Uma shelf cloud gigantesca tomou o céu do interior de Abelardo Luz, no Oeste catarinense, na tarde desta sexta-feira (11). O piloto de drone Edi Rissi registrou o momento em que a formação avança sobre as lavouras do município, esticada de ponta a ponta do horizonte e com a base quase encostando na linha do campo.
Nas imagens, o contraste é o que chama atenção: de um lado, uma muralha cinza que escurece tudo por onde passa; do outro, o trigo e o pasto ainda iluminados pelo sol, com uma árvore isolada no meio da lavoura e as marcas do maquinário desenhadas no solo.
A shelf cloud, ou nuvem prateleira, é a borda visível da frente de rajada de um temporal. Ela se forma quando o ar frio que desce da tempestade avança junto ao chão e empurra o ar quente e úmido para cima, criando aquela prateleira horizontal na dianteira da chuva. Não é tornado nem funil, mas funciona como aviso: logo atrás dela vêm rajadas fortes de vento, chuva pesada e, em muitos casos, granizo.
O registro aconteceu no mesmo dia em que a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil (SDC/SC) colocou praticamente todo o território catarinense em alerta vermelho, o nível de risco máximo. O Oeste, onde fica Abelardo Luz, está entre as regiões marcadas em vermelho no mapa divulgado pelo órgão.
A atualização do Aviso Especial Hidrometeorológico, de número 163/2026, foi elaborada às 10h e vale até as 23h59 desta sexta-feira. O documento classifica o risco como alto a muito alto em todo o estado e aponta indicativo de tempestades severas de forma localizada, com descargas elétricas, rajadas intensas de vento e queda de granizo.
A causa é um ciclone extratropical que se consolidou no oceano, posicionado entre o litoral de Santa Catarina e o do Rio Grande do Sul, associado à passagem de uma frente fria. O sistema empurra ar quente e úmido contra o continente e alimenta as linhas de temporais que cruzaram o estado desde a madrugada.
O Grande Oeste foi a primeira região a sentir. Ainda na madrugada, municípios como Erval Velho, Piratuba, São Carlos, Itapiranga e Chapecó registraram temporais com granizo. Em Chapecó, a prefeitura contabilizou cerca de 40 milímetros de chuva em apenas uma hora, acionou a sala de crise e somava perto de 15 atendimentos classificados como urgentes e graves.
Durante a manhã, a Defesa Civil passou a emitir alertas de curtíssimo prazo em sequência para o Oeste. Abelardo Luz entrou em um dos avisos de temporal com raios, rajadas de vento, granizo e alagamentos, ao lado de Chapecó, Xanxerê, Xaxim, Seara, Itá, São Lourenço do Oeste, Ponte Serrada e Água Doce, entre outras cidades da região.
O boletim estadual indica rajadas que podem superar 90 quilômetros por hora, com condição mais intensa entre o Grande Oeste, o Vale do Itajaí, o Planalto Norte e o Litoral Norte. As ocorrências esperadas são alagamentos urbanos, enxurradas pontuais, destelhamentos, danos graves na rede elétrica e queda de árvores e galhos.
Para quem vive da terra em Abelardo Luz, a cena não é nova. No fim de agosto, uma sequência de temporais com granizo atingiu a região de Xanxerê e o município registrou destelhamentos e avarias em estrutura rural. Cidades vizinhas chegaram a decretar situação de emergência para socorrer moradores que ficaram sem telhado.
O episódio mais grave dos últimos anos foi em junho do ano passado, quando uma tempestade de madrugada deixou um rastro de danos na cidade. O Corpo de Bombeiros prestou mais de 300 atendimentos, 92 construções foram atingidas, 11 pessoas ficaram desalojadas e o município decretou situação de emergência. Na ocasião, o radar meteorológico de Chapecó apontou Abelardo Luz como o ponto de maior força de uma linha de instabilidade.
A previsão indica que a instabilidade segue ao longo de toda a sexta-feira, com chance de novos temporais em diferentes regiões catarinenses. No sábado (12), a frente fria se afasta e o quadro tende a melhorar, com redução das pancadas de chuva.
A orientação da Defesa Civil durante os temporais é buscar abrigo em local seguro, longe de janelas e de objetos que possam ser arremessados pelo vento, e nunca atravessar ruas alagadas ou pontes submersas. Ocorrências devem ser comunicadas à Defesa Civil pelo 199 ou ao Corpo de Bombeiros pelo 193.
















