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Eleições 2026

Lula pede mais quatro anos para expulsar as facções criminosas e “devolver o território ao povo”

Em comício no Rio de Janeiro, o presidente afirmou que um quarto mandato vai retomar as áreas dominadas pelo crime organizado.

Presidente Lula discursa com microfone na mao durante comicio, cercado por apoiadores com bandeiras do PT
Foto: Reprodução
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O palanque montado no gramado do Moça Bonita, em Bangu, tinha bandeira vermelha, carro de som e uma promessa que a plateia carioca já sabe de cor: tirar as facções dos territórios e devolvê-los ao povo. A frase funciona no microfone e arranca aplauso. Só tem um detalhe. Quem a repetiu neste sábado (22) não é um candidato de oposição dizendo o que faria se chegasse ao poder. É o presidente da República, no último ano do terceiro mandato, pedindo mais quatro anos para fazer.

Lula abriu no Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho, na Zona Oeste do Rio, a campanha pela reeleição no estado. Foi o primeiro comício do presidente desde a largada oficial da disputa, em 16 de agosto, em São Bernardo do Campo. Subiram ao palanque o candidato ao governo fluminense, Eduardo Paes (PSD), os candidatos ao Senado Pedro Paulo (PSD) e Benedita da Silva (PT), e a primeira-dama Janja da Silva. Conforme a cobertura do ato, o presidente afirmou que, se for reeleito, vai retirar as facções e devolver o território ao povo.

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A mesma frase, três meses antes

Não é a estreia da promessa, nem no discurso nem no estado. Em maio deste ano, no Rio, ao lado do governador em exercício Ricardo Couto, Lula disse exatamente onde queria chegar.

“Não é possível que no Rio de Janeiro, o Estado mais conhecido no mundo, a gente ouça nos jornais que o crime organizado e as facções tomaram conta dos territórios. Vamos juntos devolver o território para o povo do Rio de Janeiro.”

Na ocasião, ele não estava pedindo voto. Estava despachando como chefe do Executivo federal. E, no mesmo discurso, apresentou o motivo pelo qual a promessa não anda tão rápido quanto o aplauso, com uma dose rara de autocrítica: “Tem que definir qual é o papel da União. Pela Constituição de 1988, a União não tem muito papel da segurança. E nós temos culpa, sabe por quê? Eu era constituinte e naquele tempo tinham muitos generais metidos na segurança pública dos estados.”

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Quase 12 anos no comando

O pedido de mais quatro anos chega depois de um período considerável de governo. Lula cumpriu dois mandatos entre 2003 e 2010 e está no terceiro desde janeiro de 2023, somando quase 12 anos à frente da Presidência da República. É esse currículo que ele apresenta ao eleitor ao prometer, agora, retomar os territórios que as facções controlam.

O programa de segurança do quarto mandato tem um pré-requisito que não está nas mãos do presidente: a PEC da Segurança Pública. Só com ela aprovada nasce o Ministério da Segurança Pública, peça central do plano de retomada de territórios. “Se for aprovada a PEC da Segurança Pública, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir responsabilidade com estados e municípios”, disse Lula no primeiro dia de campanha. Em maio, a fala era a mesma, no tempo verbal da espera: “Nós aprovamos já a Lei Antifacção, aprovamos a lei contra o crime organizado e estou esperando o Senado aprovar a PEC da Segurança.”

O pacote anunciado pelo governo prevê R$ 11 bilhões em segurança pública, sendo R$ 1 bilhão em investimento direto da União e R$ 10 bilhões em financiamento a estados e municípios para equipamentos e tecnologia. Outro eixo é a conversão de 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima, para tentar impedir que a cadeia siga funcionando como sala de comando das organizações. “A facção criminosa hoje é uma indústria multinacional”, afirmou o presidente.

O território no mapa

Enquanto a promessa se repete, o mapa se mexe na direção contrária. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em novembro de 2025 apontou atuação de facções em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal, 45% da região, avanço de 32% sobre o estudo anterior. No Rio, a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025, terminou com 121 mortos, sendo 117 suspeitos e quatro policiais, segundo o balanço oficial.

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O tema também virou disputa diplomática. Os Estados Unidos classificaram o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, medida em vigor desde 5 de junho deste ano. Lula reagiu afirmando que o enfrentamento às facções é atribuição exclusiva do Estado brasileiro e que a decisão abre espaço para ingerência externa. Para o cientista político Leonardo Barreto, da consultoria Think Policy, é aí que o discurso governista fica exposto: “Existe uma incongruência porque você não tem controle de boa parte do seu território já há bastante tempo.”

Dois palanques, um tema

No mesmo palco de Bangu, Eduardo Paes fez a acusação mais dura do dia e disse que o crime organizado “sentou no Palácio Guanabara”. O candidato lembrou que a gestão de Cláudio Castro acumulou a prisão de quatro secretários de Estado e apontou o deputado Rodrigo Bacellar, preso, como quem seria seu adversário na disputa. “Se não fosse a PF, quem seria meu adversário nessa eleição está preso: Rodrigo Bacellar. Era o candidato do PL, do Flávio Bolsonaro”, afirmou. As ligações que Paes atribui a Bacellar com o Comando Vermelho são objeto de investigação.

A poucos quilômetros dali, no Maracanãzinho, Flávio Bolsonaro (PL) lançava a candidatura de Douglas Ruas ao governo do estado com a receita oposta para o mesmo problema: declarar guerra ao crime, lotar presídios e classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas, exatamente o enquadramento que o Planalto rejeitou quando partiu de Washington.

A escolha do Rio pelos dois no mesmo sábado não é acaso. São Paulo, Minas Gerais e Rio somam 63,3 milhões de eleitores, cerca de 40% do eleitorado nacional, e é nos três que as pesquisas apontam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.

Por ora, a PEC segue no Senado, o ministério prometido segue no programa de governo e o território que o presidente promete devolver segue exatamente onde estava em maio, quando ele fez a mesma promessa sem precisar pedir voto para cumprir.

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