Em 15 de novembro de 2025, um sábado, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, escreveu ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. A pergunta consta do acervo extraído do celular do banqueiro pela Polícia Federal e foi publicada nesta terça-feira (1º) pelo Estadão, na íntegra dos textos que Vorcaro endereçou ao ministro.
Na mesma mensagem, o banqueiro fez outras três perguntas: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”. A tela de metadados divulgada pelo jornal registra criação, modificação e acesso do arquivo às 21h22 de 15 de novembro de 2025, no horário universal.
Quarenta e oito horas depois, na noite de segunda-feira, 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta e, na sequência, a Dubai, onde pretendia fechar a venda do banco. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.

O juiz e o presidente do Banco Central
As duas referências da mensagem têm endereço. “Aquele mesmo juiz Ricardo” remete a Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, responsável pela ordem de prisão preventiva expedida contra o banqueiro. “Galípolo” é Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, autarquia que na semana seguinte liquidaria a instituição.
A troca não começou ali. Em 4 de novembro, quase duas semanas antes, Vorcaro já perguntava ao ministro: “Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”. E insistia: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”. Para investigadores e peritos ouvidos pelo Estadão, o teor sugere que o banqueiro estaria sendo informado sobre o cardápio de medidas cautelares que a Polícia Federal havia pedido contra ele.
Os pedidos de proteção
Em 30 de outubro, véspera do anúncio da alegada venda do banco a um consórcio, veio o pedido mais explícito: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qq coisa, só não pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farão algo em breve”. Relatório da PF identifica “Andrei” como Andrei Rodrigues, diretor-geral da corporação, e “Paulo” como Paulo Gonet, procurador-geral da República.
No mesmo 15 de novembro em que perguntou sobre sair do país, Vorcaro cobrou de novo: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”. No dia 16, às 16h57, cerca de cinco horas antes de ser detido, escreveu: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”.
No próprio dia da prisão, às 17h26, o banqueiro voltou a procurar o ministro para perguntar se havia “alguma novidade”. Em seguida, mandou: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Um limite técnico delimita o que existe no material. Os textos eram escritos no aplicativo de notas do celular, fotografados e enviados em modo de visualização única, que apaga a imagem depois da leitura. Por isso a investigação recuperou apenas o que Vorcaro enviou. Não há uma única resposta de Moraes no acervo, e nada nele indica que os pedidos tenham sido atendidos por Gonet ou por Andrei Rodrigues.
O despacho que irritou a PF
O desdobramento institucional chegou antes das mensagens virem a público. Na segunda-feira (31), o relator do caso Master no STF, ministro André Mendonça, enviou ofício à Procuradoria-Geral da República pedindo informações complementares sobre a anotação em que Vorcaro diz precisar da proteção de “Andrei e de Paulo”, com prazo de cinco dias para manifestação. O despacho foi revelado pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles.
O efeito dentro da Polícia Federal foi o oposto do pretendido pelo Palácio do Planalto. Segundo a coluna de Igor Gadelha, também do Metrópoles, membros da direção da corporação classificaram o despacho como “absurdo” e leram nele a intenção de investigar, na prática, Gonet, Andrei e Moraes. O movimento azedou mais uma vez a tentativa de trégua entre a PF e o relator, articulada pelo presidente Lula.
Essa trégua vinha sendo costurada desde agosto. O advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro da Justiça, Wellington César, atuam como mediadores desde uma reunião de 6 de agosto; o presidente do STF, Edson Fachin, chamou Andrei Rodrigues para conversar em 17 de agosto; e, no fim do mês, Lula determinou que o diretor-geral procurasse Mendonça. O encontro nunca saiu do papel. Em 28 de agosto, sem citar o ministro, Andrei disse que a atuação técnica e sem viés político é o que permite defender a instituição “de qualquer ataque, não importa de onde venha”.
O que pode acontecer no plenário
Em paralelo, a CNN Brasil informou que Mendonça avalia levar a Fachin um pedido formal de abertura de investigação contra Moraes e já mapeia votos. Como o alvo é ministro da Corte, só o plenário pode autorizar. A contagem atribuída a interlocutores dá a Mendonça os apoios de Fachin, Nunes Marques e Luiz Fux, e a Moraes os de Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes, com Cármen Lúcia indefinida e dúvida sobre a participação de Dias Toffoli. Nada foi protocolado até a publicação desta reportagem.
Alexandre de Moraes não é réu nem investigado formal no caso Master. Em março de 2026, quando os primeiros prints circularam, o ministro negou publicamente ter trocado mensagens com Vorcaro, e o STF sustentou que as mensagens de visualização única enviadas pelo banqueiro estariam vinculadas a contatos de outras pessoas. À época, peritos ouvidos pela imprensa apontaram lacunas na explicação. O material divulgado agora vem da extração oficial do aparelho, feita pela PF sob autorização judicial. Procurados, Moraes, Gonet, Andrei Rodrigues e a defesa de Vorcaro não se manifestaram.
O pano de fundo é o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master, cuja última versão foi editada em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, segundo metadados também revelados nesta terça. O acordo estava em vigor durante todo o período das mensagens, e o escritório já havia recebido mais de R$ 80 milhões quando Vorcaro perguntou se precisava estar fora do país.
A quebra do Master também bateu em Santa Catarina. Em Içara, no Sul do estado, o fundo de previdência dos servidores tinha R$ 3,3 milhões aplicados em papéis do banco quando veio a liquidação.














