O ônibus escolar tinha acabado de encostar do outro lado da pista. Foi o sinal para atravessar. A menina de 14 anos pegou a mão do irmão de 7 e deu os primeiros passos sobre a BR-470. Não passou de dois.
Os irmãos foram identificados como Beatriz Joos de Souza, de 14 anos, e Arthur Joos Schssler, de 7 anos. Os dois nasceram em Rio do Sul e faziam a mesma travessia todos os dias para pegar o transporte que os levava à escola em Pouso Redondo.
Eles estavam esperando para atravessar, o ônibus escolar encostou no outro lado e ela segurou na mão do menino, o mais pequeno, e ela deu, não sei se chegou a dar dois passos nisso o carro já veio e estourou.
O relato é da mãe, de 34 anos, que acompanhava a travessia e viu tudo da beira da rodovia.
A neblina e a velocidade
Na tentativa de entender o que aconteceu, a mãe levanta duas hipóteses. A manhã desta terça-feira (4) amanheceu com cerração fechada sobre o trecho, e ela não sabe dizer se a filha calculou mal o tempo ou se simplesmente não enxergou o carro se aproximando.
“Eu não sei se ela achou que dava tempo ou ela não viu os faróis, tinha muita neblina, mas eu acho que o carro também estava muito rápido, não sei”, disse. “Eu sei que o estouro foi muito grande e eu nem consigo acreditar que isso está acontecendo.”
O atropelamento aconteceu por volta das 6h46, no km 164 da BR-470, na divisa entre Pouso Redondo e Trombudo Central, no Alto Vale do Itajaí. Segundo relatos colhidos no local, o condutor de um Jeep Renegade, de 54 anos, seguia no sentido Pouso Redondo para Rio do Sul quando atingiu as duas crianças que cruzavam a faixa de rolamento. Os corpos foram arremessados a cerca de 15 e 25 metros, às margens da rodovia.
Quando o Corpo de Bombeiros Militar chegou, Beatriz e Arthur já estavam sem sinais vitais e com múltiplos traumas. A mãe foi atendida em estado de choque e permaneceu no local depois do socorro.
“Por baixo da farda, meu coração também chorava”
O atendimento marcou também quem trabalhou na ocorrência. Uma das bombeiras que estiveram no local publicou, horas depois, uma mensagem endereçada à mãe.
“Hoje eu não falo apenas como bombeira. Falo também como mãe”, escreveu. Ela contou que é mãe de duas adolescentes e que nenhum treinamento prepara para o que encontrou na BR-470. “Jamais estamos preparadas para olhar nos olhos de uma mãe que perdeu seus dois filhos ao mesmo tempo. Não existe treinamento que nos ensine a enfrentar um silêncio tão doloroso.”
Naquele momento, por baixo da farda, meu coração também chorava. Levarei essa ocorrência comigo por toda a minha vida.
A travessia que virou debate
A morte dos dois irmãos reacendeu nas comunidades do Alto Vale a discussão sobre o transporte escolar em trechos cortados por rodovia federal. Moradores questionam por que crianças precisam atravessar a BR-470 a pé, no escuro e com neblina, para embarcar, em vez de o veículo fazer o retorno e recolher os alunos do lado em que moram.
A BR-470 é a principal ligação do Alto Vale do Itajaí e atravessa dezenas de comunidades que dependem da rodovia para o deslocamento diário. O trecho onde ocorreu o atropelamento é de pista simples.
Entenda o caso
O sinistro foi registrado na manhã desta terça-feira (4), no km 164 da BR-470, na divisa entre Pouso Redondo e Trombudo Central. Guarnições do Corpo de Bombeiros Militar de Trombudo Central e de Pouso Redondo atenderam a ocorrência, e a Polícia Militar foi acionada via Copom para dar apoio aos bombeiros e à Polícia Rodoviária Federal, responsável pelo trecho. Leia também: ‘Minhas vidas’: irmãos que morreram atropelados em SC estavam a caminho da escola.
As circunstâncias do atropelamento seguem sob apuração da PRF, que deve concluir o levantamento sobre a dinâmica do sinistro. Não há informação divulgada sobre providências em relação ao condutor.

































