Chapecó acordou com um arco-íris aberto no céu nesta sexta-feira (11) e, cerca de uma hora depois, estava embaixo de uma tempestade com vento forte e chuva pesada. No intervalo entre as duas cenas, os canhões do sistema antigranizo entraram em ação e a cidade atravessou o temporal sem registro de queda de granizo.
A virada foi rápida. Enquanto um morador registrava o arco-íris entre nuvens douradas em uma rua de loteamento, a Defesa Civil de Santa Catarina já preparava a primeira das quatro comunicações que emitiria antes das oito da manhã para o Oeste do estado.
Às 6h57 saiu o alerta vermelho, de risco muito alto, com previsão de temporal com raios, rajadas de vento, granizo e alagamentos para as duas horas seguintes em Chapecó, Caibi, Caxambu do Sul, Coronel Freitas, Cunha Porã, Cunhataí, Guatambu, Maravilha, Modelo, Nova Erechim, Nova Itaberaba, Palmitos, Pinhalzinho, Planalto Alegre, Saudades, São Carlos, União do Oeste, Águas Frias e Águas de Chapecó.
Às 7h17 veio o segundo alerta, ampliando a área para Anchieta, Bom Jesus do Oeste, Campo Erê, Formosa do Sul, Irati, Jardinópolis, Novo Horizonte, Palma Sola, Quilombo, Romelândia, Saltinho, Santa Terezinha do Progresso, Santiago do Sul, Serra Alta, Sul Brasil, São Bernardino, São Lourenço do Oeste e Tigrinhos. Às 7h23, o terceiro colocou Chapecó de novo na lista, junto de Cordilheira Alta, Itá, Paial e Seara, com validade até 9h23.
Às 7h42, a Defesa Civil emitiu o quarto comunicado, desta vez de atenção, estendendo o risco para as regiões do Oeste, Meio Oeste, Planalto Norte e Planalto Sul até as 10h42.
No chão, o céu escureceu de uma hora para outra, a chuva chegou em pontos da cidade e vídeos gravados por moradores mostram a intensidade da passagem, com vento forte e visibilidade reduzida.
Foi nesse intervalo que os canhões antigranizo começaram a disparar. O barulho foi percebido de bairros diferentes e virou assunto imediato entre moradores, entre quem comemorou a atuação do sistema e quem disse não ter escutado estouro nenhum na própria região.
A estrutura de Chapecó é formada por três equipamentos. Dois ficam no bairro Efapi, um na Rua Quilombo e outro no Loteamento Alice, e o terceiro atende o distrito de Marechal Bormann. A cidade foi a primeira da América Latina a usar a tecnologia para proteger área urbana, e não apenas lavoura.
O funcionamento é preventivo. Na base do canhão, uma mistura de gás acetileno e oxigênio provoca explosões controladas que geram ondas de choque em direção às nuvens, capazes de alcançar até 15 mil metros de altitude. Os disparos se repetem a cada sete segundos, e a proposta é interferir na formação das pedras de gelo antes que elas cresçam e cheguem ao solo.
O acionamento ocorre quando o monitoramento meteorológico identifica nuvens com potencial de granizo, em geral diante de previsão de chuva próxima de 50 milímetros. O sistema não impede a tempestade, mas atua para reduzir os danos, e foi exatamente o cenário desta manhã: chuva forte, vento e nenhuma pedra de gelo no chão.
O ruído também tem explicação. O estouro é comparado pela Defesa Civil ao som de um tiro de revólver calibre 22, e a estrutura montada no entorno reduz o barulho de 92 para 72 decibéis. Moradores das proximidades receberam material impresso e um grupo de WhatsApp foi criado para avisar quando o equipamento entra em operação, justamente para evitar o susto.
A instabilidade desta sexta está ligada à formação de um ciclone extratropical próximo ao litoral do Rio Grande do Sul, que mantém o tempo carregado em boa parte de Santa Catarina, com risco de vendaval, granizo e tempestades severas localizadas ao longo do dia. A orientação é evitar deslocamentos durante as rajadas, ficar longe de janelas, árvores, placas e postes e não atravessar ruas alagadas ou pontilhões submersos. Ocorrências devem ser comunicadas pelo 199 ou pelo 193.















