Um casal de 22 anos foi preso em Criciúma, no Sul de Santa Catarina, depois que o filho de cinco meses chegou sem vida à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Rio Maina, na Rua Manoel Serafim Inácio, na manhã desta segunda-feira (31). Enquanto os dois permaneciam dentro da unidade de saúde, outro filho, um menino de quatro anos, foi encontrado sozinho e trancado dentro do carro em que a família havia chegado. É a segunda morte de um bebê do mesmo casal em cerca de um ano: em 2025, outro filho morreu em circunstâncias semelhantes, em ocorrência também registrada como morte acidental.
A Polícia Militar foi acionada pela Central Regional de Emergência para atender o que havia sido informado, inicialmente, como suspeita de homicídio culposo dentro da UPA. Quando a guarnição chegou, o bebê já estava morto. A médica que atendeu o caso relatou aos policiais que os pais conduziram a criança até a unidade já sem sinais vitais e que, pelo estado do corpo, o óbito havia ocorrido algumas horas antes, porque o bebê apresentava rigidez corporal.
Foi a própria equipe médica quem pediu a presença da Polícia Militar. Segundo a médica, os pais apresentaram versões divergentes sobre o que teria acontecido em casa nas horas anteriores. Ela relatou ainda que, ao contrário do que os dois descreveram, o bebê não apresentava sinais de vômito, e que havia uma lesão na região anal da criança, descrita como laceração.
Pai e mãe dão versões diferentes sobre a madrugada
À guarnição, a mãe contou que amamentou o filho por volta das 3h40 e que, nesse momento, o bebê teria se engasgado, sendo necessário fazer manobras de reanimação. Ainda conforme o relato dela, a criança voltou ao estado normal depois do procedimento. Ela então dormiu no sofá e deixou o bebê dormindo em outro cômodo. Por volta das 9h, segundo a mãe, o marido a avisou que a criança estava vomitada e sem sinais vitais. Os dois tentaram reanimar o filho, não conseguiram e o levaram à UPA.
O pai apresentou uma linha do tempo diferente. Contou que chegou em casa por volta das 6h30, depois de sair do trabalho, e que naquele momento o filho estava bem. Disse que dormiu cerca de duas horas e, ao voltar para verificar a criança, encontrou o bebê pálido e com vômito, já sem sinais vitais. Ele afirmou que tentou a reanimação junto com a companheira antes de levarem o filho até a unidade de saúde.
Menino de quatro anos passou duas horas trancado no carro
Durante o atendimento na UPA, os policiais descobriram que havia mais uma criança envolvida na ocorrência. O pai relatou que tinha deixado o menino de quatro anos, a quem se referiu como enteado, dentro do carro enquanto o casal permanecia na unidade. Conforme relatos colhidos pela guarnição com as enfermeiras e com o Conselho Tutelar, a criança ficou sozinha no veículo por cerca de duas horas, sem qualquer supervisão de um responsável, no mesmo período em que os pais estavam com o corpo do bebê dentro da UPA.
Ainda no atendimento, por questão de segurança, a guarnição pediu que o pai esvaziasse a blusa por causa de um volume suspeito. Com ele foram encontradas uma porção de substância semelhante à maconha, aproximadamente R$ 2.999 em espécie, uma chave de veículo, um controle remoto e um celular. O homem declarou aos policiais que é usuário de drogas e que portava a porção para consumo próprio.
Diante do conjunto dos fatos, a Polícia Militar deu voz de prisão aos dois pelo crime de abandono de incapaz e os conduziu à Central de Polícia. A ocorrência foi registrada como morte acidental, abandono de incapaz e posse de entorpecentes. O casal foi recolhido na mesma segunda-feira e permanece na Central de Audiência de Custódia de Criciúma. Ele tem 22 anos, é natural da cidade e trabalha como servente de pedreiro. Ela também tem 22 anos, é natural de Criciúma e está registrada como dona de casa.
A morte de 2025 na UBS Mina do Mato
Foi durante o atendimento que veio à tona a morte anterior. Ao apurar a situação da família, o Conselho Tutelar identificou que o casal já havia perdido outro filho em 2025, em ocorrência também classificada como morte acidental. O órgão informou que o bebê tinha sete meses; para a Polícia Militar, a criança tinha seis meses de vida.
A cena de 2025 tem semelhanças diretas com a desta segunda-feira. Por volta das 13h10, uma mulher entrou gritando na Unidade Básica de Saúde do bairro Mina do Mato com um bebê desacordado no colo, dizendo que a criança estava afogada. A técnica em enfermagem que estava na recepção pegou o bebê e o levou para uma sala. A enfermeira responsável pela unidade iniciou as manobras de desengasgo e, em seguida, o médico da UBS entrou e assumiu o atendimento.
Ao examinar o bebê, o médico percebeu que não se tratava de engasgo. A criança estava com o tônus muscular flácido, sem pulso e cianótica, com a coloração arroxeada característica da falta de oxigênio. Os bombeiros chegaram cerca de dez minutos depois, preparados para o desengasgo, mas o quadro exigia suporte avançado. Foi preciso esperar o SAMU para entubar o bebê e administrar a medicação. Somadas, as tentativas de ressuscitação duraram cerca de 45 minutos, aproximadamente 15 minutos pela equipe da unidade e pelo menos 30 minutos pelo SAMU. O bebê não voltou. A equipe da UBS relatou à Polícia Militar que ninguém soube informar havia quanto tempo a criança estava naquele estado.
Assim como no caso desta semana, os relatos dos pais em 2025 não coincidiram. O pai contou que a mãe deu fórmula em mamadeira ao bebê e o colocou no berço do quarto do casal, e que ele mesmo sugeriu que ela fosse ao mercado levando a criança. Disse que foi ao quarto buscar o bebê para colocá-lo no bebê conforto e o encontrou mole, e que saiu correndo para chamar a esposa, que teria tentado reanimar o filho com batidas nas costas. Segundo ele, entre a mamada e o momento em que pegou a criança passaram cerca de 15 minutos, por volta das 12h45. Afirmou ainda que o bebê tinha marca de leite na boca, mas que não sabia dizer em que momento teria se afogado, e que a criança tinha problemas na língua.
A mãe deu outra versão. Contou que deu a mamadeira, fez o bebê arrotar, o colocou no berço com a cabeça virada para cima e foi conversar com o marido, que teria dito que havia conseguido dinheiro para ela ir ao mercado. Segundo ela, já estava no mercadinho perto de casa quando o marido chegou gritando que o filho não respirava. Ela correu de volta e encontrou o bebê roxo. O dono da mercearia e a esposa dele levaram mãe e criança até o posto de saúde, e as tentativas de reanimação continuaram no caminho.
Enquanto isso, segundo o relato do pai, ele ficou em casa com o filho mais velho, então com três anos, a mesma criança que, um ano depois, seria encontrada trancada sozinha no carro em frente à UPA do Rio Maina. Ele afirmou que só se deslocou ao posto de saúde depois de deixar o menino com uma vizinha, e que lá soube do óbito. A vizinha citada nos relatos do casal não chegou a ser identificada pela Polícia Militar.
Na ocorrência de 2025, a Polícia Civil compareceu ao local por meio de um agente da Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI). A Polícia Científica, por sua vez, informou que não faria o deslocamento por se tratar de morte acidental. Ou seja, não houve perícia no local onde o bebê foi encontrado.
O que acontece agora
Para a Polícia Militar, o histórico das duas ocorrências evidencia reincidência de negligência nos cuidados com os filhos. O Conselho Tutelar, que acompanhou o atendimento desta segunda-feira, afirmou que a causa da morte do bebê de cinco meses ainda não está esclarecida.
A gente não sabe a causa, a gente não sabe o que aconteceu com esse bebê. Segundo a mãe, ele se afogou
O órgão também confirmou a descoberta da criança sozinha no carro. “Perguntamos pelo terceiro, que é um menino mais velho, de quatro anos, e descobrimos que ele estava sozinho dentro do carro”, relatou. O menino foi retirado do veículo, passou por atendimento do Conselho Tutelar e ficou inicialmente sob os cuidados de uma familiar. Com a prisão do casal, foi encaminhado a uma família acolhedora, onde permanece sob medida de proteção.
A gente já colocou numa família acolhedora, onde essa criança vai ficar sob cuidados e com certeza está bem cuidada
O corpo do bebê de cinco meses foi recolhido pela Polícia Científica, que vai realizar os exames necessários para determinar a causa da morte. A Polícia Militar acionou a Polícia Civil ainda durante o atendimento na UPA, mas a corporação não compareceu ao local. As duas mortes seguem sob investigação, e o resultado da perícia deve definir o rumo do inquérito e o enquadramento definitivo do casal.














