Luiz Fernando Ávila de Oliveira, de 21 anos, apontou o celular para a cabine amassada do próprio caminhão, na BR-153, em Frutal, no interior de Minas Gerais, e começou a falar com a voz embargada. Morador de Monte Castelo, no Planalto Norte de Santa Catarina, o jovem caminhoneiro sobreviveu na quarta-feira (2) a uma colisão que destruiu o veículo que ele havia conquistado pouco tempo antes e que ainda estava sendo pago.
“Hoje no dia 2 de setembro de 2026, eu posso considerar que eu nasci de volta”, disse Luiz Fernando no vídeo gravado no local e publicado no próprio perfil. Ao lado dele, o que restou da Scania branca deixava clara a violência do impacto: a frente aberta, o teto arrancado, vidros e peças espalhados pela pista, a carroceria com a carga ainda amarrada logo atrás.
Caminhão da frente frenou e não sobrou tempo de reagir
Conforme o relato do caminhoneiro, o veículo que seguia à frente teria frenado de forma repentina, sem que houvesse espaço para reação. Ele aponta falta de sinalização adequada no ponto onde tudo aconteceu. Em uma fração de segundo, tomou a única decisão que ainda estava ao alcance: puxar o volante para preservar o lado da cabine onde estava sentado.
O caminhão brecou na minha frente, então não deu mais tempo de reagir, eu só livrei o meu lado e o outro lado está aí
“Eu livrei o meu lado, onde ficou só o meu cantinho”, completou. A manobra explica por que um acidente daquele tamanho terminou com ferimentos leves em uma das mãos. Luiz Fernando viajava sozinho, sem passageiro na cabine, detalhe que ele mesmo destacou ao mostrar os destroços. “Graças a Deus, eu não estava com carona, não estava com ninguém junto. E foi um livramento gigantesco.”
O caminhão era um sonho recém-conquistado e ainda estava sendo pago
O veículo era o centro da história de trabalho do jovem. Comprado recentemente, depois de anos de luta e com as parcelas ainda em aberto, o caminhão representava o sonho que havia acabado de sair do papel. “Esse aqui é um sonho que há pouco tempinho eu consegui realizar. Claro, com luta, pagando e tudo mais. Mas consegui a conquista, que era um sonho ter um caminhão”, afirmou.
Olhar para a lataria destruída doeu. Ele não esconde isso no vídeo e chega a chorar diante da câmera. “Hoje aqui em Frutal, em Minas Gerais, deu uma pausa, não vamos dizer que acabou, mas… é triste, viu?”, diz, escolhendo tratar o prejuízo como interrupção, não como fim de linha.
A primeira reação, segundo ele, não foi calcular o estrago. Foi agradecer. “A primeira coisa que eu fiz foi agradecer pela minha vida, está tudo certo, sabe?” Em uma publicação feita no perfil oficial, o caminhoneiro resumiu o dia em uma frase: “Apenas mais uma prova de que Cristo vive em mim.”
Relato viralizou entre caminhoneiros de Santa Catarina
Desde a divulgação do vídeo, Luiz Fernando passou a receber mensagens de conhecidos, colegas de estrada e desconhecidos em volume que ele não conseguiu responder por completo. “Como muitos já sabem, mando mensagem até não conseguir atender a todos”, comentou no registro.
O relato ganhou espaço em perfis catarinenses e virou assunto entre caminhoneiros do estado, que reconhecem na cena um risco cotidiano da profissão: a frenagem inesperada de um veículo pesado em rodovia de pista simples, onde a margem de manobra é praticamente nenhuma e a decisão precisa ser tomada em menos de um segundo.
Agora, o jovem de Monte Castelo enfrenta a parte mais dura da conta. Precisa lidar com a perda de um caminhão financiado, com a interrupção da fonte de renda e com a reconstrução de um projeto que levou anos para sair do papel. O veículo pode ser refeito ou substituído, e ele afirma que segue com a intenção de voltar a rodar. O que ficou preservado, na avaliação do próprio caminhoneiro, é o que não tinha preço no acidente da BR-153: a vida.















