Deputados do MDB, do PT, do PDT e do PSD condenaram na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em Florianópolis, nesta quinta-feira (29), as listas que circulam em grupos de WhatsApp pedindo que as pessoas deixem de comprar em comércios de quem teria votado diferente no segundo turno da eleição. O assunto foi levado à tribuna por Fernando Krelling (MDB). Em aparte, Neodi Saretta (PT) comparou a prática ao nazismo e cobrou investigação.
Krelling abriu a fala avisando que o discurso poderia custar votos a ele. “Talvez faça até eu perder voto, mas eu não posso trair a minha consciência e deixar de falar aquilo que verdadeiramente eu penso”, disse.
Segundo o deputado, passada a eleição, ele passou a ver em grupos de WhatsApp, em manifestações e em mobilizações “um movimento de pessoas pedindo para que pessoas que tenham votado em um partido diferente e tenham comércio, não tenham mais clientes”. Para ele, o movimento é desnecessário.
Krelling contou que votou no 22 nos dois turnos e que torcia pela vitória do número. Mesmo assim, perguntou o que aconteceria se o movimento viesse do outro lado. “Até porque em Santa Catarina, 30% da população pensou diferente do que eu pensei. Teríamos aí um movimento de 30% não frequentar os comércios que votaram na direita? Realmente é um absurdo”, afirmou. Para o deputado, a população “está perdendo o senso da responsabilidade” quando pensa dessa forma.
O deputado também falou do pai, que passou 57 dias numa UTI em 2024 antes de morrer. “Eu nunca perguntei para o médico se ele era da direita ou da esquerda. Eu nunca perguntei que partido ele votava e qual a sua ideologia. Eu queria só que ele tivesse empatia com meu pai”, disse. “No final da vida da gente, o que vale é a humanidade.”
Krelling disse ainda que se chateia ao ver famílias colocadas nas listas, inclusive pessoas que nem votaram na esquerda e estão sendo acusadas. “Eu nunca votei no PT na minha vida”, afirmou. “A gente não vai melhorar a sociedade enquanto a gente não respeitar quem pensa diferente da gente.”
Saretta parabenizou o colega pela posição e disse que não é admissível, numa sociedade democrática, voltar a práticas “histórica e mundialmente combatidas”. “As práticas de fazerem listas como se fazia lá no nazismo, de botar nome de empresas, de botar símbolos na frente, por posição política A ou B”, comparou o petista.
Saretta lembrou que poderiam surgir listas no sentido inverso e disse que o boicote fere a legislação e os princípios da liberdade econômica. O deputado cobrou que o Ministério Público, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e a polícia identifiquem “quem está fomentando e divulgando isso”.
O deputado Rodrigo Minotto (PDT) também criticou a divisão. “Me parece que quem vota na esquerda é ladrão, quem vota na direita é miliciano. Que ponto chegamos?”, disse, ao condenar a exclusão “no comércio, na indústria, no varejo”. O deputado Mário Motta (PSD) afirmou que boicotar comércios e serviços por questões eleitorais “é um contrassenso que destrói a economia” e prejudica trabalhadores, empresas e famílias.

Na mesma fala, Krelling citou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em quem disse se espelhar. Segundo o deputado, Tarcísio foi atacado por cumprimentar o presidente depois de um debate. “Olha o absurdo”, disse.
Krelling encerrou se declarando de direita. “Votei na direita, mas o respeito sempre vai existir através do meu mandato”, afirmou. O deputado disse que mantém a fala “em todo momento que for questionado”, mesmo que ela custe votos.
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