Candidato a deputado federal pelo Missão (1414), Felipe Barcellos, de 22 anos, esteve no estúdio do Jornal Razão em entrevista a Kaiann Barentin e não recuou de uma vírgula do vídeo sobre o Morro do Mocotó que virou caso de Ministério Público: repetiu que “favela é um lixo”, disse que “tem que prender e matar” criminosos e afirmou ser alvo de perseguição política do Judiciário. Na conversa, o ativista formado no MBL detalhou um plano de desfavelização que ele estima em R$ 80 bilhões por ano durante dez anos, defendeu um “visto catarinense” para controlar a migração interna, elogiou a política de internação involuntária do prefeito João Rodrigues em Chapecó e ouviu do entrevistador que chamar comunidades de “lixo” atinge também as famílias trabalhadoras que moram nelas.
De meme aos 14 anos ao 1414
Barcellos se apresenta como “um jovem indignado”, que enxerga a própria geração diante da perspectiva de não se aposentar e de viver num “país falido”. Ele conta que entrou no Movimento Brasil Livre aos 14 anos, quando mantinha uma loja de venda de jogos online, começou fazendo memes e vídeos sobre redução da máquina pública e supersalários, e diz ter ajudado a organizar manifestações pela Lava Toga, uma delas, segundo afirma, com mais de dez mil pessoas em 2019. Aos 17, trabalhou na Assembleia Legislativa ao lado de Bruno Souza; depois passou, segundo ele, em primeiro lugar na Universidade do Estado de Santa Catarina, estudou na FGV e trancou a faculdade para atuar na campanha do vereador Mateus Batista, em Joinville. Diz hoje responder a “quase seis processos” e afirma ser alvo do Ministério Público e “decretado” pelo PCC, “por falar a verdade e por defender os interesses dos catarinenses”, na versão dele. A família, garante, nunca teve políticos: o pai é empreendedor e consultor, e foi dali, diz, que veio a “moral forte”.
A troca da disputa estadual pela federal, contou, veio de uma conversa com Renan Santos, apresentado por ele como o presidenciável do Missão. Segundo Barcellos, Mateus Batista, que seria o candidato a deputado federal do partido, não pôde concorrer, e o convite chegou com o argumento de que faltava “alguém forte” em Santa Catarina. Ele diz ter aceitado por “senso de missão” e porque as bandeiras que defende dependem do Congresso: aumento de penas, controle migratório, revisão do pacto federativo e flexibilização da internação involuntária. “Estadual, cê não consegue fazer muita coisa”, resumiu. Também admitiu ter feito cálculo político: avalia que a Grande Florianópolis tem “concorrentes péssimos” e citou nominalmente a petista Carla Aires e Manu Vieira (PL), a quem acusa, sem apresentar provas na conversa, de “se pagar de direita” e “se vender à prefeitura”. A afirmação é dele, e as candidatas citadas não tiveram oportunidade de responder nesta entrevista.
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Experiência, patrimônio de R$ 25 mil e a maior vaquinha
O Jornal Razão questionou se um candidato de 22 anos, sem ensino superior concluído, teria condições de lidar com orçamento, processo legislativo e articulação em Brasília, e como fecharia a conta de uma campanha cujo teto de gastos para deputado federal é de cerca de R$ 3 milhões, tendo declarado ao TSE pouco mais de R$ 25 mil de patrimônio. Barcellos não negou a inexperiência e a transformou em argumento: “Eu não sou quem tem mais experiência nessa eleição. Até porque quem tem mais experiência tá há mais de trinta anos roubando o catarinense”. Disse não ter “rabo preso com político nenhum” nem com o Judiciário e sugeriu que quem procura currículo tradicional deve votar “em alguém do PSD, no União Brasil”. Sobre o patrimônio, afirmou que o valor está aplicado em ações, Bitcoin e empresas, e que já arrecadou R$ 30 mil em financiamento coletivo, o que classifica como a maior vaquinha entre os candidatos a deputado federal de Santa Catarina e uma das cinquenta maiores do país, além de doações privadas de empresários catarinenses. A aposta, diz, é num “custo por voto barato” sustentado pelo alcance digital: segundo ele, foi o perfil que mais cresceu em 2026 conforme levantamento do PIAR, com alta de 211% e mais de 50 milhões de visualizações somadas desde o início do ano.
O vídeo do Mocotó, o TAC e a acusação de perseguição
Questionado se se arrepende das expressões “lixo” e “favelão” usadas no vídeo sobre o Morro do Mocotó, que resultou em atuação do Ministério Público Federal e num acordo com previsão de retratação, retirada de conteúdo e formação em direitos humanos, o candidato foi taxativo: “Não, favela é um lixo mesmo, favela tem que acabar”. Justificou citando índices de tuberculose até onze vezes maiores em algumas comunidades, ausência de saneamento, de escolas de qualidade e de infraestrutura de saúde, e disse que os moradores são “achacados pelo crime organizado e pelo Estado, que só lembra deles na hora de entregar o Bolsa Família pra pedir voto”. Repetiu que “tem que prender e matar criminoso” e que quem vem de outros estados para delinquir “tem que ser barrado”.
Barcellos afirma que cumpriu “à risca” o TAC assinado com o Ministério Público, gravando um vídeo de esclarecimento, mas diz que o acordo foi rasgado: segundo ele, o órgão entrou com ação cobrando mais de R$ 200 mil dele e de Mateus Batista por descumprimento, “por expressões faciais”. Diz que ofereceu o vídeo para análise prévia e ouviu que não era necessário; que o processo corria em sigilo e vazou para a imprensa, incluindo o ND Mais, antes mesmo de ele ser oficiado; que a reunião gravada que seria sua principal prova de defesa acabou colocada sob sigilo pelo juiz; e que a decisão determinou a retirada de nove vídeos, nenhum deles registrado no TAC, sendo cerca de três com Renan Santos e sobre outros temas. Também acusa o representante do Ministério Público, a quem se refere como Prola Júnior, de ter representado contra seus advogados na OAB. São versões do entrevistado: o Ministério Público não participou da conversa e não teve espaço para responder. Ele próprio ressalvou que o órgão “ainda é uma instituição respeitada” e que “tem muitas pessoas muito boas lá”.
“Como é que se resolve?”: a conta de R$ 80 bilhões
O entrevistador ponderou que a crítica deveria ser dirigida aos criminosos, e não às comunidades, porque nelas moram pessoas e famílias de bem. Barcellos respondeu de imediato: “Maioria”. Pressionado sobre como resolveria o problema e se espera votos de quem mora nessas áreas, ele manteve a expressão, chamou-a de “dura” e disse que ninguém falava do assunto antes em Santa Catarina. Apresentou números que atribui ao IBGE: crescimento de 140% da favelização em Florianópolis e de 44% no Estado desde o último censo, com mais de 500 mil migrantes recebidos. Ao mesmo tempo, reconheceu que “a maioria dos moradores das comunidades são pessoas de bem, trabalhadoras” e que precisam ser protegidas pelo Estado, porque “onde o Estado não entra, o crime entra”.
O plano que defende tem duas pernas. A primeira é barrar novas construções irregulares: cita um marco do governo Dilma que permitiria a remoção a partir de determinado ponto e afirma que Joinville reduziu a favelização em cerca de 56% no mesmo período. A segunda é reurbanizar o que já existe, com saneamento, estradas, escolas cívico-militares e bases policiais, além de um programa de moradia que ele chama de Moradia Brasil, para realocar famílias em áreas de risco perto do centro e do emprego. “Não adianta você jogar o mais pobre pra longe e achar que resolve o problema”, disse, citando o economista urbano Edward Glaeser e o exemplo chinês como referências, além de um estudo que descreve como um livro de mais de 500 páginas feito por mais de 200 pesquisadores. O custo estimado: R$ 80 bilhões por ano durante dez anos. Perguntado por quem pagaria a conta, respondeu que o governo brasileiro, com corte de supersalários do Judiciário, revisão de bônus a parlamentares, desindexação do salário mínimo e do BPC, privatizações e corte de gastos da máquina pública. Alertou ainda que a previsão de gastos obrigatórios chegando a 100% em 2027 significa, nas palavras dele, governo sem dinheiro para pagar aposentadoria.
O que é o “prendeu, matou”
O Jornal Razão lembrou que, no vídeo, o candidato usava uma camiseta com a expressão “prendeu, matou”, perguntou se isso não estimula chacinas e registrou a linha editorial do jornal em defesa das instituições, com destaque para a Polícia Militar de Santa Catarina, que na visão da casa faz um bom trabalho muitas vezes com pouco. Barcellos deu uma definição curta: o criminoso, principalmente o faccionário, “tem que ser tratado como terrorista”, preso pela PM, “e se ele tentar resistir àquela prisão, ele tem que ser morto pela polícia”. Ao ouvir do entrevistador que “isso é o básico”, concordou em parte e emendou que o básico não está garantido: cita policiais processados por ONGs e o caso de um militar em Joinville que, segundo ele, responde por defender a própria vida.
A proposta que apresenta como solução é dar segurança jurídica à corporação, inclusive colocando a Procuradoria do Estado para defender policiais processados em razão de suas ações, ideia que diz ter formulado quando pretendia disputar o estadual e que atribui a Marcelo Brigader, apresentado por ele como o candidato do Missão ao governo. Afirmou que Santa Catarina tem o menor efetivo policial per capita do Brasil e voltou a elogiar a PM, citando Florianópolis como capital mais segura do país, mas sustentou que os índices já pioram: “Tem que ter um banho de sangue contra o crime mesmo, tem que ter o extermínio do crime organizado”. Para embasar o alerta sobre migração criminosa, mencionou a interceptação de mais de 700 ônibus irregulares pela Guarda Municipal de Joinville em cerca de 60 dias. O número, repetido ao longo da entrevista, é atribuído por ele a matérias jornalísticas e não foi conferido pela reportagem. “Não tem como você entregar flor prum cara que tá apontando arma pra nossa polícia”, disse.
Moradores de rua, higienismo e o elogio ao modelo Chapecó
Confrontado com a acusação de setores da esquerda de que seu discurso é higienista, e com a observação de que ele nem sempre diferencia quem está em vulnerabilidade de quem comete crimes, Barcellos assumiu o rótulo: “Se a esquerda me chama de higienista por querer limpar nossas ruas de morador de rua e não ter drogado assaltando a população, eu sou higienista, sim”. Sustentou que mais de 50% das pessoas abordadas numa operação na Cracolândia paulistana tinham pendências com a Justiça, que mais de 80% dos moradores de rua de Florianópolis não são da cidade e que a maioria está em estado de adicção. A saída que propõe combina internação involuntária, fim do que chama de “bolsa crack” (a regulamentação do governo Lula que, segundo ele, prioriza o pagamento do Bolsa Família a quem não tem endereço fixo), comunidades terapêuticas, casas de acolhimento, frentes de trabalho e um “hub de ascensão social” nos moldes de São Paulo, com tratamento distinto para os cerca de 10% que não são dependentes químicos. Perguntado sobre o “case” que o candidato ao governo João Rodrigues (PSD) apresenta em Chapecó, respondeu que é “um case assertivo” e disse que o relatório de mais de 200 páginas que coordenou, hoje, segundo ele, aplicado em Joinville e estudado em duas universidades, entre elas a Univille, é “um mix de tudo que dá certo”: o direcionamento paulistano, as casas de passagem, a política de internação involuntária e a frente de trabalho de João Rodrigues. “Não precisa reinventar a roda”, concordou com o entrevistador.
Passarela do Samba, UFSC e um desafio ao debate
Na mesma resposta, o candidato disparou contra a gestão de Florianópolis: afirmou que a prefeitura gastou mais de R$ 20 milhões na Passarela do Samba “da cidadania” para fazer “caminha pra cracudo” no centro, projeto que, segundo ele, é alvo de investigação da Polícia Civil envolvendo a alta cúpula municipal. Citou Fábio Botelho (PODE), ex-chefe de gabinete de Topázio Silveira Neto e hoje candidato a deputado estadual, dizendo existir foto dele com um dos diretores do projeto e classificando-o como “um dos políticos mais perversos” da política catarinense. Ele mesmo registrou que Botelho nega envolvimento, e o candidato citado não foi ouvido nesta entrevista. Botelho, segundo Barcellos, o chamou de xenofóbico. Sobre educação superior, disse que a UFSC “foi destruída” por um domínio da esquerda, relatou pichações e um delivery de maconha dentro do campus, e contou que entrou com Marcelo Brigader na sede do Conviva, onde afirma terem encontrado mais de mil carteiras escolares novas sem uso enquanto estudantes denunciavam falta de estrutura em salas de aula; hoje vê com bons olhos a atual reitoria e diz que pretende colaborar: “e se ele fizer errado, eu volto na universidade pra denunciar”. Lembrado do enfrentamento em que quase saiu no braço durante um ato sobre escolas cívico-militares, chamou o adversário Camazã de covarde e o desafiou publicamente para um debate.
“Já deu de esquerda e já deu de direita corrupta”
O Jornal Razão buscou o contraditório perguntando se não há nada da esquerda que tenha funcionado, citando o ProUni e o Luz para Todos, e se a direita também não erra em algumas pautas. Barcellos admitiu “microacertos” dos governos petistas e disse admirar a capacidade de mobilização da esquerda, mas argumentou que o país investe três vezes mais no ensino superior do que na educação básica, que gasta por aluno três a quatro vezes menos que a Alemanha na base e que há 38% de analfabetos funcionais no ensino superior. Para ele, prova de que “não adianta colocar alguém por cota se você não deu a oportunidade dele ir bem na educação básica”. Na outra ponta, recusou o rótulo de direita a Valdemar da Costa Neto, citou o escândalo do INSS e o caso Daniel Vorcaro e concluiu: “Já deu da esquerda no Brasil e já deu também de uma direita corrupta”.
Visto catarinense, Brasília e o recado final
A proposta que ele apresenta como carro-chefe da relação com Brasília é o que chama de visto catarinense, ideia que credita inicialmente a Léo Lameira, candidato do partido ao estadual. O desenho: um registro habitacional obrigatório, com prazo de 14 dias para quem chega se registrar na prefeitura, alimentando um controle nacional de migração que serviria para reajustar os repasses dos fundos de participação estadual e municipal aos entes que mais recebem gente. “A cada cem reais que a gente manda, a gente recebe vinte”, disse, citando ainda um dado da FIESC segundo o qual os gargalos de infraestrutura do Estado poderiam ser resolvidos 47 vezes se o dinheiro ficasse aqui, e reclamando que um professor no Maranhão ganha mais que um professor catarinense. Ele fez questão de dizer que não é contra a chegada de gente de fora. Ao contrário: afirma que dois comerciantes que o apoiam no centro de Florianópolis fecharam as portas por falta de mão de obra. “Eu quero que elas venham”, disse, defendendo uma migração “ordenada”, com habitação regular.
Sobre a rotina de Brasília, as comissões e as viagens semanais, o candidato respondeu que “Brasília é intensa, mas eu sou intenso também”, prometeu ser “combativo, porém articulador” e apontou Kim Kataguiri como sua maior referência de deputado que une viralização e produção legislativa. Criticou a bancada catarinense, 16 deputados que, na avaliação dele, não puxam as pautas do Estado, e acusou, de forma genérica, parlamentares de destinarem emendas com desvio de 30%, sem citar nomes ou apresentar provas. Se eleito, diz que seus primeiros projetos seriam o fim do “bolsa crack”, com restrição de benefícios a quem está em idade produtiva e tem emprego disponível na região, e a flexibilização da internação involuntária; na sequência viriam o visto catarinense, a revisão do pacto federativo e um modelo de fundações que permita ao empresário destinar parte do imposto à capacitação dos próprios funcionários, num país onde, segundo ele, o trabalhador produz três vezes menos que o norte-americano. No recado final, olhando para a câmera, apelou ao eleitor indeciso e ao que pensa em não votar: “Eu te convido a se revoltar”, disse, listando o assalto à filha, o furto contra a avó e a facada no irmão como motivos, antes de fechar com o pedido de voto no 1414 e a promessa de não precisar “pegar um avião pra ir morar na Europa”.























