A câmera do celular gira devagar dentro de um cubo de metal de poucos metros. Cabe uma cama, um armário, uma pia, um fogão e quase nada além disso. O imóvel é um contêiner adaptado, do mesmo tipo que passa o dia empilhado no porto de Itajaí, transformado em moradia e anunciado por R$ 1.300 de aluguel.
“Olha o valor de um kitnet contanio em Itajaí SC, escuta o preço, mobilhado”, diz a mulher que grava o vídeo, enquanto mostra os móveis que vêm junto com o imóvel. Nordestina, ela mora na cidade e resolveu registrar o que encontrou no mercado de locação do litoral catarinense. A quitinete não é nova, está mobiliada e estava na oferta para quem quisesse fechar negócio.
Bastou o vídeo circular para a publicação virar um campo de disputa entre quem já mora em Itajaí e quem chegou de fora atrás de trabalho. O tamanho do imóvel e o valor cobrado dominaram a discussão.
Lata de sardinha
De um lado, a ironia. “1300 pra mora em uma lata de sardinha”, escreveu um seguidor. “É até humilhante isso e ainda cobrar 1.300 nessa lata”, completou outro. A comparação com lata apareceu em mais de um comentário e acabou virando o apelido do imóvel na conversa.
A autora do vídeo respondeu a boa parte das provocações. Contou que o espaço é realmente pequeno, mas que, mesmo assim, encontrar algo parecido na cidade está difícil.
Do outro lado, apareceu quem defendeu o valor cobrado. “É o preço que se paga por melhor qualidade de vida e segurança, se todo lugar fosse bom estaria mais barato”, argumentou um comentarista. “Ótimo, tem que cobrar caro mesmo!”, escreveu outro.
Quem chega de fora
O ponto mais tenso da discussão foi outro. “Enquanto tiver pessoas de fora pra alugar vai continuar assim, infelizmente”, cobrou uma seguidora. A resposta veio da própria autora do vídeo: mesmo pagando o aluguel e trabalhando dobrado, disse ela, conseguiu viver melhor do que no lugar de onde saiu, porque “por lá não tem emprego”.
Também entrou na conversa a conta de quem aluga. Um comentarista afirmou que cada contêiner de seis metros pronto, sem móveis, custa em torno de R$ 55 mil, e pediu que se calculasse o tempo necessário para ter retorno do valor investido. Outro foi além e listou terreno em Itajaí na casa de R$ 300 mil, contêiner mobiliado entre R$ 30 mil e R$ 35 mil, mais instalação hidráulica, elétrica e alvará, chegando a um investimento médio de R$ 450 mil. “É só vocês investirem e morar, simples”, ironizou.
Nos detalhes práticos, o retrato ficou mais claro. Perguntada se água e luz estavam incluídas, a autora do vídeo respondeu que só a água está inclusa no valor. Questionada se o imóvel era de frente para a praia, foi direta: “Nunca”.
Do porto para a moradia
Houve até quem perguntasse o que é um contêiner. A explicação veio simples, de quem já entendeu a lógica da cidade: é aquele de carregar mercadoria, dos que ficam no porto. Em Itajaí, um dos maiores polos portuários do país, o mesmo objeto que movimenta carga virou endereço residencial.
A proporção do valor sobre a renda apareceu em outro comentário, e resume por que o vídeo pegou: “1.300 para quem ganha 2.000 por mês é complicado”. Numa cidade que atrai trabalhadores de outros estados por causa do porto, da construção civil e da pesca, o custo da moradia entrou na conta antes mesmo da carteira assinada.
O debate seguiu nos comentários, sem consenso entre quem chama o valor de abusivo e quem diz que o mercado apenas cobra o que o litoral está disposto a pagar.





















