A repercussão da reportagem do Fantástico sobre ações de cidades catarinenses envolvendo pessoas em situação de rua provocou uma reação imediata e dolorosa em Florianópolis (SC). Entre as críticas mais contundentes está a da mãe de Thales, adolescente de 17 anos assassinado em 2023 no Largo da Alfândega por Jonas Martins Vieira, morador de rua e dependente químico, condenado a 27 anos de prisão pelo crime.
Em uma série de vídeos emocionados, a mãe do jovem expressou revolta ao ver a narrativa nacional retratar moradores de rua como vítimas de expulsão ou perseguição, sem citar casos graves de violência já registrados em Santa Catarina. Para ela, o próprio filho, morto de forma brutal, foi apagado da discussão.
Segundo o relato da mãe, assistir ao conteúdo exibido foi como reviver o momento mais traumático da vida dela. Ela afirma que o programa tratou Jonas como alguém “coitado”, enquanto ignorou completamente o que descreve como “a verdadeira vítima”: seu filho Thales.
“Porque ele é uma vítima, não é? E o meu filho Thales não é uma vítima? Meu filho estava lá, um morador de rua foi lá e ceifou a vida dele”, desabafou.
A mãe relembra que completaram dois anos do crime neste mês de novembro e critica a falta de sensibilidade da emissora ao ignorar um dos episódios mais marcantes envolvendo violência nas ruas de Florianópolis. Ela destaca que deixou o Rio de Janeiro buscando segurança em Santa Catarina, mas seis meses depois perdeu o filho para um ataque repentino e sem defesa.
Durante o interrogatório judicial, Jonas afirmou ter consumido cocaína e crack instantes antes de atacar Thales, relato também ignorado pela reportagem nacional. Para a mãe, o silêncio sobre esse histórico de violência distorce a realidade enfrentada diariamente por famílias catarinenses.
“Será que o direito de ir e vir é maior que o direito da vida? Eu perdi o direito de ver meus netos. Perdi o direito de ver meu filho formado. Minha família perdeu o direito de crescer com o Thales”, diz, em tom de indignação.
Ela critica o que chama de “hipocrisia midiática” ao focar apenas em denúncias contra prefeituras e deixar de fora, segundo ela, o impacto da dependência química e da criminalidade associada a parte da população em situação de rua.
“Falam de direito de ir e vir, mas o meu filho perdeu todos os direitos. E quem tira a vida de alguém tem que perder esse direito também. Eu estou cansada dessa hipocrisia”, afirmou.
A mãe cita ainda que, após assistir à reportagem, encontrou centenas de comentários nas redes sociais que reforçaram sua revolta. Segundo ela, o material apresentado em rede nacional ignorou totalmente a dimensão da violência que vitima moradores, trabalhadores e jovens como seu filho.
“Obrigada, Globo, por acabar com o meu dia”, disse ela, em meio às críticas. “A dor de uma mãe é real. A mídia não quer saber da realidade, quer maquiar, quer falar mentira. Eu odeio essa hipocrisia.”
O caso Thales foi amplamente discutido em Florianópolis e reacendeu debates sobre segurança pública, políticas de acolhimento, saúde mental e enfrentamento da dependência química. A condenação de Jonas e os detalhes revelados pelo Ministério Público reforçaram o alerta sobre riscos enfrentados por quem circula diariamente no Centro da Capital.
Para a mãe, no entanto, o mais doloroso é sentir que a história do filho segue ignorada quando o tema volta ao debate nacional.
“Meu filho não volta. Mas a verdade precisa ser contada. Ele existiu. Ele tinha uma vida inteira pela frente”, conclui.




























