Mensagens trocadas em 2024 entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o advogado Ciro Soares indicam uma tentativa de aproximar o então banqueiro do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Os diálogos foram obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo e publicados nesta terça-feira (6). Gilmar nega os encontros e afirma que o jantar citado nas conversas nunca aconteceu.
A mensagem mais direta é da noite de 17 de junho de 2024. Às 23h20, Ciro Soares escreveu a Vorcaro: “O GM queria que vc fosse jantar com ele. Aí fomos só nós quatro”. Um minuto depois, Vorcaro respondeu: “Eu tinha um jantar, só acabou agora”. As mensagens não dizem quem seriam as quatro pessoas.
Horas antes, o advogado tinha tentado localizar o banqueiro. Às 17h24 perguntou “Está por onde?”. Houve uma ligação de 51 segundos e, às 21h, uma chamada perdida. Em seguida, Ciro escreveu: “Chiquinho ficou lhe esperando”, “Liga aqui”, “Importante” e “Ele está indo para casa do G”. Vorcaro só respondeu às 23h04: “Terminei agora”.

Chiquinho é o ex-senador cearense Francisco Feitosa, o Chiquinho Feitosa, ex-cunhado de Gilmar Mendes. Segundo o Estadão, foi Ciro Soares quem apresentou o ex-senador a Vorcaro e passou o telefone dele ao banqueiro em 11 de abril de 2024. A reportagem afirma que Feitosa foi contratado pelo Banco Master por R$ 500 mil mensais.
As conversas começam meses antes. Em 31 de janeiro de 2024, Vorcaro avisou que estaria em Brasília no almoço do grupo Esfera em homenagem ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e comentou que Gilmar deveria estar no evento. Ciro respondeu: “Procure ele. No meu nome e do Chiquinho Feitosa. GM já está ciente da sua ida”.
Em 5 de junho de 2024, o advogado relatou: “Eu e Chiquinho tivemos ótima reunião com GM. Espetacular”. Uma semana depois, no dia 12, escreveu: “Estava no IDP com Chiquinho e GM. Preciso falar com vc em SP”. O IDP é a instituição de ensino fundada por Gilmar Mendes em Brasília.

De acordo com a reportagem do Estadão, os interesses do banco em processos no Supremo incluíam ações sobre a abertura de cursos de medicina e precatórios. O próprio levantamento do jornal registra que Gilmar votou contra os interesses do Master na maior parte desses casos.
Em nota, o gabinete do ministro afirma que ele “nega ter mantido encontros com os interlocutores mencionados para tratar de assuntos de interesse do Banco Master” e que as mensagens “foram trocadas entre terceiros”. “O Ministro não é interlocutor de nenhuma delas e não pode responder por afirmações alheias”, diz o texto.
Sobre o dia 17 de junho de 2024, a nota apresenta a agenda de Gilmar: às 18h, reunião de grupo de pesquisa no IDP; às 18h30, lançamento de um livro, também no IDP; às 19h30, reunião de caráter religioso em sua residência. “O Ministro não convidou Daniel Vorcaro para jantar. O jantar mencionado não ocorreu”, afirma. O gabinete diz ainda que o almoço de 31 de janeiro foi um evento com diversas autoridades, e não um encontro reservado.

A nota também sustenta que, nos processos sobre cursos de medicina, Gilmar sempre votou no sentido defendido pelo governo federal, e que as liminares comemoradas em outras mensagens do celular de Vorcaro vieram da Justiça Federal de primeira instância, em decisão à qual o ministro se opôs.
Ciro Soares é advogado baiano e já havia aparecido nas mensagens de Vorcaro como intermediário de um encontro do banqueiro com o ministro André Mendonça, em março de 2025. Em setembro, outra conversa extraída do celular citava um jantar de Chiquinho Feitosa com Gilmar e o ministro Cristiano Zanin; os dois ministros negaram.
Daniel Vorcaro está preso em Brasília, no Complexo da Papuda, no âmbito das investigações sobre o Banco Master. Os textos consultados não trazem manifestação de Ciro Soares nem de Chiquinho Feitosa sobre as mensagens divulgadas nesta terça.



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