Logo Jornal Razão
Publicidade

ONG de Itajaí suspeita de castrações falsas fatura R$ 31 milhões sozinha no RJ e mira contrato de R$ 95 mi no DF

Associação Catarinense de Gestão Hospitalar (CHC) acumula apontamento de possível dano de R$ 741 mil no TCE-SC e apuração federal sobre cadastros de castração enquanto vence chamamento de R$ 31,6 milhões como única concorrente em Maricá. A avaliação do contrato do Hospital Veterinário Público do DF está marcada para 19 de agosto.

ONG de Itajaí suspeita de castrações falsas fatura R$ 31 milhões sozinha no RJ e mira contrato de R$ 95 mi no DF
Foto: Reprodução
Publicidade

Uma associação sem fins lucrativos com sede em Itajaí, no litoral de Santa Catarina, viu a receita saltar de R$ 4,5 milhões para R$ 25,2 milhões em apenas dois anos, segundo levantamento do portal Metrópoles. No mesmo período, colecionou um apontamento de possível dano de mais de R$ 741 mil no Tribunal de Contas de Santa Catarina, virou alvo de questionamentos sobre castrações registradas com dados inconsistentes em programa federal e levou, sozinha e sem nenhum concorrente, um contrato de R$ 31,6 milhões no Rio de Janeiro. Agora, aparece rondando o maior prêmio do setor: a operação do Hospital Veterinário Público do Distrito Federal, um chamamento de R$ 95,1 milhões.

A entidade é a Associação Catarinense de Gestão Hospitalar, Conhecimento e Assistência Social, conhecida como CHC. Aberta em 2014, tem como presidente registrado no Portal da Transparência Paulo Henrique da Cruz. No papel, é uma associação privada sem fins lucrativos dedicada à causa animal. Na prática, tornou-se uma máquina de vencer chamamentos públicos, com convênios federais de castração no Paraná e em São Paulo que somam R$ 22,8 milhões, dos quais R$ 11,4 milhões já foram liberados, com vigência até outubro de 2026.

Publicidade

A conta que começou em Itapema

O primeiro sinal de alerta veio de dentro de Santa Catarina. O TCE-SC analisa, no processo DEN-24/80001959, o contrato da CHC com a Prefeitura de Itapema para administrar acolhimento, atendimento veterinário e manejo de cães e gatos. Na decisão publicada em julho de 2025, os auditores apontaram seis blocos de possível dano que somam R$ 741.734,71.

Entre os itens listados estão R$ 166,6 mil em saídas financeiras sem documentação, R$ 190 mil em serviços veterinários, jurídicos e administrativos sem comprovação suficiente, R$ 153 mil em locações de veículos consideradas antieconômicas e R$ 90 mil pela locação de um ônibus que, segundo a inspeção do tribunal, não era usado para realizar cirurgias. O TCE-SC determinou a suspensão cautelar de novos pagamentos referentes a essas despesas e encaminhou o relatório ao Ministério Público. O processo ainda está em fase de contraditório, sem condenação definitiva. A CHC nega prejuízo e sustenta que não recebeu por procedimentos não executados.

Castrações com tutor “Samsung A14”

A segunda frente é federal. O Metrópoles analisou 500 registros de microchips do programa Castra+ em quatro municípios paulistas atendidos pela CHC. Apenas 61 tinham o nome do tutor, 346 não apareciam no SinPatinhas, o sistema federal de cadastro de cães e gatos, e 93 estavam registrados em nome da própria clínica contratada para operar. Entre os cadastros, um tutor identificado como “Samsung A14” e um animal batizado de “Bolsonaro 17”.

O Ministério do Meio Ambiente informou que notificaria a entidade e faria apuração técnica. Até esta semana, não há relatório público conclusivo dessa auditoria. A CHC atribui as inconsistências à instabilidade do sistema. Um dado incorreto no cadastro, isoladamente, não prova que a cirurgia não aconteceu, mas o volume de registros sem rastreabilidade em um programa que já liberou R$ 11,4 milhões públicos segue sem resposta oficial.

Publicidade

Sozinha na disputa e com parecer copiado

Enquanto as apurações correm, a expansão não parou. Em Maricá, no Rio de Janeiro, a CHC foi a única proponente do chamamento para o hospital veterinário municipal e teve o resultado homologado em 7 de julho por R$ 31.629.274,73. A cronologia chama atenção: em 17 de março, o pedido da entidade para se qualificar como Organização Social foi definitivamente arquivado porque ela não apresentou a documentação complementar exigida. Quatorze dias depois, em outro processo e sob outro regime jurídico, foi qualificada como Organização da Sociedade Civil. Um mês depois, aparecia sozinha na disputa milionária.

Os documentos oficiais do processo contêm erros grosseiros de copiar e colar. O parecer técnico que recomendou a parceria com a CHC afirma, no próprio texto, analisar uma parceria entre a “Secretaria de Defesa do Consumidor” e o “Instituto Exittus de Gestão”, órgão e entidade que não têm relação nenhuma com o hospital veterinário. A portaria que divulgou a pontuação disse que o hospital garantiria a “continuidade dos projetos de desenvolvimento econômico solidário”. Outra portaria chegou a habilitar a CHC para “cogestão dos eventos” de uma secretaria de habitação, e precisou ser anulada no dia seguinte. Os erros não provam fraude, mas fragilizam a demonstração de que uma proposta de R$ 31,6 milhões passou por análise individualizada e cuidadosa.

A própria avaliação técnica expõe a contradição: a proposta da CHC recebeu 75 de 100 pontos, com apenas 7 de 20 no quesito preço, e a equipe apontou falta de detalhamento sobre desafios locais, infraestrutura, equipamentos e programas. Mesmo assim, foi aprovada “sem ressalvas”. No plano financeiro, R$ 10,98 milhões, ou 34,7% do total, vão para locações, e a primeira parcela sozinha soma R$ 12,65 milhões, equivalente a 40% do contrato adiantado. Duas empresas que forneceram cotações para serviços diferentes aparecem na proposta com exatamente o mesmo endereço, em Araruama. O endereço comum não prova conluio, mas é o tipo de coincidência que a prefeitura fluminense terá de explicar.

O prêmio de R$ 95 milhões em Brasília

O alvo mais ambicioso está no Distrito Federal. O chamamento público da Secretaria Extraordinária de Proteção Animal prevê R$ 95.149.439,40 para operar o Hospital Veterinário Público do DF por 60 meses, prorrogáveis por mais 60, uma média de R$ 1,58 milhão por mês. A CHC é apontada como interessada no contrato: João Paulo Silva, irmão de Guto Silva, ex-secretário do governo Ratinho Jr. no Paraná, participou como representante da entidade de uma reunião do chamamento em 15 de julho e de uma visita técnica ao hospital no fim do mês. A associação afirma que ele foi indicado por morar em Brasília e que não teria poder de decisão na fase preliminar.

Publicidade

O prazo para propostas terminou em 10 de agosto e a avaliação está marcada para 19 de agosto. Até quinta-feira, o portal oficial do DF não havia divulgado a lista de proponentes, então ainda não há confirmação de que a CHC formalizou a disputa. Mas a presença de seu representante em todas as etapas preliminares deixa pouca dúvida sobre o interesse.

A entidade tem o que mostrar a favor: a Prefeitura de Curitiba informa que o hospital veterinário administrado pela CHC realizou cerca de 30 mil consultas no primeiro ano de operação, dado oficial do município, embora não substitua auditoria independente. É esse currículo que a associação catarinense leva para as mesas de avaliação Brasil afora, enquanto as apurações que nasceram em Itapema, passaram pelo Ministério do Meio Ambiente e agora se acumulam sobre Maricá seguem sem conclusão.

O TCE-SC ainda vai julgar o mérito do possível dano de R$ 741 mil. O Ministério do Meio Ambiente não publicou o resultado da apuração sobre os microchips. E na próxima semana, em Brasília, uma comissão vai abrir os envelopes de um contrato de R$ 95 milhões. Se a CHC estiver entre eles, a associação de Itajaí terá diante de si o maior contrato de sua história, com todas essas perguntas ainda no ar.

Receba as notícias no WhatsAppEntrar
Publicidade
Publicidade
Grupo de WhatsApp · Tempo real

Santa Catarina no seu WhatsApp

Entre no grupo oficial do Jornal Razão. As principais manchetes do dia, direto no seu aparelho. Sem spam.

Entrar no grupo
+48 mil catarinenses já acompanham