A busca por alívio para uma dor intensa terminou em uma marca irreversível na vida de um adolescente em Santa Catarina. O que começou como uma dor testicular forte, acompanhada de náuseas e vômitos, transformou-se em uma sucessão de falhas no atendimento da rede pública municipal de Balneário Piçarras, culminando na perda definitiva de um dos seus testículos.
Ao procurar o serviço de saúde local, o adolescente recebeu um diagnóstico inicial de suspeita de hérnia, foi medicado para conter os sintomas e orientado a buscar um posto de saúde nos dias seguintes. No entanto, o quadro exigia urgência extrema: a torção testicular é uma emergência médica na qual cada hora conta para salvar o órgão. A ausência de um exame físico adequado, a falta de uma ultrassonografia de emergência e o não encaminhamento imediato a um centro especializado selaram o destino do paciente.
Com o agravamento inevitável do quadro, o adolescente retornou à unidade de saúde. Quando a torção foi finalmente diagnosticada, a falta de irrigação sanguínea já havia provocado a necrose do testículo direito. A única opção restante foi a cirurgia de remoção (orquiectomia).
Falha médica e a decisão da Justiça
A ação tramitou na 3ª Vara da Fazenda Pública e Juizado Especial Regional da Fazenda Pública da comarca de Joinville. Em sua defesa, o Município de Balneário Piçarras argumentou que não houve falha médica, alegando que a torção testicular é uma condição de diagnóstico complexo e que o desfecho teria decorrido da evolução natural da doença.
No entanto, a perícia médica judicial desmistificou a tese da prefeitura. O laudo técnico concluiu que o primeiro atendimento cometeu erros gravíssimos e que os sintomas apresentados eram “classicamente compatíveis” com a torção. Segundo o perito, qualquer conduta médica diligente teria colocado essa hipótese como prioridade diagnóstica imediata.
Com base na prova pericial, o juiz do caso reconheceu a responsabilidade direta da rede pública no resultado trágico. A sentença destacou que perder um órgão reprodutivo durante a adolescência causa um impacto que vai muito além do sofrimento físico, gerando abalos psicológicos profundos e uma alteração anatômica permanente.
Condenação
O Município foi condenado ao pagamento de R$ 35 mil por danos morais e R$ 20 mil por danos estéticos. Por envolver um menor de idade, o processo tramita sob segredo de justiça.
























