Sentadas uma de frente para a outra em cima da cama, de mãos dadas, mãe e filha estão à altura exata dos olhos. A menina fala baixo, devagar, como quem já fez aquilo muitas vezes. Pede para a mãe soltar a língua dentro da boca, deixar solta, e tentar começar uma palavra. Depois espera. Insiste. Fala de novo. E a mulher de 34 anos que não emite som desde 2022 mexe os lábios, tenta, e faz o esforço aparecer no rosto. A cena tem menos de um minuto e foi gravada dentro de uma casa em Rio Lageado, comunidade rural de Chapadão do Lageado, no Alto Vale do Itajaí.
Laura tem 7 anos. Luana Kerschbaum, a mãe, sofreu um AVC isquêmico em maio de 2022, aos 31, que atingiu a parte central do cérebro. Ela sobreviveu, mas perdeu a fala e os movimentos. Desde então vive acamada, dependente de cuidado em tempo integral, e a filha se tornou presença fixa ao lado dela. No vídeo publicado no perfil que a família mantém no Instagram, a menina não brinca de cuidar: ela conduz um exercício, corrige, incentiva e comemora cada tentativa. A legenda escrita pela família é de três palavras: “A Luana tentando!”.
Foi o suficiente para o vídeo se espalhar. Em poucas horas, a publicação foi tomada por comentários de gente que não conhece a família e escreveu do jeito que dá para escrever diante daquilo. “É impossível não se emocionar com esta cena”, resumiu uma seguidora. Outra foi direto ao papel que a menina assumiu sem nunca ter estudado para isso: “A melhor fonoaudióloga.”
A aposta dos seguidores
O que mais se repete nos comentários é uma espécie de aposta coletiva. Boa parte das pessoas não escreveu sobre a doença, escreveu sobre a menina, e sobre o que acredita que ela ainda vai conseguir.
Ela que vai curar a mãe, isso será um milagre maior ainda.
“A Luana vai sair dessa cama”, escreveu outra seguidora. “Ela vai fazer a mãe falar e levantar da cama”, cravou uma terceira. Há também quem tenha lido a cena como parte do tratamento, e não como um momento fofo isolado. “Continue, Laura, você é a peça fundamental nessa fisioterapia”, escreveu uma seguidora. Outra apostou na mãe: “A Luana tem muita força de vontade, vai falar.” E uma delas mandou o recado diretamente para a menina: “Laurinha, você é uma mocinha, ajudando sua mãe a falar. Você vai conseguir.”
No meio da enxurrada de elogios, apareceu também a pergunta que a família ouve com frequência e que ninguém respondeu na publicação: “Qual é a condição neurológica da Luana? Ela entende tudo?” A família não detalhou publicamente o quadro atual, e a reportagem não teve acesso a laudo médico.
A casa que virou rotina de cuidado
A vida da família mudou de um dia para o outro em 2022. Luana ficou 47 dias internada na UTI do Hospital Regional Alto Vale e mais 20 dias em leito comum no Hospital Bom Jesus, em Ituporanga, antes de voltar para casa. Hoje a residência é dividida entre ela, a filha, o marido, Jove, e a avó, Luciane. Quando a avó sai para trabalhar na plantação ou resolver alguma coisa, é Laura quem fica ao lado da mãe.
O tratamento não parou, e não é barato. Entre fisioterapia, fonoaudiologia e atendimentos especializados, os custos giram em torno de R$ 7 mil por mês, segundo a família. O pai deixou o emprego para acompanhar a esposa em tempo integral, o que apertou ainda mais o orçamento de uma casa no interior do Alto Vale. É por isso que o perfil existe: além de registrar a rotina, ele é o canal por onde chegam as doações que ajudam a manter a agenda de terapias de pé.
Não é a primeira vez que o Brasil para para olhar
O caso já havia mobilizado o país antes. No Dia das Mães, um vídeo em que Laura narra o próprio cotidiano ao lado da mãe acamada e conta que quer ser médica para curar o AVC dela circulou por todo o Brasil. Semanas depois, foi a vez de outro registro tomar as redes: a menina pedalando na frente de casa só para mostrar à mãe que tinha aprendido sozinha. Cada um desses momentos trouxe uma leva nova de seguidores para o perfil, que hoje é acompanhado por centenas de milhares de pessoas.
O de agora tem um detalhe diferente dos anteriores. Nos outros, Laura mostrava as próprias conquistas para a mãe. Neste, ela inverte o papel e passa a cobrar a conquista da mãe. É a filha de 7 anos pedindo esforço, dando a instrução e esperando a resposta, com a paciência de quem não tem pressa. Vários comentários notaram isso e disseram a mesma coisa de formas diferentes: a menina que sonha em ser médica já está trabalhando.
Como ajudar
A família recebe doações pela chave Pix (47) 99739-6385, em nome de Luciani Paul Kerschbaum. As atualizações sobre o tratamento e a rotina são publicadas no perfil @laura_e_luana22, administrado pela irmã de Luana.
Não há previsão de alta nem prognóstico divulgado pela família sobre a recuperação da fala. O que existe, por enquanto, é a rotina: os atendimentos que precisam ser pagos todo mês, a casa organizada em torno da cama e uma menina de 7 anos que continua sentando de frente para a mãe todos os dias e pedindo que ela tente de novo.












































