Empresária há 18 anos e estreante nas urnas, Carla Z Pereira (PODE, nº 20055), candidata a deputada estadual em Santa Catarina com candidatura deferida pelo TRE-SC, afirmou ao Jornal Razão que está há 12 dias sem conseguir impulsionar conteúdo eleitoral nas plataformas da Meta, entrou na Justiça contra a empresa e diz receber apenas respostas evasivas a menos de 40 dias da eleição de 4 de outubro. Na entrevista a Kaiann Barentin, ela também disse que profissionais graduados da estética correm risco de ficar sem trabalho por uma “reserva de mercado” puxada pelo Conselho Federal de Medicina, defendeu o fim do extremismo na política e afirmou que o debate sobre violência contra a mulher precisa migrar da denúncia para o “depois da denúncia”.
DA EMPRESA PARA A URNA: A BUROCRACIA COMO MOTIVAÇÃO
Carla Z Pereira disputa sua primeira eleição. Empresária há 18 anos, com empresa sediada em Florianópolis, ela atua no ramo de saúde e bem-estar e afirmou que a decisão de se candidatar nasceu de uma dor concreta do dia a dia empresarial. “O que me trouxe pra política é justamente os desafios pros pequenos empresários”, disse, apontando a burocracia como o principal entrave.
Ela citou o período em que morou e teve empresa fora do Brasil como base de comparação. “Nos Estados Unidos eu consigo abrir uma empresa na hora do meu cafezinho da tarde: eu vou na prefeitura e abro aquela empresa”, afirmou. Para a candidata, o problema brasileiro não é apenas o volume de exigências, mas a contradição entre elas: “São muitas regras e essas próprias regras elas têm conflitos”.
ASSISTA À ENTREVISTA

O entrevistador ponderou que a multiplicidade de interpretações de uma mesma norma abre brecha para a corrupção e para a cobrança de propina, dificuldade criada para depois se vender a facilidade. Carla concordou com a leitura. Questionada sobre o que faria por empreendedores se eleita, ela citou crédito e capital de giro como gargalo central. “Muitas vezes falta até mesmo um capital de giro”, disse, defendendo mais auxílio do governo em investimento para micro, pequenas, médias e grandes empresas.
DOZE DIAS SEM ANÚNCIO E AÇÃO JUDICIAL CONTRA A META
O ponto mais concreto da entrevista é a queixa contra a Meta. Segundo Carla, ela está há 12 dias sem conseguir patrocinar suas publicações, embora mantenha acesso normal às contas. As tratativas, afirmou, começaram cerca de 20 dias antes, ainda de forma preventiva, para que a veiculação paga pudesse começar em 16 de agosto, primeira data permitida. Não houve manifestação da empresa, e o Jornal Razão registra aqui apenas a versão da candidata.
Ela sustenta que cumpriu todas as etapas formais: abertura de CNPJ de campanha, protocolo da documentação e conferência por dois advogados. “Tudo correto, tudo protocolado”, afirmou, dizendo ter registro integral do atendimento pelo chat da plataforma. O conteúdo barrado, na versão dela, era um vídeo simples de apresentação. “Todas as respostas que eu recebo da Meta são evasivas”, disse.
Há dois dias, a campanha entrou com ação judicial e, segundo a candidata, obteve decisão favorável que fixou prazo de 48 horas para a empresa se manifestar. O prazo venceu no dia da entrevista, e ela afirmou ter recebido nova resposta “sem pé nem cabeça”. O impacto, diz, é direto: “Eu estou sendo impedida, eu estou sendo silenciada”.
O entrevistador ponderou que o debate sobre regulamentação das big techs não pode ir para o extremo oposto, nem a ausência de regras, nem empresas ditando as regras da eleição, e perguntou se não é isso que ocorre, de forma velada, no caso dela. Carla concordou e ampliou o argumento para além da política: “Agora imagina os empresários que precisam também das redes sociais pra poder tá divulgando o seu serviço”. Ela lembrou ainda que o alcance orgânico caiu por causa do volume de campanhas, e concordou com a avaliação do entrevistador de que a lógica é “pra forçar a pagar”.
CAMPANHA MAIS CARA E MENOS FERRAMENTAS
A candidata associou o bloqueio a um cenário já restritivo. Sem carro de som, sem placas e sem outdoor, a disputa migrou para o digital e encareceu o impulsionamento. “As eleições é agora, dia quatro de outubro”, afirmou, calculando pouco mais de 35 dias de campanha restantes sem conseguir falar com o eleitor. Ela diz sempre ter anunciado pelas próprias empresas sem enfrentar problema equivalente.
O Jornal Razão lembrou, durante a entrevista, que o raio X das eleições catarinenses e nacionais está disponível em jornalrazao.com, com receitas, despesas e destino dos gastos de cada candidato, levantamento em que o Facebook aparece disparado como maior receptor dos valores de anúncio.
CFM X BIOMÉDICOS: ‘RESERVA DE MERCADO’, NA VERSÃO DA CANDIDATA
Formada em estética, área que, segundo ela, não tem conselho de classe, e formanda em biomedicina, profissão vinculada ao CRBM, Carla afirmou que profissionais graduados correm risco de serem proibidos de atuar em estética por pressão do Conselho Federal de Medicina. Na avaliação dela, confirmando o termo levantado pelo entrevistador, trata-se de “reserva de mercado”. Ela ressalvou: “Nós não somos contra os médicos, muito pelo contrário”, lembrando que os profissionais em questão são graduados, pós-graduados e especializados, e que dentistas estão aptos a fazer até a minilipo de papada.
O efeito, diz, seria econômico e em cadeia, num mercado que ela classifica como bilionário: clínicas fechadas, secretárias desempregadas e “muitos profissionais que vão perder o emprego da noite pro dia”. O entrevistador acrescentou o lado do consumidor, já que menos oferta significa preço maior, e ela concordou: “O seu botox daí, ele vai custar duas, três vezes mais caro”. Pressionada sobre o que faria na Assembleia, reconheceu que a competência da legislação é federal e disse já conversar com deputados federais para propor projetos de lei sobre o tema.
O tema entrou pelo caminho oposto: o entrevistador citou o caso nacional do peeling de fenol que terminou em óbito e perguntou onde fica o limite entre desburocratizar e manter rigor na fiscalização. Carla disse que o controle depende dos órgãos, como a vigilância sanitária, mas também do cidadão, e apontou o que chamou de “prostituição de preço” no setor. “Se alguma coisa tá barato demais”, é “uma red flag”, afirmou, lembrando que especialização tem custo.
MULHERES, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O ‘DEPOIS DA DENÚNCIA’
Sobre o alto índice de feminicídio em Santa Catarina, a candidata argumentou que o crescimento dos números reflete aumento de notificações, não necessariamente de casos: “Não é que não existia antes, mas hoje as mulheres estão com muito mais coragem de falar”. Para ela, o gargalo está adiante da queixa. “Mais importante do que denunciar, é o depois disso”, disse, defendendo dignidade, trabalho, qualificação profissional e, em resposta à ponderação do entrevistador, auxílio financeiro, já que a dependência econômica e o cuidado dos filhos fazem muitas mulheres recuarem. “Ela se submete a isso”, resumiu, citando também a falta de rede de apoio.
Ela contou ter participado nesta semana de encontro com o grupo Mulheres do Brasil e disse que a agenda feminina será bandeira do mandato, sem, segundo ela, pauta de confronto: “Não pela questão de feminismo, não tem nada a ver com isso”. Na comparação com o setor privado, afirmou sentir mais resistência na política do que como empresária, com o olhar do “será se ela é capacitada?”, e cobrou o próprio eleitorado feminino: “Por que que a mulher não vota em mulher?”. Empreender sendo mulher, disse, é mais difícil já na largada, entre contador, advogado e a pergunta se ela dará conta.
Fora da política, Carla mantém com o marido o podcast Empreende Catarina, com episódios a cada 15 ou 20 dias e uma série atual dedicada a “mulheres que constroem Santa Catarina”. Entre as convidadas, Luma, da Luma Construtora, a jornalista e empreendedora Camille Reis, Simone Vieira, da Ditz, e Rosângela Sutil, do meio corporativo, a quem ela chamou de “o Ronaldinho Gaúcho do meio corporativo pras mulheres”. Do podcast nasceu o movimento Lidera Mulheres, voltado a conectar empresárias, trabalhadoras CLT e mulheres em situação de rua ou de violência doméstica.
CAUSA ANIMAL: CASTRAÇÃO, PROTETORES E CUIDADO VITALÍCIO
Mãe de cinco cachorros, a candidata afirmou que a causa animal estará no gabinete. Ela citou visita recente à Adibea e ao Hospital Veterinário em Florianópolis, elogiou a infraestrutura e destacou como surpresa positiva o cuidado vitalício oferecido aos animais adotados, política que, segundo ela, derruba o principal medo de quem hesita em adotar bichos com deficiência ou doença crônica pelo custo futuro.
O entrevistador, que presidiu a Fundema em Barra Velha e teve a pauta animal sob sua responsabilidade, observou que nas feiras de adoção o animal idoso ou com problema de saúde é justamente o que não sai. Carla defendeu investimento em castração, parcerias público-privadas com empresas e comunidade e apoio aos protetores independentes, que hoje sustentam por conta própria um trabalho de competência do poder público. “É um trabalho por amor”, afirmou.
SEM EXTREMOS, MAS ‘NÃO É FICAR EM CIMA DO MURO’
Questionada sobre onde se situa entre Ana Campagnolo (PL, nº 22222), candidata a deputada estadual identificada pelo entrevistador como de direita e bolsonarista, e Luciane Carminati, apontada por ele como do polo oposto e filiada ao PT, Carla respondeu que extremo, para ela, já é sinal de alerta. “O extremismo ele só atrasa o Brasil”, disse, repetindo o lema de campanha “unir para realizar”. Ao ser confrontada com a objeção de que isso pode virar posição em cima do muro, negou e citou frase que atribuiu ao governador Jorginho Mello, com quem o Podemos está coligado no estado: “Quando a gente fica em cima do muro, a gente leva pedrada dos dois lados”.
A filiação ao Podemos veio pelo marido, Naro, associado ao partido desde 2018, com quem é casada há 24 anos. A inspiração, disse, foi a deputada estadual Paulinha (PODE), hoje candidata a deputada federal pelo nº 2020, com quem faz dobradinha. O entrevistador registrou que ela também foi gestora em Bombinhas. “Primeiro que ela é uma mulher porreta”, afirmou Carla.
Ela promete um mandato participativo, diz já estar ouvindo setores que não domina e afirma não ter medo do ambiente masculino da Assembleia. Sobre a hipótese de não se eleger, foi direta: “Eu entrei pra política pra poder chegar lá”, mas seguirá no trabalho social e na construção para a eleição seguinte. Ao encerrar, pediu o voto e o compartilhamento do perfil, já que não consegue patrocinar: “A Carla está sendo silenciada”. O número na urna é 20055, e o perfil nas redes sociais é @carla.zpereira.






















