O homem que morreu em confronto com a Polícia Militar nesta segunda-feira, em Blumenau, era procurado havia 13 anos, e a polícia sabia exatamente por quê. Documentos obtidos com exclusividade pelo Jornal Razão, repassados pelas famílias das vítimas acumuladas ao longo dos anos, revelam que Maicon Paulo da Silva, de 34 anos, respondia por uma emboscada a tiros contra uma mulher e uma menina de 11 anos em Rio do Sul, já tinha condenação por balear um policial militar e era tratado pela própria Polícia Civil como um caçador tão perigoso que persegui-lo na mata poderia terminar em desastre.
A queda dele veio de onde ninguém esperava. Uma adolescente de 15 anos procurou o coordenador pedagógico da escola em Blumenau e relatou quatro tentativas de abuso sexual do padrasto desde maio. Ao checar os dados do homem para atender a ocorrência, os policiais militares descobriram o que a Justiça procurava desde 2013: um mandado de prisão preventiva em aberto por tentativa de homicídio qualificado.
Ele saiu de casa com duas armas longas nas mãos e correu para o mato, como fazia havia 13 anos. Dessa vez, não escapou.
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A emboscada de 2013
A história que o transformou em foragido começou na tarde de 26 de maio de 2013, na Estrada Geral Itoupava, zona rural de Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí. Escondido em um matagal na beira da estrada, Maicon aguardou a passagem de um carro que ele sabia que viria, porque aquele era o caminho diário da vítima até em casa. Quando o veículo se aproximou, ele saiu do mato e abriu fogo.
Dentro do carro estavam uma mulher de 34 anos e a sobrinha dela, uma menina de 11. Conforme a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina, foram aproximadamente dez disparos, feitos com duas armas, uma delas de grosso calibre.

A perícia do Instituto Geral de Perícias documentou marca por marca. Uma delas, a M11, atravessou a chapa da porta do motorista e rasgou o revestimento interno logo acima dos comandos do vidro elétrico, exatamente onde fica a mão de quem dirige.

O para-brisa também foi atingido. As marcas M13 e M14 ficaram registradas no vidro dianteiro, uma delas com estrelamento radial, na altura do painel e do retrovisor interno.

A motorista conseguiu tirar o carro da linha de tiro e chegar em casa. As duas escaparam com ferimentos leves, provocados pelos estilhaços de vidro, por circunstância que o próprio Ministério Público classificou como alheia à vontade dele.
Uma obsessão de anos
O ataque não surgiu do nada. A denúncia reconstitui uma perseguição que atravessou quase uma década. Maicon conhecia a vítima desde a infância, já que as famílias eram vizinhas na zona rural de Rio do Sul. Por volta dos 16 anos, declarou-se apaixonado; ela recusou e pediu que ele se afastasse. Ele não aceitou: passou a telefonar com tanta insistência que a mulher trocou de número. Foi aí que ele começou a deixar cartas sobre o carro dela.

As cartas, apreendidas e anexadas ao inquérito, misturavam declaração de amor e ameaça. Nas palavras do Ministério Público, elas “sempre findavam em promessas de mal futuro, injusto e grave”, com ele “asseverando que iria matá-la”.
Saiba que eu vou incomodar você até você namorar comigo.
Em outro trecho, ele transferiu a culpa para a mulher: “Eu já quase me matei por você e você não dá importância. Você pode até dizer que eu fiquei maluco, que perdi o juízo. Se estou assim, você também tem culpa”.

A carta mais perturbadora do conjunto narra o dia em que ele saiu armado para tirar a própria vida depois de entregar uma “carta de despedida”. No caminho, contou, gastou a munição toda, menos a bala que reservava para si.
Um infeliz dum javali cruzou meu caminho, e a munição que era pra mim, quem levou foi ele. Na hora fiquei com raiva por ele ter estragado minha morte.

Na sequência da carta, ele conta que chamou os amigos para aproveitar a carne da caça. Ao decretar a prisão preventiva, a Justiça citou as cartas como reforço da tese de tentativa de homicídio qualificado e apontou “aparente desejo exagerado do representado pela vítima” e “possível insanidade mental”.
Já tinha baleado policial em ocorrência de caça ilegal
Quando armou a emboscada, Maicon tinha acabado de deixar o sistema prisional. Em 2011, aos 19 anos, ele baleou um policial militar com dois disparos durante o atendimento de uma ocorrência de caça ilegal em Rio do Sul, e foi condenado por tentativa de homicídio, resistência e porte ilegal de arma de fogo. Cumpriu pena no Presídio Regional de Rio do Sul entre 2011 e o início de 2013, progrediu de regime e, em março de 2013, deixou de assinar o controle da Justiça. A família o viu pela última vez na Páscoa daquele ano. Dois meses depois, emboscou o carro.
Treze anos embrenhado na mata
Depois dos disparos, Maicon sumiu, e é nesse ponto que os documentos policiais ganham tom de história de filme. Relatórios da Divisão de Investigação Criminal de Rio do Sul apontavam que ele estava escondido na região das serras Vencida e Mirador, entre Rio do Sul e Presidente Getúlio, uma área de cerca de cem quilômetros quadrados de mata fechada, cortada por vales, furnas e minas abandonadas. Criado ali perto, era descrito por moradores como “exímio caçador e mateiro”, com “habilidades e conhecimento adquiridos ao longo dos anos que permitem que este sobreviva em meio a este ambiente por tempo indeterminado”.
Os rastros dele viravam ocorrência: uma vaca abatida com um tiro na cabeça, da qual levou apenas um pernil; furtos de comida e bebida em ranchos; um acampamento improvisado encontrado no mato com objetos furtados dias antes do ataque; moradores relatando luzes em meio à noite e cães latindo na serra. À família, ele nunca deu satisfação. O pai chegou a dizer aos investigadores que achava que o filho pudesse estar morto.
“Poderia levar a um resultado desastroso”
Uma fonte que acompanhou as buscas na época contou ao Jornal Razão que os relatórios internos tratavam a captura como missão de alto risco.
Qualquer incursão pra pegar o Maicon naquela área tinha que ser exaustivamente preparada, com equipe treinada em patrulha de selva. Ele já tinha entrado em confronto armado com o Pelotão de Patrulhamento Tático e deixado um policial ferido, e podia ficar de tocaia esperando. Uma equipe sem esse preparo poderia levar a um resultado desastroso.
O alerta repetido pela fonte foi registrado por escrito pelos investigadores à delegada do caso. Até o uso de helicóptero foi descartado nos documentos: na mata fechada, a aeronave seria “de pouca e/ou nenhuma valia” e ainda poderia empurrá-lo para um esconderijo mais distante.
Ele nunca foi encontrado. O processo pela tentativa de homicídio qualificado ficou suspenso porque Maicon jamais chegou a ser citado, e a prisão preventiva foi renovada em sucessivas decisões ao longo dos anos, sempre com o mesmo diagnóstico: réu evadido, paradeiro desconhecido, “desapego à liberdade e à vida em sociedade”. O mandado de prisão em aberto tinha validade até 8 de maio de 2034.
A queda em Blumenau
O paradeiro só apareceu nesta segunda-feira, a cerca de cem quilômetros das serras onde ele foi procurado pela última vez. Maicon vivia no bairro Valparaíso, em Blumenau, na casa de uma mulher com quem mantinha um relacionamento. Quem o entregou foi a filha dela, de 15 anos, que procurou o coordenador pedagógico da escola, relatou as tentativas de abuso, apontou armas de fogo escondidas em uma estrutura da residência, perto da caixa d’água, e contou que ele mesmo dizia ser foragido da Justiça.
De posse da ordem judicial, os policiais militares foram até a residência, e a cena que encontraram parecia saída dos relatórios de 2013: Maicon saía de casa com duas armas longas nas mãos. Ao perceber a aproximação policial, se embrenhou no mato.
A PMSC cercou a região e, durante as buscas na mata, o encontrou armado. Ele reagiu à tentativa de abordagem, foi alvejado e morreu no local. Com ele, os policiais apreenderam uma espingarda calibre 12, um rifle, munição em quantidade e o equipamento que resumia a vida que levava: roupas camufladas, facão e lanterna. Maicon morreu exatamente como viveu os últimos 13 anos, embrenhado na mata, armado e vestido para a caça.
A adolescente e os policiais passam bem. Com a morte, o processo que o manteve foragido caminha para a extinção da punibilidade, desfecho previsto em lei quando o réu morre. A identidade da adolescente não é divulgada por ela ser menor de idade.
Entenda o caso
Tudo começou dentro de uma sala de escola. A enteada de Maicon, de 15 anos, procurou o coordenador pedagógico depois de meses guardando o que acontecia dentro de casa e de não encontrar acolhida ao contar à própria mãe, e foi a denúncia dela que colocou a Polícia Militar no rastro do foragido. Leia a reportagem completa sobre a ocorrência que derrubou os 13 anos de fuga: Adolescente denuncia tentativa de estupro, PMSC monta operação e neutraliza foragido em Blumenau.



































