O médico que chorou ao pedir o próprio salário em frente ao Hospital Cirúrgico de Camboriú (HCC) foi afastado do hospital poucas horas depois de fazer a denúncia ao Jornal Razão. Segundo Álvaro Kroetz, o afastamento não valeu só para aquele plantão: ele foi tirado de toda a escala até o fim do mês, quando termina o contrato da associação que administra a unidade.
“Não faço mais parte do corpo clínico do hospital. Fui avisado que não iria até o dia 25, que é quando termina a administração da AHBR no Hospital Cirúrgico de Camboriú”, disse o médico em vídeo gravado nesta quinta-feira (15). “O motivo eu não sei, mas nós podemos mensurar qual é o motivo.”
Álvaro conta que já sabia do risco quando decidiu falar. “Me coloquei à disposição pra falar e pôr a minha cara a tapa, por mais que tivessem dito que sofreria retaliações”, afirmou.
A denúncia
Na quarta-feira (14), ainda de jaleco e em frente ao hospital, Álvaro relatou ao JR que os médicos estavam sem receber o pagamento de setembro e sem uma resposta sobre quando o dinheiro cairia. “Nós estamos na vigência de levar um calote. A empresa não se manifesta de maneira efetiva”, disse.

Segundo ele, o plantão daquele dia foi atípico. Com a pressão, o médico chegou a conversar com os pacientes que esperavam atendimento. “Cheguei a falar com os pacientes, pedi clemência, pedi: ‘Por favor, gente, entendam, nós estamos sob pressão'”, contou. “Eu não queria aplauso, eles aplaudiram, eu não queria nada disso, mas eles entenderam a situação.”
Emocionado, Álvaro explicou para onde vai o salário. Ele diz que é o responsável financeiro da avó, que mora em Porto União, ajuda o pai, médico aposentado, e paga a faculdade da noiva. “Eu não fico com um real desse dinheiro. Esse dinheiro todo não é pra mim. Isso é pra minha família, que eu trabalho, e pelo bem dos pacientes que a gente trata”, afirmou. “Como que eu vou olhar pra minha noiva e dizer: ‘Eu não vou poder pagar sua faculdade’?”
O médico trabalha no HCC desde maio. Antes, atuou por três anos em Porto União, no Hospital São Brás e em hospital da 6ª Regional de Saúde do Paraná. “Nunca tive um calote, nunca tive um atraso”, disse. Segundo ele, esta é a segunda vez que corre o risco de ficar sem receber no litoral catarinense.
Álvaro afirmou que, enquanto a empresa tinha o contrato, o pagamento saía sempre até o dia 10, e que as respostas da direção eram “vazias”. “Quer dizer que quando a empresa sai, ela dá um calote? O que que é isso?”, questionou. Ele também criticou a exigência de dois a três anos de experiência para atuar na emergência: “Cobra-se experiência pro médico trabalhar e atuar com qualidade. Em contrapartida, levar um calote?”
Mesmo assim, garantiu que o atendimento não seria interrompido. “Nós não vamos deixar a população na mão. Nós vamos trabalhar. Mas isso precisa ser escancarado, porque isso é um mercado. E isso tem que acabar.”
Pacientes relataram espera de horas
No mesmo dia, pacientes que aguardavam no pronto atendimento contaram ao JR que esperavam havia horas. A gerente Ana Cláudia Rodrigues Marques disse que estava havia cinco horas no local com o pé torcido, à espera de um raio-X. Segundo ela, o médico avisou quem estava na sala que a equipe estava com problemas por causa da falta de salário e que os casos menos graves, de pulseira verde, teriam de esperar.
A diarista Lourdes Braz de Menezes disse que estava havia cerca de três horas no local com os dois filhos, sem atendimento. “Chegar aqui tá um caos”, afirmou.
O pagamento saiu depois da repercussão
Nesta quinta-feira (15), um dia depois da reportagem, os médicos começaram a receber. O próprio Álvaro confirmou: “A empresa já realizou o pagamento hoje. Então, meus amigos, as nossas reivindicações deram certo.”
Ele ponderou que a empresa alegava estar dentro do prazo. “Não tô também dizendo que a mesma não efetuaria o pagamento, até porque, por prazo, a mesma disse que estava dentro da lei”, afirmou. Mas reforçou que o salário costumava cair antes do dia 10 e que o atraso veio justamente no último mês da gestão. “Então isso nos gerou grande angústia. E com o número aumentado de consultas e demandas, nós estávamos vivendo um colapso, cansaço, esgotamento, mesmo com vários médicos atendendo na porta ao mesmo tempo.”
O médico disse que falou pelos colegas. “Isso que eu estou fazendo é para a população e a comunidade médica. Isso é pra comunidade médica, que não tem coragem de falar pelo simples fato de que estão lidando com o que nós temos de mais precioso, que é o meio de cuidar da nossa família.”
O que diz a AHBR
A Associação Hospitalar do Brasil (AHBR), que administra o HCC, nega que tenha havido demissão. Em nota enviada ao JR na quarta-feira (14), o diretor-presidente Christian Salgado afirmou que o médico foi dispensado “para segurança do profissional, dos pacientes e a pedido”, porque estava dobrando plantão de 24 horas e estaria emocionalmente abalado “por problemas de ordem pessoal”. Segundo a entidade, a coordenação clínica convocou outro profissional para assumir o plantão.
Em nova resposta, nesta quinta-feira, a AHBR disse que não existe demissão porque os médicos não são contratados pela CLT: eles prestam serviço por convocação de plantão, e cabe à empresa que fornece a mão de obra médica convocá-los, “não havendo qualquer impedimento para a prestação de serviço”. Segundo os próprios médicos, eles sequer tinham contrato assinado com essa empresa.
Sobre o pagamento, a AHBR afirma que os médicos são pagos como pessoa jurídica ou autônomos: do dia 1º ao dia 10 a entidade recebe as notas fiscais, e os pagamentos são feitos do dia 10 ao dia 20 do mês seguinte ao serviço. Por isso, diz que os honorários de setembro foram pagos nesta quinta, “5 dias antes do vencimento”, e que antecipar em um mês não obriga a pagar na mesma data no mês seguinte. A entidade informou ainda que os funcionários contratados pela CLT receberam em dia.
O Jornal Razão pediu à AHBR os comprovantes de que o prazo de pagamento dos médicos vai até o dia 20. Até a publicação desta matéria, a entidade não enviou.
A AHBR também jogou parte da responsabilidade para o município. Na nota de terça-feira (13), afirmou que só assinou o contrato com cláusula que garantia o repasse antecipado do dinheiro, mas que a prefeitura “não tem mantido a regularidade da pontualidade do repasse”, o que afeta a previsibilidade do contrato no encerramento, quando há rescisões trabalhistas a pagar. Na quarta, disse que, por ser uma instituição sem fins lucrativos, depende do repasse público para pagar a operação.
O que diz a Prefeitura de Camboriú
A Prefeitura de Camboriú diz o contrário da AHBR e afirma que está em dia com os repasses. “O repasse foi feito. É uma obrigação da empresa contratada fazer o pagamento de todos os profissionais contratados por eles”, respondeu ao JR na terça-feira (13). Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, resta apenas a última parcela do contrato, com vencimento em novembro.
Nesta quinta, ao ser questionada sobre o relato do médico, a prefeitura respondeu que “isso tudo gera um desgaste sem precedentes”.
Prefeitura reassume o hospital no dia 25
O contrato com a AHBR termina em 25 de outubro, quando a prefeitura vai reassumir a gestão do Hospital Cirúrgico. Segundo o município, a unidade passará a funcionar com a contratação de empresas prestadoras de serviço, inicialmente por quatro meses, com o objetivo de manter os atendimentos e reduzir custos. Enquanto isso, a prefeitura diz avaliar uma solução definitiva para a administração do hospital.
Durante a transição, o secretário municipal de Saúde, Henrique Manoel Alves, vai instalar o gabinete dentro do HCC para acompanhar a reorganização dos serviços.
A AHBR informou que tem uma reserva para pagar as rescisões dos funcionários CLT e que, se a última parcela for repassada no prazo, fará os pagamentos rescisórios dentro do prazo legal.
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