“Tragédia anunciada”: limpeza de rio pela prefeitura desbarranca terreno e ameaça casas em Palhoça
Moradores de Palhoça dizem que o terreno cedeu depois que uma máquina da prefeitura passou para limpar o leito do rio. Segundo eles, prefeitura, Secretaria de Obras e Defesa Civil foram acionadas e não apresentaram solução.
Por Equipe Jornal Razão·17 ago 2026·7 min de leitura·Atualizado há 1 dia
Foto: Reprodução
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O celular passeia pelo quintal e para no que interessa: entulho espalhado, tábuas soltas, um latão virado e, atrás de tudo, um barranco aberto a poucos metros da parede da casa. “É assim que o cara acorda, ó, depois da limpeza da prefeitura”, diz o morador, em Palhoça, na Grande Florianópolis.
As imagens chegaram à redação enviadas por um morador da Barra do Aririú e mostram o efeito de um serviço que, no papel, existia justamente para proteger quem vive ali: a limpeza do leito do rio. Uma máquina da prefeitura entrou para desobstruir o curso d’água e, segundo os moradores, o que ficou depois da passagem dela foi a barranca inteira desmoronando junto às construções.
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“Tu demoliu a minha casa e olha só como é que ficou, desbarrancando tudo aqui”, reclama o morador no registro. Ele conta que foi cobrar explicação e ouviu a mesma resposta em cada porta que bateu. “Ah, eu não tenho nada a ver com isso. Como que não tem nada a ver com isso?” Em contato com o Jornal Razão, ele afirma que já esteve na prefeitura e ligou para a Defesa Civil, e que parte da casa está prestes a cair por causa da máquina.
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Trinta anos e uma escritura
Em outro ponto do município, no bairro Vila Nova, a queixa é a mesma e vem acompanhada de um documento. A moradora afirma ter escritura pública do terreno e diz viver no mesmo endereço há mais de três décadas. Quando chegou, garante, ali não havia rio nenhum: era uma fazenda cheia de gado, cortada por uma vala pequena.
“Não existia o rio, simplesmente não existia o rio”, repete ela. Para dar a medida do tempo, usa o filho como régua: era uma valinha que o menino, então com 4 anos, pulava de um lado para o outro. “Hoje ele tá com 34.”
Depois vieram o loteamento e o canal. A cada ano, dizem os moradores, o rio ganhou mais largura e mais margem, empurrando a água para perto de quem já estava ali. Segundo eles, a prefeitura alega que as casas foram erguidas sobre o rio, argumento que a vizinhança contesta com a cronologia e com a escritura na mão: os moradores chegaram primeiro.
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A barranca rente à casa
O desbarrancamento se agravou nos últimos dias, com o volume de chuva que caiu sobre a região, e é isso que assusta quem mora na beira. O repórter Sérgio Guimarães, que gravou no local, reconhece que a limpeza do rio precisava ser feita, mas afirma que a máquina trabalhou perto demais das residências e classificou o quadro como “tragédia anunciada”.
“Ninguém dá uma solução”
Os moradores dizem ter acionado prefeitura, Secretaria de Obras, Defesa Civil, vereadores e até o governo do estado, sem retorno prático.
A gente recorre pra Defesa Civil, recorre pra prefeitura, recorre pra secretário de obra e ninguém dá uma solução pra nós
“É um descaso”, resume a moradora. Perguntada se o pessoal está com medo, responde sem rodeio: “Tudo apavorado”. E lembra que não são casas vazias: “Tem criança, família que mora aqui.”
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O morador que gravou o primeiro vídeo encerra o registro com um pedido que dá a dimensão da urgência sentida por quem dorme ao lado do barranco: “compartilha aí, antes da minha casa cair”.
Até a publicação desta reportagem, os moradores afirmam não ter recebido resposta formal, previsão de vistoria nem cronograma de obra de contenção. Eles cobram que o talude seja refeito e as construções asseguradas antes do próximo temporal. O Jornal Razão mantém o espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Palhoça, da Secretaria de Obras e da Defesa Civil.