“O que eu vou fazer aqui é um apelo a vocês, a todos os vereadores.” Foi assim que um morador idoso da comunidade rural de Erva Doce abriu, por cerca de dez minutos, o microfone da tribuna da Câmara de Vereadores de São José do Cerrito, na Serra catarinense. O assunto não era estrada, saúde nem orçamento: era o padre responsável pela paróquia do município.
Logo no início, ele disse que o caso não se limita à capela onde mora. “Eu tenho 17 comunidades, o conselho de 17 comunidades que não querem nem ver ele”, afirmou aos parlamentares, antes de acrescentar a frase que resumiu o tom de toda a manifestação: “E ele acabou com a nossa comunidade.”
Em vários trechos, as críticas descambaram para ofensas pessoais. “Não é um padre, é um leão, é um bicho”, disse em determinado momento. Foi advertido pela presidência da Câmara, que pediu moderação nas palavras, lembrou que o sacerdote é uma liderança da comunidade e afirmou que ele tem direito de apresentar sua versão dos fatos.
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A troca do conselho e os R$ 5 mil
O estopim, segundo o relato, foi uma troca de conselho. O mandato do conselho da igreja da Erva Doce, de quatro anos, havia vencido, e o morador, que integrava o grupo, participou da renovação. Ninguém queria assumir a coordenação. O coordenador acabou aceitando continuar, mas com uma condição: reduzir a contribuição paga ao padre. “Porque você está levando cinco mil da nossa comunidade por ano. E a nossa comunidade é muito pequena”, contou o morador, reproduzindo o que teria sido dito na reunião. A partir dali, na versão dele, a relação azedou de vez. “Ele abusou com a nossa comunidade.”
Esse tipo de rateio é rotina nas paróquias do interior catarinense. Uma matriz atende dezenas de capelas espalhadas pelo meio rural, e cada comunidade repassa uma cota anual para a manutenção da estrutura e o sustento do pároco, calculada conforme o tamanho e a arrecadação de cada localidade. Mexer nesse valor costuma exigir acordo entre conselho comunitário e paróquia.
Dispensada em plena missa
O morador afirmou ainda que fiéis de outras localidades relataram ofensas e constrangimentos durante celebrações. Citou o caso de uma mulher que atuava havia 13 anos como ministra da Eucaristia e que, segundo ele, foi dispensada publicamente durante uma missa lotada. “A mulher me contou chorando”, disse.
Antes de chegar à Câmara, ele afirma ter tentado a via interna da Igreja. “Eu já fiz uma reunião com o bispo, fomos em nove pessoas lá”, contou, descrevendo um grupo formado por moradores de diferentes comunidades do interior do município. O resultado, na avaliação dele, foi nenhum: “Nós não conseguimos.” Em outro momento, resumiu a tentativa em poucas palavras: “Eu perdi para o bispo.”
“Meu pai que deu o terreno”
Foi também na tribuna que ele explicou por que se sente no direito de falar em nome da capela. “Eu não vim aqui para me exibir, nem para querer me aparecer”, afirmou.
O meu pai foi fundador da igreja, o meu pai que deu o terreno para a igreja da Erva Doce.
Segundo o relato, ele próprio ergueu as duas construções da comunidade, a primeira de madeira e a atual, de alvenaria. O pedido final foi direto aos nove vereadores do município: que o Legislativo entre no caso como mediador. “Eu acho que vocês têm condições de fazer alguma coisa”, disse.
O que a Câmara pode fazer
O apelo esbarra em um limite institucional. A Câmara Municipal não tem poder sobre a estrutura interna da Igreja Católica: a nomeação, a permanência e a transferência de um pároco são decisões do bispo diocesano, conforme o direito canônico. Na prática, o Legislativo pode servir de ponte, aproximar as partes ou encaminhar a demanda à diocese, sem qualquer efeito administrativo sobre a paróquia. O que os vereadores farão com o pedido não foi detalhado durante a sessão.
Uma paróquia com 36 comunidades
A paróquia de São José do Cerrito é a São Pedro Apóstolo, vinculada à Diocese de Lages, que abrange mais de 20 municípios do Planalto Serrano e é conduzida desde o fim de 2025 pelo bispo diocesano Dom Gilson Meurer, sucessor de Dom Guilherme Antônio Werlang, hoje bispo emérito. Criada em 27 de agosto de 1961, poucos meses antes da emancipação do município, a paróquia nasceu com 18 capelas e hoje reúne 36 comunidades, segundo registros da Igreja local. São Pedro é o padroeiro da cidade, que tem pouco mais de 8 mil habitantes e foi desmembrada de Lages.
Fora do plenário, a manifestação dividiu moradores da região. De um lado, quem defendeu o direito de levar a queixa ao Legislativo, espaço público em que a fala é garantida a qualquer cidadão. De outro, quem sustentou que a discussão pertence à hierarquia da Igreja, cabe ao bispo e exige ouvir o padre antes de qualquer conclusão.
Até o momento, não há manifestação pública do padre citado nem da Diocese de Lages sobre as alegações. As declarações reproduzidas nesta reportagem foram feitas em tribuna da Câmara de Vereadores de São José do Cerrito e são de responsabilidade de quem as apresentou. O espaço permanece aberto para o posicionamento do sacerdote, da paróquia e da diocese.












































