Na manhã de 9 de abril, um homem de Blumenau foi parado no portão de embarque do Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis. O cão farejador não achou nada com ele. A polícia o levou assim mesmo ao MultiHospital, e a radiografia mostrou o que a bolsa não tinha: um pacote cilíndrico de cocaína escondido no ânus, com cerca de 270 gramas.
O passageiro era Tellyson Alexandre Gonçalves Ferreira, formado em medicina na Bolívia. O voo dele ia para São Paulo, mas o destino final, segundo a investigação, era Moscou.
A partir daquele pacote, a Polícia Civil chegou a uma casa de alto padrão na Rua Coral, em Jurerê Internacional, onde morava o russo Mikhail Volodin. Cinco meses depois, o caso saiu do tráfico e virou outra coisa: uma disputa entre a defesa de Volodin, que acusa policiais penais de extorquir a família dele em R$ 1,5 milhão, e o governo de Santa Catarina, que nega tudo.

O Jornal Razão analisou as decisões dos processos da Operação Moscou na Justiça Federal e reconstruiu o caso.
O vizinho que só regava as plantas
A casa de Jurerê não chamava atenção. A fachada era coberta por vegetação e flores, e os vizinhos contaram ao portal ND que quase não trocavam palavra com o morador. Um deles disse que mora na rua há 13 anos e só via o russo regando as plantas. Segundo os moradores, Volodin estava ali desde antes da pandemia.
Para a Polícia Civil, a escolha do bairro foi estratégica: o vaivém de carros e turistas em Jurerê ajudava a esconder a operação.

Dentro da casa havia um laboratório. Segundo a decisão que converteu a prisão em preventiva, os policiais encontraram os produtos químicos num quarto anexo à área de serviço e os tabletes de cocaína na parte de cima de uma despensa.
O que saiu de lá, conforme os autos:
- 11,37 quilos de cocaína em 13 tabletes
- 7,72 quilos de pasta base
- 1,235 quilo de cocaína em folha de coca
- ácidos sulfúrico e clorídrico, centrífuga, provetas e béqueres
- celular, notebook, tablet, passaporte e um carro
- dinheiro em dólar, euro e rublo
Na audiência de custódia, Volodin disse que morava sozinho com o animal de estimação. O Ministério Público Federal aponta que ele tem dupla nacionalidade, brasileira e russa, vários passaportes e apoio financeiro da família no exterior, o que indicaria risco de fuga.
O organograma: o russo, a mula e o irmão gêmeo
No relatório da Polícia Civil, o esquema tem três nomes e três funções.
Volodin é o “mentor e fornecedor”, tratado pelo grupo como “O Russo”. Tellyson, o médico, é o “operador logístico”, ou seja, a mula que levava a droga no corpo. E Telynon Alexandre Gonçalves Ferreira, irmão gêmeo de Tellyson, é o “articulador”, responsável por recrutar e preparar quem faria o transporte.
Telynon foi preso em Blumenau dias depois. Na casa dos irmãos, a polícia apreendeu 499,6 gramas de cocaína do tipo “escama de peixe”, uma das mais puras do mercado, avaliada pelos investigadores em cerca de R$ 50 mil. Também havia balanças de precisão, camisinhas e filme plástico, o material usado para embalar a droga que segue dentro do corpo.
Segundo o delegado Renan Balbino, os presos integram uma rede internacional estruturada, com divisão clara entre produção, transporte e distribuição no exterior. O caso foi para a Justiça Federal porque a cocaína tinha destino no exterior.
Em junho, a Polícia Civil anunciou o fim da quarta e última fase da operação. A soma de bens bloqueados, incluindo a mansão de Jurerê, o carro e as contas bancárias, passa de R$ 4 milhões.
Na cadeia, a história vira outra
Volodin está preso preventivamente na Penitenciária de Florianópolis, na ala de segurança máxima. A defesa afirma que ele dorme no chão de uma cela de cerca de cinco metros quadrados, dividida com presos de alta periculosidade, sem banho de sol.

O ponto mais grave do que os advogados levaram à Justiça é outro: policiais penais estariam cobrando R$ 1,5 milhão da mãe dele, que mora na Rússia, sob ameaça. A defesa também sustenta que ele é homossexual, que a unidade descumpriu a Resolução 348 do Conselho Nacional de Justiça, que trata de presos LGBTI, e que ele vem sofrendo assédio dentro da cela.
Nenhuma dessas acusações foi comprovada. Todas passaram a ser apuradas pelo MPF na Notícia de Fato nº 1.33.001.000146/2026-96.
E não são só os policiais penais. A defesa atual juntou aos autos áudios atribuídos a um advogado que o próprio Volodin havia constituído no inquérito, acusando-o de tentar extorquir a família do russo por meio de uma procuração. A Justiça registrou que o episódio ainda não está esclarecido e não identificou o profissional na decisão.
Duas ordens judiciais que o estado não cumpriu
A briga pela transferência é antiga.
Em 11 de junho, o juiz de garantias da 7ª Vara Federal deu 24 horas para o estado transferir Volodin ao Presídio Regional de Tijucas ou a outra unidade adequada. Naquele momento, a defesa dizia que ele dividia cela com cerca de 50 presos e havia risco de suicídio. O MPF era favorável à mudança por causa da orientação sexual declarada.
A transferência não aconteceu.
Em 26 de agosto, depois dos interrogatórios, a juíza da ação penal deu 48 horas para o estado dizer se havia vaga em outro presídio catarinense. A Coordenadoria de Controle de Vagas da Polícia Penal respondeu que o russo ficaria onde estava, porque a unidade já adotava as medidas necessárias para preservar sua integridade.
Nessa altura, o MPF havia mudado de posição e passou a se manifestar contra a transferência.
O vídeo que divide a Justiça
A administração do presídio entregou à Justiça um bilhete e um vídeo atribuídos a Volodin. Nos dois, ele diz que prefere continuar onde está e que não corre risco de vida.
Os advogados afirmam que ele foi ameaçado para gravar, e apresentaram outros vídeos do preso, além de um pen drive com provas.
Em 11 de setembro, a 1ª Vara Federal negou de novo a transferência. A decisão reconhece que o bilhete e o vídeo contradizem o que Volodin havia dito no interrogatório, mas conclui que acolher o pedido significaria admitir que os dois materiais foram produzidos mediante tortura, e que não havia elementos para isso. O juízo acrescentou que as informações da administração penitenciária têm presunção de veracidade.
Quatro dias depois, o TRF4 decidiu o contrário.
O desembargador federal Loraci Flores de Lima destacou a gravidade das denúncias e a existência de uma apuração no MPF e mandou tirar Volodin de Santa Catarina “por cautela”, tanto para proteger o preso quanto para não contaminar a investigação. O novo presídio, em outro estado, precisa ter ala destinada à população LGBTI. A decisão deixa claro que não julga se as acusações são verdadeiras.
O motivo de ser fora de SC está na própria decisão: Volodin não tem parentes nem amigos no Brasil.
O governo nega e diz que ele recusou a ala LGBT
Em nota, a Secretaria de Estado de Justiça e Reintegração Social refutou “quaisquer acusações de maus-tratos, discriminação ou violação de direitos” atribuídas aos servidores sem comprovação.
A pasta afirma que o preso sempre foi acompanhado dentro dos protocolos, com respeito à sua “manifestação de vontade”, e que não houve registro de coação, indução ou violência. E acrescenta um detalhe que contraria a defesa: segundo a secretaria, o próprio Volodin se manifestou contra ser alocado em ala destinada à população LGBTQIAPN+.
A nota diz ainda que toda denúncia é apurada e que a secretaria confia que a investigação vai mostrar a regularidade dos procedimentos.
Agora a Justiça quer saber das mantas
Nesta sexta-feira (18), a Justiça Federal deu 48 horas para o diretor da Penitenciária de Florianópolis explicar outro episódio.
A defesa alega que a polícia penal retirou da cela as únicas mantas do preso, compradas com autorização judicial, além da escova de dentes, também liberada por decisão anterior. Não eram itens irregulares, e é justamente isso que o juiz quer que a direção explique por escrito.
Na mesma decisão, a Justiça autorizou os advogados a comprar e entregar o enxoval de Volodin. A regra do presídio só permite que familiares façam isso, e uma única vez, mas o russo não tem parentes no país. Pelo mesmo motivo, os defensores já haviam sido autorizados a abrir conta e depositar o dinheiro que ele usa dentro da unidade.
Não é a primeira fricção com a unidade. Em junho, os advogados pediram para falar com o cliente por videochamada antes de uma audiência, alegando que a situação dele havia despertado “interesses diversos” de policiais penais e que o ambiente estava inseguro para advogar. Disseram ainda que sofriam pressão de familiares do russo em Moscou. O juiz negou, entendendo que rotinas internas do presídio são assunto do juiz da execução estadual, e sugeriu que procurassem a OAB.
O que falta acontecer
Para cumprir a ordem do TRF4, a 1ª Vara Federal abriu um processo separado só para tratar da transferência, de modo que o assunto pare de travar a ação penal. O sistema prisional catarinense foi acionado para indicar presídios de outros estados com ala LGBTI. A defesa terá cinco dias para escolher a unidade, e então o estado deverá fazer o traslado. Até lá, Volodin segue em Florianópolis.
O TRF4 mandou cópia da decisão ao cônsul-geral da Rússia em São Paulo. A liminar ainda será julgada pela 8ª Turma, depois do parecer do MPF.
Enquanto isso, a ação penal por tráfico internacional caminha para o fim. Testemunhas e réus já foram ouvidos, e a Polícia Federal entregou os laudos da quebra de sigilo dos celulares apreendidos. Falta a etapa das alegações finais antes da sentença.
O processo do médico seguiu outro caminho: a pedido da defesa, e com a concordância do MPF, a Justiça abriu um incidente de insanidade mental de Tellyson, e a perícia psiquiátrica será feita dentro da Penitenciária de Florianópolis.
Na defesa de Volodin, o pedido alternativo já está posto: se não houver transferência, que ele responda ao processo com tornozeleira ou em prisão domiciliar. Os advogados sustentam que ele é réu primário, tem bons antecedentes, emprego e residência fixa, e que, se condenado, poderia ser enquadrado no tráfico privilegiado, com pena menor.















