Numa foto antiga, um policial militar aparece deitado ao lado de um berço, de farda, dando mamadeira a um bebê. Na manga, o escudo de Santa Catarina. Anos depois, a mesma menina apareceu em forma, com a farda da Polícia Militar de Santa Catarina no corpo, durante a solenidade realizada em Itajaí.
Sobre a foto antiga, Jessica Juliana escreveu uma frase só: “Pai, a filha que você adotou seguiu a sua profissão.”
É a chave da história. A profissão não veio pelo sangue. Veio da convivência, do exemplo e de duas escolhas feitas em momentos diferentes da vida: a dele, quando decidiu criá-la como filha; a dela, quando decidiu vestir a mesma farda.
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Na legenda da publicação, Jessica resumiu o que aquilo significava. “É muito mais que um sonho realizado. É a continuação de um lindo legado”, escreveu. Logo depois, admitiu que o caminho foi duro: “Só Deus sabe de todos os nossos percalços pelo caminho.” Fechou com o apelido pelo qual chama o pai.
A publicação encheu de mensagens de colegas e de quem esteve na cerimônia. “Um dos momentos mais lindos que eu já presenciei”, escreveu uma das pessoas que acompanharam a solenidade, agradecendo por ter participado da noite.
A cerimônia em Itajaí seguiu o rito da Formatura do Fogo, a mais simbólica da formação policial militar. À noite, em forma no pátio, os alunos-soldados aparecem com tochas acesas nas mãos. É o momento em que a farda operacional é vestida pela primeira vez, ato que a corporação descreve como a passagem da vida civil para a vida militar.
A turma faz parte do Curso Básico de Formação (CBF) 2026, iniciado pela PMSC em junho com os 975 aprovados no edital nº 200/CCP/2025, do Serviço Militar Estadual Temporário. O curso segue até o fim de outubro. O número de formandos da solenidade de Itajaí não foi informado.
Pelo edital, o soldado temporário atua no policiamento ostensivo a pé e com bicicleta, em operações policiais militares de trânsito, no policiamento de eventos, na segurança escolar, na guarda de quartel, no videomonitoramento, no atendimento do Copom, em bases comunitárias e, com treinamento complementar, no Proerd. Também pode auxiliar em seções administrativas das unidades.
Há limites claros. É vedado ao policial militar temporário atuar em policiamento com viatura, motocicleta ou montado, e ele não tem acesso a setores de inteligência, de planejamento e de fiscalização. Também não pode fazer cursos destinados a militares de carreira.
O vínculo inicial é de 12 meses, com possibilidade de prorrogação até o limite de 96 meses de serviço efetivo. Durante o curso, o subsídio é de R$ 8.505, acrescido de auxílio-alimentação de R$ 550.
Itajaí entra nessa conta pressionando por efetivo. Em reunião com o comando-geral da PMSC, a Associação Empresarial de Itajaí e o Conselho das Entidades entregaram ofício pedindo reforço permanente das polícias Militar e Civil no município, que se aproxima dos 300 mil habitantes e recebe fluxo diário de trabalhadores, turistas e visitantes. Na ocasião, o comando informou que um novo processo deve disponibilizar cerca de mil vagas para policiais militares temporários, distribuídas por critérios regionalizados. Itajaí é sede do 1º Batalhão de Polícia Militar, ligado ao 3º Comando Regional de Polícia Militar.
Nada disso aparece na foto que Jessica postou. Na imagem, o que existe é um homem de farda com uma mamadeira na mão e um bebê que ainda não sabia nada de escudo, de hierarquia ou de ordem pública. Anos depois, o escudo é o mesmo e a farda é a mesma. Mudou quem está dentro dela.















