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Advogada presa pelo Gaeco em SC ganhou lei com seu próprio nome, é aliada de deputado e militante anti-Bolsonaro

Jornal Razão revela a identidade da presa na operação sobre desvio de dinheiro de detentos de São Pedro de Alcântara: Barbara Hartmann Cardoso dá nome à lei da farra do boi, pedia voto no deputado Marcius Machado (PL) e acumulava ataques a Bolsonaro nas redes

Barbara Hartmann Cardoso e o cumprimento do mandado do Gaeco em Florianopolis
Foto: Reprodução
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A advogada presa pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) na tarde de quinta-feira (27), em Florianópolis, é Barbara Hartmann Cardoso, apurou o Jornal Razão. Fundadora do coletivo Brasil Contra a Farra do Boi e presidente da Comissão de Defesa dos Animais da OAB de São José, ela é uma das figuras mais conhecidas da causa animal em Santa Catarina e dá nome a uma lei estadual sancionada há pouco mais de dois meses. O Ministério Público de Santa Catarina confirmou a prisão sem identificar a investigada, porque o processo corre sob sigilo.

O mandado de prisão preventiva foi expedido pela Vara Estadual de Organizações Criminosas da Capital e cumprido por policiais do Gaeco, com acompanhamento de representante da OAB/SC. Depois da captura, Barbara foi levada à Polícia Científica para exame de corpo de delito e, na sequência, ao Presídio Feminino de Florianópolis, no Complexo Penitenciário da Capital, onde permanece.

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Segundo o MPSC, ela é suspeita de apropriação indébita, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O papel apontado é o de intermediadora: ela teria implementado manobras para viabilizar o desvio do patrimônio dos apenados e dissimular a origem e o destino dos valores. A preventiva foi decretada depois que a investigação identificou atos de intimidação e tentativas de interferência indevida sobre testemunhas e investigados.

Equipes do Gaeco no cumprimento do mandado de prisão preventiva, na quinta-feira (27). Foto: Jornal Razão

O alvo do esquema é o pecúlio, a reserva financeira que pertence ao próprio preso, formada por depósitos de familiares e por parte da remuneração do trabalho durante o cumprimento da pena. A apuração nasceu na 1ª Promotoria de Justiça de São José, que investigava saques e descontos não autorizados nas contas de detentos do Complexo Penitenciário de São Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, e migrou para a 39ª Promotoria da Capital quando surgiram indícios de conexão com uma facção criminosa, que não foi nomeada.

A ofensiva ficou conhecida em 23 de abril, quando o Gaeco deflagrou a Operação Peculium e cumpriu três mandados de busca e apreensão em São José, Florianópolis e Palhoça. Na ocasião, o Ministério Público apontou movimentações bancárias sem autorização dos detentos, valores incompatíveis com os contratos de honorários conhecidos, procurações de regularidade questionada e retiradas feitas depois do encerramento da relação profissional.

Advogada criminalista inscrita na OAB/SC sob o número 42.353, Barbara mora em São José desde os nove anos e construiu a imagem pública na militância pelos direitos dos animais. Além de fundar o coletivo contra a farra do boi, participou da criação da Diretoria de Bem-Estar Animal de São José, idealizou o projeto Santa Catarina Livre de Farra e chegou a assumir o posto de delegada da Confederação Brasileira de Proteção Animal no município.

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Em dezembro, no caso do cão Orelha, ela orientou seguidores a manter as publicações. Vídeo: Reprodução/Redes sociais

A atuação combativa seguia recente. Em dezembro do ano passado, no caso do cão Orelha, que ganhou repercussão nacional, ela usou as redes para orientar seguidores notificados por advogados das famílias dos suspeitos: “continuem postando”, disse, em vídeo. “Não deixem esse assunto cair no esquecimento”, completou.

Foi da militância que nasceu a lei que hoje leva o nome dela. A Lei 17.902, de 2020, que instituiu multas contra a farra do boi em Santa Catarina, foi articulada por Barbara a partir de um pedido feito no gabinete do deputado estadual Marcius Machado (PL), autor do projeto. Em 2024, a Lei 18.877 endureceu as punições, com multas de R$ 20 mil para organizadores e R$ 10 mil para participantes. Em 15 de junho deste ano, a Lei 19.883, também de autoria de Marcius, rebatizou a norma original de “Lei Barbara Hartman”, com a grafia oficial trazendo um “n” a menos que o sobrenome dela. A prisão veio dez semanas depois da sanção.

A relação com o deputado atravessa quase oito anos e está registrada nas redes dos dois. Barbara era uma das principais entusiastas do mandato: em 2020, foi homenageada com moção de congratulação apresentada pelo parlamentar, e em 16 de agosto deste ano, onze dias antes da prisão, publicou pedido de voto: “para deputado estadual, vote no Marcius Machado, 22123”.

O post de campanha publicado por ela em 16 de agosto, 11 dias antes da prisão. Foto: Reprodução/Instagram

Nas redes, o histórico dela é de enfrentamento aberto a Jair Bolsonaro. No 8 de Janeiro de 2023, dia dos ataques em Brasília, Barbara classificou o ato como “movimento fascista, terrorista e golpista” e escreveu que os responsáveis deveriam ser punidos “no rigor da lei”, citando nominalmente o então ex-presidente, que, nas palavras dela, teria incitado “o terrorismo fanático no Brasil” ao silenciar sobre a derrota. Na pandemia, falou em “genocídio do povo brasileiro” e em “propina para a compra de vacinas”. Em 2022, no caso Bruno Pereira e Dom Phillips, escreveu que o indigenista havia sido exonerado da Funai “a mando do presidente Jair Bolsonaro”.

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Publicação dela no dia dos ataques em Brasília, em 2023. Foto: Reprodução/Facebook

A trajetória inclui ainda uma passagem pelo governo do Estado. No primeiro ano da gestão, Barbara assumiu a diretoria de Bem-Estar Animal na Secretaria do Meio Ambiente e da Economia Verde, por suposta indicação do aliado. Marcius nega ter feito o pedido e credita o nome ao movimento de proteção animal. Ela deixou o cargo depois que o Jornal Razão revelou, em novembro de 2023, o histórico de militância dela, que provocou forte reação na base bolsonarista. A diretoria é hoje comandada por Fabrícia Rosa Costa.

Ela e o deputado Marcius Machado em vídeo publicado nas redes. Vídeo: Reprodução/Redes sociais

O calendário da homenagem cruza com o da investigação. O projeto que batizou a lei foi protocolado em 13 de abril. Dez dias depois, em 23 de abril, o Gaeco deflagrou a Operação Peculium. A homenagem passou pela Comissão de Constituição e Justiça em 13 de maio, pelo plenário da Alesc em 20 de maio e foi sancionada em 15 de junho, quando a operação já era pública. Como o MPSC nunca divulgou os nomes dos investigados, não há qualquer indicação de que os deputados soubessem que a homenageada estava entre os alvos.

O processo tramita sob segredo de justiça, e o Ministério Público não informou quantos investigados integram a apuração nem o total de valores desviados. Prisão preventiva não é condenação, e Barbara Hartmann Cardoso é presumida inocente até decisão judicial definitiva. O Jornal Razão mantém espaço aberto para manifestação da defesa, da OAB/SC e do Ministério Público, e questiona se o nome dela será mantido na lei estadual.

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