No vão central do Beiramar Shopping, em Florianópolis, uma esteira não para. Em cima dela está Débora Simas, de 55 anos, que subiu ao meio-dia de domingo (2) e só tem autorização para descer ao meio-dia deste domingo (9). São 168 horas seguidas: a alimentação e a hidratação acontecem em movimento, e a atleta dispõe de cerca de quatro horas diárias acumuladas para dividir entre sono, higiene e idas ao banheiro. Não há revezamento nem substituição.
A meta é um número exato: 846,16 quilômetros. É a marca da neozelandesa Emma Timmis, dona do recorde mundial feminino de corrida em esteira desde junho de 2024. Se cruzar essa distância, a catarinense se torna a primeira brasileira a conquistar o recorde na modalidade. Só nas primeiras 24 horas de prova, Débora já havia percorrido mais de 170 quilômetros.
Não é a primeira tentativa, e não é a primeira vez naquele mesmo vão. Em 2019, também no Beiramar Shopping, ela completou 800,61 quilômetros em sete dias, ficou com os recordes brasileiro e sul-americano e parou a 32,44 quilômetros do mundial. Sete anos depois, voltou ao mesmo cenário para buscar exatamente o que faltou.
Quem explica como ela chegou até aqui é o treinador, Paulo. “Ela chegou com muita insistência, primeiro”, diz. “Ela é uma pessoa determinada, com foco, clareza do que quer. Ela tem o tal do ato de fé muito claro.” Sobre a tentativa anterior, ele é direto: “tentamos em 2019, não obtivemos o êxito. Ela conseguiu o recorde sul-americano, o recorde pessoal dela”.
A diferença desta vez, segundo o treinador, está no volume de preparação. Débora treina com ele há 15 anos e corre há 22. Para um desafio dessa dimensão, o trabalho é dividido em ciclos, e o ciclo só começa quando existe data marcada. “Eu não consigo manter ela ótima pra um desafio desse sem ter a data dele”, afirma. Definida a data, a equipe teve uma janela de oito a dez meses de preparação específica.

Com a prova em andamento, Paulo diz que a atleta está dentro do previsto. “A Débora tá se comportando bem. Ela tá entregando aquilo que ela precisa entregar. Independente do que aconteça, ela tá entregando o que tem que entregar”, avalia. Perguntado se ela chega ao objetivo final, responde sem hesitar: “eu não estaria aqui se eu não acreditasse nisso. Esse é o ato de fé. A gente acredita até o último minuto”.
Quem coordena a equipe que cerca a esteira é Magda, que mora em Porto Alegre, trabalha com atletas e acompanha Débora há anos.
O que ela detalha é a rotina que sustenta uma prova dessas. “Ela já teve treinos de trabalhar o dia inteiro e ir pra esteira e passar a noite treinando, e no outro dia voltar a trabalhar. Já teve treinos de iniciar duas da manhã”, conta. A planilha vem do treinador e é seguida sem negociação: “ela recebe a planilha do treinador, ela segue fielmente, fielmente”. Para Magda, é o que separa Débora de outros atletas disciplinados. “Qualquer atleta que é regrado tem responsabilidade, leva a sério, tem resultado. Mas ela tem algo especial acima de tudo isso, porque ela é uma pessoa extremamente humilde, uma pessoa focada. Ela é uma mulher que não é só no esporte, na vida dela é assim.”

Dentro dos sete dias, nada é fixo. O descanso noturno depende do cumprimento das metas diárias de quilometragem estabelecidas pelo treinador, e do horário em que ela bate esses números. “Atingiu a meta, ela tem descanso”, explica a coordenadora. “Depende de que horas ela atingiu a meta.” Durante o dia, as pausas aparecem em brechas: quando o fisioterapeuta faz uma massagem, quando ela almoça. “Pra gente, a gente pensa em descanso em horas. Pra ela pode ser 10 minutos, tá valendo.”
A alimentação foi montada por uma nutricionista, mas a execução muda a cada hora de prova. “Como amiga, agora eu cuido de tudo isso”, diz Magda. “Tá com vontade de comer algo salgado, vai lá e pega. Quer algo doce. O atleta às vezes não sabe nem o que ele quer comer, aí cabe a gente administrar.” As idas ao banheiro seguem a mesma lógica: quando dá vontade, ela vai, porque fisiologicamente não há como segurar.
Há também um protocolo silencioso em volta da esteira. Ninguém pode ficar na frente da atleta, porque um esbarrão pode derrubá-la. Não pode haver gente demais puxando conversa, porque o foco se perde. E nada pode demorar mais do que o necessário, porque o cronômetro não para. “É como se fosse uma maratona da rotina”, resume Magda. Nesta edição, segundo a organização, 84 juízes se revezam para fiscalizar cada etapa do desafio.
Dentro da equipe existe até uma regra de linguagem. “Com a equipe, todos nós, não existe a palavra talvez, quem sabe, será que vai, será que não vai”, diz a coordenadora. “Da minha parte, quando alguém diz isso, eu digo não. Aqui não.” O trabalho avança em fatias curtas: “conquistando quilômetro por quilômetro, sempre naquela coisa, não podemos errar nada”. E é aí que ela mede o tamanho do que está em jogo para uma atleta amadora: “tu não tem toda a ajuda que tu queria, e aí tu consegue um recorde mundial”.
A trajetória ajuda a explicar a confiança da equipe. Nascida em Rio do Sul e moradora de Florianópolis há décadas, Débora começou por acaso, quando trabalhava na lanchonete de uma academia e resolveu disputar uma prova de nove quilômetros. Terminou no pódio e nunca mais parou. De lá para cá, acumulou quase 300 competições, tornou-se a primeira mulher a completar 1.000 quilômetros em uma prova no Brasil e virou tricampeã e recordista da BR-135, uma das ultramaratonas mais duras do país, com 217 quilômetros. Também defendeu o Brasil em mundiais na Holanda e na Espanha. Recentemente, segundo Magda, deixou o centro da capital e foi morar mais para o interior de Florianópolis.
A tentativa ainda tem um lado solidário. Cada quilômetro percorrido é convertido em doação de ração para cães e gatos, dividida entre as ONGs Eco Pet e Castra Ação, que atuam em Florianópolis e Barra Velha. Quem passa pelo shopping pode contribuir levando ração ou correndo trechos nas esteiras abertas ao público.
Se o número cair no domingo, a equipe já sabe o que espera. “Quando ela bateu o sul-americano, não era só ela, era todo mundo chorava”, lembra Magda. “Eu quero todo mundo aqui dentro, fazendo um carnaval de cima a baixo.” Para ela, o resultado extrapola o esporte: “é como se fosse um presente do universo pra uma mulher, pra um ser humano que merece”.
Até lá, Débora segue na esteira. O desafio é transmitido ao vivo, 24 horas por dia, pelo YouTube e pelo perfil da atleta no Instagram (@ultra_deby), e a distância final será conhecida ao meio-dia deste domingo (9), quando a organização confirma se o recorde mundial veio.



































