A Polícia Federal investiga a suspeita de desvio de R$ 4.183.266,58 no Hospital Municipal Monsenhor José Locks, em São João Batista. O inquérito foi aberto em 27 de dezembro de 2023 para apurar o crime de peculato e corre na 1ª Vara Federal de Itajaí. O Jornal Razão teve acesso à íntegra do processo, com 215 páginas.
A investigação mira representantes do Instituto Vidas de Assistência à Saúde, da Associação da Redeh de Beneficência Cristã e da empresa Método Desenvolvimento, entre outras. O Instituto Vidas atuou no pronto-socorro e nas especialidades médicas do hospital a partir de 2017, e a Redeh assumiu a gestão da unidade em 2018.
O caso nasceu de uma nota técnica da Controladoria-Geral da União (CGU) feita a pedido da PF, que depois ganhou uma segunda nota do órgão. Segundo a CGU, a Prefeitura de São João Batista pagou R$ 49,9 milhões às duas entidades de 2017 a 2021. Pelo menos R$ 15,5 milhões desse dinheiro vieram da União.








O mesmo serviço, pago três vezes
A CGU apontou R$ 2,48 milhões em pagamentos irregulares. Entre julho de 2018 e dezembro de 2019, o serviço de responsabilidade técnica do hospital foi cobrado ao mesmo tempo em três contratos: R$ 12 mil por mês em cada um dos dois termos de fomento, pagos à Redeh, e R$ 15 mil por mês no convênio, pagos à empresa Integra Serviços Médicos. Entre junho de 2017 e junho de 2018, a mesma cobrança tinha sido feita em dobro.
Os serviços de controle, avaliação e regulação seguiram a mesma lógica. Para a CGU, além da cobrança repetida, esse trabalho cabe à própria Secretaria Municipal de Saúde, pelas regras do SUS, e não a uma empresa ligada ao prestador. Pela conta do órgão, a Redeh recebeu R$ 1,36 milhão de forma irregular, a Método recebeu R$ 845 mil e a Integra, R$ 270 mil.
A CGU também apontou o pagamento de R$ 364 mil à Método e à Redeh por “acreditação”, o selo de qualidade dos hospitais. Nenhuma das duas está entre as instituições credenciadas para conceder esse selo.
Os laços entre as empresas
Segundo a CGU, o Instituto Vidas, a Redeh, a Método e a Integra têm vínculos diretos e indiretos entre sócios e ex-sócios. A Método já teve como sócia a irmã do ex-presidente do Instituto Vidas. Um presidente da Redeh foi sócio da Método até 2018. A Integra está em nome da companheira, ou ex-companheira, do ex-presidente do Vidas e de uma empresa registrada em nome dos filhos do casal.
Um dos relatórios apresentados pela Método sobre o hospital foi assinado, como avaliador administrativo, por um homem registrado como motorista de caminhão-guincho numa empresa que já teve o ex-presidente do Instituto Vidas como sócio. Outro relatório, que deveria comprovar o serviço da Método, foi feito em papel timbrado do próprio Instituto Vidas.
Plantões fora do cadastro
A CGU comparou as horas de plantão informadas pela Secretaria de Saúde com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Em agosto de 2017, a secretaria informou 300 horas de plantão de um médico, e o cadastro registrava 64. Em 2019, três dos cinco médicos com mais horas não tinham nenhum registro em São João Batista. Para a CGU, há indício de plantão pago e não feito, ou de lançamento irregular no cadastro. Os plantões desse contrato custaram R$ 3,1 milhões.
R$ 28,6 milhões sem comprovação
Em dezembro de 2019, o convênio com a Redeh deu lugar a um contrato, e o repasse mensal passou de R$ 488.955,87 para R$ 1.043.843,01, uma alta de 113,5%. Em junho de 2020, um aditivo levou o valor a R$ 1.069.643,01. Em 2020 e 2021, a Redeh recebeu R$ 28,6 milhões por esse contrato.
A Redeh e a Prefeitura se negaram a entregar à CGU os extratos bancários e as notas desses gastos. A Redeh alegou que o contrato só exige a comprovação das metas de atendimento. Para a CGU, a troca do convênio pelo contrato “pode ter tido por objetivo exatamente eximi-los de prestar contas aos órgãos de controle”.
Em resposta à CGU, a Secretaria de Saúde afirmou que, com a gestão da Redeh, os atendimentos de urgência e emergência cresceram mais de 400% em relação à época em que a Prefeitura administrava o hospital, e que a unidade passou a oferecer cirurgias eletivas e consultas especializadas pelo SUS.
Onde está o caso
O inquérito ficou na Justiça Federal de Itajaí depois que o MPF de Joinville pediu que o caso fosse apurado separado de outros quatro inquéritos sobre as mesmas entidades, em Joinville, Três Barras, Canoinhas e Massaranduba. Em maio de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu acesso às provas para avaliar uma ação de improbidade administrativa, e o MPF concordou.
Segundo despacho da PF de maio de 2026, os investigados optaram por não ser ouvidos. Em junho, o MPF deu mais 60 dias para a conclusão do inquérito e, em 24 de agosto, concedeu mais prazo à PF. Até esta terça-feira (3), o processo não tinha relatório final, segundo a consulta pública da Justiça Federal.
Desde 1º de junho de 2026, a Prefeitura de São João Batista voltou a administrar o hospital. Segundo a Prefeitura, a Redeh recebia cerca de R$ 1,1 milhão por mês. A nota da Prefeitura sobre a mudança não cita a investigação, e o prefeito Juliano Peixer disse que a decisão saiu de um estudo de modelos de gestão hospitalar. “A expectativa é que, com esta mudança na gestão, possamos construir um modelo mais próximo das necessidades da população”, afirmou.
O Jornal Razão deixa o espaço aberto para a manifestação do Instituto Vidas, da Redeh, da Método, da Integra e da Prefeitura de São João Batista.
© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/justica/escandalo-saude-sao-joao-batista-pf-investiga-desvio-hospital
















