O ministro Alexandre de Moraes, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, editou a última versão do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório de advocacia da mulher dele, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. É o que indicam os metadados do arquivo, extraídos do celular do banqueiro pela investigação e publicados nesta terça-feira (1º) pelo Estadão.
Segundo os registros, o documento foi salvo às 23h04 de 15 de janeiro de 2024, num perfil do Office 365 identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. Cerca de uma hora e quarenta minutos antes, Vorcaro havia devolvido a minuta a Viviane pelo WhatsApp, com uma cláusula acrescentada. A versão final voltou para o banqueiro no dia 17, e a assinatura ocorreu em 23 de janeiro de 2024.
O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro acessou e editou o arquivo. Em nota, sustentou que o setor de compliance pediu a ele, na condição de marido da sócia-diretora, informações sobre eventuais impedimentos legais à contratação, como a existência de ações do Master sob sua relatoria ou de julgamentos de interesse do cliente. Diante da resposta de que não havia impedimento, afirma o escritório, o contrato foi assinado e os serviços, prestados. A nota também diz que Moraes jamais julgou causa envolvendo o Banco Master.
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O que diz o contrato
O contrato prevê 36 parcelas mensais e sucessivas de R$ 3 milhões líquidos, o que soma R$ 108 milhões. Uma cláusula estabelece que o valor é livre de impostos, elevando cada parcela para R$ 3.646.529,77 no bruto, R$ 131.274.351,72 no total. Foi assim que ele passou a ser noticiado. Em dezembro de 2025, quando O Globo revelou a existência do acordo, o número que circulou foi R$ 129 milhões.

De acordo com dados do Imposto de Renda do Master enviados à CPI do Crime Organizado do Senado, o escritório recebeu 22 parcelas entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, num total de R$ 80.223.653,84. Os pagamentos foram interrompidos com a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco.
O escopo previsto no contrato, segundo a versão revelada em dezembro, incluía atuação perante o Banco Central, a Receita Federal, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e o Cade, além de acompanhamento de projetos no Legislativo. Viviane Barci afirmou ter atuado como consultora jurídica, com produção de pareceres técnicos e orientação sobre relacionamento institucional com o poder público.
Os pedidos do banqueiro
A mesma extração do celular embasa outra reportagem publicada pelo Estadão nesta terça. Ela reúne mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro entre 30 de outubro e 16 de novembro de 2025, período em que o contrato estava em vigor e o escritório já havia recebido dezenas de milhões.

Nos textos, o banqueiro pede reiteradamente que o interlocutor fale com “Andrei” e “Paulo”. Relatório da Polícia Federal identifica os dois como Andrei Rodrigues, diretor-geral da corporação, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
Em 30 de outubro, véspera do anúncio da alegada venda do banco a um consórcio, Vorcaro escreveu que era importante reforçar com Andrei e Paulo para que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem” com o Master. Em 15 de novembro, dois dias antes da primeira prisão, veio outra cobrança: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.” No dia 16, às 16h57, cerca de cinco horas antes de ser detido, escreveu: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível.”
Ainda segundo a apuração, cerca de 20 dias antes da primeira ordem de prisão, Vorcaro teria repassado ao ministro uma lista com quatro delegados e três procuradores responsáveis pelas apurações preliminares, com menção a pressão sobre o Banco Central.

Dois pontos técnicos delimitam o que existe no material. Os dois trocavam conteúdo em modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular. Por isso a investigação recuperou apenas o que Vorcaro enviou: não há respostas de Moraes no acervo. Para os investigadores, o teor e o momento dos apelos indicam que o banqueiro sabia da primeira fase da operação Compliance Zero antes da deflagração, avaliação de quem apura e não fato provado.
O ofício de Mendonça
Na segunda-feira (31), o relator do caso Master no STF, ministro André Mendonça, enviou ofício à Procuradoria-Geral da República pedindo informações complementares sobre uma das mensagens, aquela em que Vorcaro diz precisar da “proteção” de Andrei e Paulo. O despacho estabelece prazo de cinco dias para a manifestação. A informação foi revelada pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles, e confirmada pela CNN Brasil com duas fontes que acompanham a investigação.
A anotação foi localizada pela PF no fim de outubro de 2025. No mesmo texto, segundo o relatório policial, o banqueiro relatou ter recebido informações sigilosas de integrantes do Banco Central e afirmou que “G”, identificado pelos investigadores como Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, e outros diretores estariam sob pressão da PF e do Ministério Público Federal para adotar alguma medida contra o Master.
O destinatário não aparece identificado no material recuperado. A pedido de Mendonça, a Polícia Federal apurou o ponto e concluiu, após diligências preliminares, que as mensagens eram dirigidas a Alexandre de Moraes. O relatório conclusivo sobre o episódio já foi entregue à PGR.
A PF também identificou uma segunda conversa, na manhã de 17 de novembro, horas antes da prisão em Guarulhos. Nela, Vorcaro escreveu ao ministro: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade?” Os investigadores localizaram ainda registros de telefonemas entre os dois.
Leia também: Vorcaro consultou Moraes sobre deixar o Brasil dois dias antes de ser preso, revelam mensagens da PF
O que pode acontecer no Supremo
Ainda nesta terça, a CNN Brasil informou que Mendonça avaliou, em conversas com interlocutores, considerar graves as novas revelações e estuda levar ao presidente do STF, Edson Fachin, um pedido formal de abertura de investigação contra Moraes. Segundo a reportagem, aliados já mapeiam votos. Por se tratar de ministro da Corte, apenas o plenário pode autorizar uma apuração desse porte. Além das mensagens, a informação de que Moraes teria manuseado o contrato é tratada nesse círculo como passível de investigação.
Nada disso foi protocolado até a publicação desta reportagem. A contagem de votos atribuída a interlocutores dá a Moraes o apoio de Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes, e a Mendonça os de Fachin, Nunes Marques e Luiz Fux, com Cármen Lúcia indefinida. Há dúvida sobre a participação de Dias Toffoli.
Toffoli era o relator do caso até 12 de fevereiro deste ano, quando deixou a função após um relatório da PF citar negócios da empresa da família dele com um fundo ligado a Vorcaro. Os dez ministros declararam não haver suspeição e validaram os atos que ele havia praticado. Mendonça assumiu a relatoria na sequência.
O que o material não mostra
A existência da mensagem não comprova que Paulo Gonet ou Andrei Rodrigues tenham oferecido proteção, concedido benefício ou praticado qualquer irregularidade. O que existe, até aqui, é o pedido feito por Vorcaro. Nada no acervo indica que ele tenha sido atendido.
Alexandre de Moraes não é réu nem investigado formal no caso Master. Ele é citado nas mensagens e nos registros do contrato. Em março de 2026, quando prints começaram a circular, o ministro negou publicamente ter trocado mensagens com Vorcaro, e o STF afirmou que uma análise técnica não localizou troca com o número dele. À época, peritos ouvidos pela imprensa apontaram inconsistências na explicação. O material agora divulgado vem da extração oficial do aparelho.
Também é preciso distinguir quem recebeu o dinheiro: o contrato foi firmado com o escritório Barci de Moraes, do qual Viviane é sócia-diretora. A ligação do ministro com o documento, segundo os metadados, é de edição do arquivo.
Procurados pelas reportagens, Moraes, Gonet, Andrei Rodrigues e a defesa de Vorcaro não se manifestaram. Os criminalistas Pierpaolo Cruz Bottini e Roberto Podval, citados nas mensagens, também foram procurados e não comentaram. A defesa do banqueiro já pediu ao STF a apuração do vazamento do conteúdo do celular.
Entenda o caso
Vorcaro foi preso pela primeira vez na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar para Dubai. No dia seguinte, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Compliance Zero e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Ele foi solto no fim daquele mês por decisão do TRF-1 e voltou a ser preso em 4 de março de 2026, na terceira fase da operação. Está no 19º Batalhão da PMDF, em Brasília, e teve duas propostas de delação rejeitadas.
A operação chegou à décima fase e alcançou o senador Ciro Nogueira, o ex-governador do Rio Cláudio Castro e o pai do banqueiro, Henrique Vorcaro. A PF projeta que a apuração pode chegar a 60 fases. A fraude estimada no Master é de R$ 12 bilhões, com títulos sem lastro e manipulação de ativos. O custo para o Fundo Garantidor de Créditos soma R$ 51,8 bilhões, somando Master, Will Bank e Pleno, com oito instituições em liquidação e estimativa inicial de 1,6 milhão de pessoas atingidas.
Segundo o Poder360, Mendonça já registrou que as investigações apontam para a maior fraude financeira do país, “com contornos de operações mafiosas”.






















