
Em 4 de setembro, em entrevista à Rádio Progresso, em Juazeiro do Norte, no Ceará, Lula havia relatado ter tratado do assunto diretamente com o presidente norte-americano por telefone. “Nós não aceitamos ingerência de ninguém nas eleições e, se entrar, vai perder”, disse ter afirmado a Trump.
A ideia de exportar o modelo brasileiro já tinha aparecido em junho, em registro que ganhou repercussão internacional. Durante a cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França, câmeras da agência Associated Press captaram Lula conversando com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, e com o chanceler alemão Friedrich Merz. “Eu não sei por que a ONU não adota o sistema eletrônico como orientação aos países”, disse na ocasião. A versão desta quinta troca a linguagem diplomática pelo vocabulário de campanha.
O convite para que estrangeiros acompanhem a votação também não é novo. Na convenção do PDT, em 20 de julho, o presidente afirmou: “Estou convidando quem quiser vir do mundo para ver as eleições aqui no Brasil. Quem quiser pode vir acompanhar”. Na sequência, disse que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, poderia vir apoiar seu adversário e até montar comitê, desde que respeitasse a soberania nacional.
Na prática, a entrada de observadores não depende do presidente. Quem credencia missões de observação é o Tribunal Superior Eleitoral, e apenas organismos formalmente convidados pela Corte participam do pleito deste ano: Organização dos Estados Americanos, Rede dos Organismos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da CPLP, União Europeia e União Interamericana de Organismos Eleitorais. O Eurolat Global Democracy Forum pediu credenciamento e foi recusado, sob o argumento de que a entidade não é organismo internacional.
Cinco dias depois do convite feito na convenção do PDT, em 25 de julho, o governo brasileiro barrou a entrada de representantes norte-americanos que pretendiam cumprir agenda ligada às eleições no país. O Planalto sustenta que missão de observação eleitoral é uma coisa e reunião política com integrantes de governo estrangeiro é outra.
O debate sobre as urnas voltou ao centro da campanha depois que o senador Flávio Bolsonaro, em encontro com diplomatas no dia 21 de julho, defendeu a ampliação do número de observadores internacionais e citou a empresa Smartmatic, afirmando que os equipamentos usados no Brasil teriam a mesma origem da companhia. O TSE contesta a afirmação e diz que a Smartmatic não fornece urnas nem softwares para as eleições brasileiras e nunca participou da programação dos equipamentos.
A tese de que o sistema eletrônico explica o desempenho eleitoral do presidente também já foi verificada por agências de checagem. Lula foi eleito deputado federal em 1986, quando os votos ainda eram contados em papel, e perdeu a eleição presidencial de 1998, disputada já com urna eletrônica em municípios com mais de 40 mil eleitores.























