O músico Eduardo Bassani, pianista e cantor radicado em Florianópolis, se apresentou no hall da Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no fim da tarde de quinta-feira, 13 de agosto, vestido de pijama e com o rosto riscado de preto: abriu um exemplar de “Capitalismo e colonização”, de Karl Marx, e passou a arrancar as páginas com os dentes. O livro é o primeiro título do filósofo alemão publicado pela Editora da UFSC, a mesma que organiza a Feira do Livro onde a cena aconteceu.
O que mostra o vídeo
O vídeo da performance foi publicado no Instagram no mesmo dia, com a frase “Marx devorado na Feira do Livro da UFSC” sobreposta às imagens e a legenda “Performance de Eduardo Bassani na feira do Livro da UFSC”. Nas imagens, o artista aparece de pijama listrado com bordado de flores, camisa aberta, barriga de fora e chinelo, diante de um pedestal de microfone e de uma caixa de som. Riscos pretos cruzam a testa, o olho e o queixo, como pontos de sutura desenhados na pele.
A sequência mostra Bassani encarando a câmera enquanto mastiga um pedaço de papel, depois erguendo o livro aberto acima da cabeça e mordendo um naco das páginas até rasgá-las. Folhas voam pelo ar. No fim, a mesa coberta com toalha laranja ao lado dele fica com bolas de papel amassado, e as páginas se espalham pelo chão do hall. A trilha do vídeo é uma gravação de música erudita com cantores líricos e a Filarmônica de Berlim.
ASSISTA AO VÍDEO
A apresentação tinha nome e horário na programação oficial da feira: “O sonâmbulo”, às 17h30 do dia 13, no hall da Reitoria, última atração artística do evento. A organização a descreveu como uma performance de piano, voz e teatro, com o artista vinculado à Udesc. O pijama e o chinelo dialogam com o título do trabalho.
O livro rasgado
“Capitalismo e colonização: extratos e notas (Londres, 1851)” reúne anotações que Marx fez no verão de 1851, na Biblioteca Britânica, a partir da leitura das obras do historiador americano William Hickling Prescott sobre as conquistas do México e do Peru. Nos cadernos, o autor trata o colonialismo como parte constitutiva do sistema capitalista e comenta o tráfico de escravos no Atlântico e a manutenção da escravidão no Brasil. A edição foi organizada para ser lida por quem não tem conhecimento prévio da teoria marxista.
A Editora da UFSC lançou o volume em 13 de março, na Igrejinha do campus Trindade, durante o evento Livro na Praça, e tratou a publicação como marco: era o primeiro Marx do catálogo e abria uma linha dedicada ao pensamento crítico latino-americano e à teoria social. O diretor da editora, professor Nildo Ouriques, classificou o lançamento como um posicionamento numa “gigantesca batalha das ideias” e elogiou o trabalho de tradução, revisão e edição da equipe. O professor Sílvio Marcus de Souza, que dividiu a mesa com Ouriques, apresentou a obra como um marco para o pensamento crítico contemporâneo.
Cinco meses depois, o mesmo livro foi rasgado e mastigado no palco da feira que a editora organiza. Bassani segura o exemplar com a capa virada para o público em vários momentos, e o nome de Karl Marx e o título “Capitalismo e colonização” ficam legíveis nas imagens.
Quem publicou o vídeo
O vídeo foi publicado em post colaborativo entre o perfil do artista e o perfil alvesborgesmaria. É o mesmo perfil que assina, ao lado da conta da Editora da UFSC, a divulgação oficial da programação da feira, publicada em nome da secretária de Cultura e Arte da universidade, professora Maria de Lourdes Alves Borges. A Secretaria de Cultura e Arte (SecArte) é a parceira da editora na realização do evento. Os comentários do post com a performance foram desativados: quem abre a publicação encontra o aviso de que eles foram limitados.
A feira
A Feira do Livro da UFSC 2026 ocorreu de 10 a 13 de agosto, das 9h às 19h, no hall e em outros espaços da Reitoria, no campus Trindade, com entrada gratuita. O evento reuniu editoras universitárias ligadas a instituições federais, estaduais e comunitárias de várias regiões do país, um estande coletivo da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu) e editoras independentes catarinenses, com descontos de até 50% nos livros.
A programação incluiu a aula “Lendo Salim Miguel para o vestibular da UFSC”, com a professora Luciana Rassier, a palestra sobre os romanos e a filosofia com o professor Luiz Henrique Queriquelli, a roda de conversa sobre as fortalezas da Ilha de Santa Catarina com o arquiteto Roberto Tonera e a apresentação do livro “Vida Marinha de Santa Catarina” pelo professor Alberto Lindner. Na parte artística, passaram pelo hall o grupo de samba e pagode Nós por Nós, a Academia do Choro, a Orkextra e, por último, a performance de Bassani.
No Instagram, Bassani se apresenta como pianista, cantor e mestrando em música, com atuação em performances, eventos e shows, e indica Florianópolis como base. O perfil dele é fechado.
A reportagem não localizou manifestação pública da UFSC, da editora ou da SecArte sobre o conteúdo da performance. “Capitalismo e colonização” segue à venda na livraria virtual da Editora da UFSC.















