O caso da candidata petista Fernanda Klitzke, atingida por disparos de bala de borracha durante uma abordagem da PMSC em Jaraguá do Sul, foi parar no último debate entre os candidatos ao governo de Santa Catarina. Na noite desta terça-feira (29), na NSC TV, Gelson Merisio (PSB), candidato apoiado por Lula e pelo PT, usou o episódio para encurralar João Rodrigues (PSD) e cobrou punição aos policiais. O ex-prefeito de Chapecó não entrou na tese e saiu em defesa da Polícia Militar.
A provocação começou na pergunta de Merisio. Ele afirmou que, nos últimos anos, o Estado acompanhou imagens de autoridades catarinenses “exaltando a violência” e ligou isso ao bolso: segundo ele, Santa Catarina teve no ano passado “a pior temporada de turismo da nossa história”. Na sequência, quis saber como João pretende recuperar a imagem de Estado acolhedor, que, na visão do candidato do PSB, foi desperdiçada por “mensagens equivocadas” de violência, racismo e ódio.
Antes de responder, João cumprimentou a esposa, Fabiana, e as filhas, Caroline e Maria Paula, e disse que elas passaram por “um momento muito difícil” nesta semana. O desabafo tem contexto: a propaganda de Jorginho Mello (PL) resgatou imagens da prisão de João em 2018, decisão depois revertida pelo STF, e Fabiana gravou um vídeo emocionado nas redes sociais relembrando o sofrimento da família naquele período.
Na resposta, João puxou o tema para o feminicídio. Disse que Santa Catarina já aparece entre os principais Estados do país nesse tipo de crime e que ainda não há uma política pública estadual para enfrentá-lo. Depois, rejeitou o rótulo levantado pelo adversário: “Santa Catarina não é um Estado racista, eu não concordo com Estado racista. É o melhor Estado do Brasil, de um povo que trabalha, de um povo ordeiro, de um povo guerreiro.”
O candidato do PSD admitiu a existência de “ações isoladas” e cobrou postura de quem está no comando. “Não cabe ao prefeito de uma cidade ou ao governador de Estado se precipitar. Tem que ter muita calma, muito equilíbrio”, afirmou, atribuindo parte do problema ao que chamou de rivalidade política do extremismo.
Foi na réplica que Merisio colocou Jaraguá do Sul na mesa. Chamando Fernanda de “uma candidata nossa”, ele disse que ela foi “brutalmente agredida a chutes com tiros de bala de borracha com 50 centímetros de distância”. Para Merisio, os dois policiais envolvidos erraram e deveriam ter sido afastados e reciclados, mas o que se ouviu das autoridades foi que o caso “foi uma armação política”. “Como é que um turista, como é que um cidadão de fora do Estado vê aquilo e acha normal que uma autoridade não tome uma providência”, questionou.
João devolveu na tréplica sem recuar. “Eu quero aqui tratar como fato isolado, isso é em defesa da gloriosa Polícia Militar, que apesar do pequeno efetivo, se comparado ao crescimento da população, desenvolve um trabalho extraordinário”, disse. Para ele, o caminho é outro: “A primeira providência de quem lidera é determinar a apuração dos fatos pela Corregedoria, para depois ter uma conclusão e também punir, obviamente, quando há o excesso.”
O ex-prefeito ainda mandou um recado para quem, segundo ele, se antecipa nas redes sociais antes de qualquer apuração. Ressalvou que não falava especificamente do caso de Jaraguá e citou outro episódio: “O Cão Orelha é um exemplo claríssimo do que aconteceu, onde nós fomos expostos para o Brasil e para o mundo.” E completou dizendo que ainda há respostas que precisam ser dadas à sociedade catarinense. O cão comunitário foi morto em janeiro na Praia Brava, em Florianópolis. A Polícia Civil chegou a pedir a internação de um adolescente, mas o Ministério Público pediu o arquivamento, sob o argumento de que as perícias indicaram que o animal e os adolescentes não estiveram juntos.
O caso citado por Merisio aconteceu na noite de 12 de setembro, em Jaraguá do Sul. A PMSC foi chamada por causa de som alto numa comemoração de aniversariantes ligados ao PT, após reclamação de uma vizinha, mãe de uma criança autista. Segundo a corporação, houve ameaças e resistência física, e Fernanda e outra mulher teriam interferido na condução de um dos detidos e segurado uma policial, o que levou ao uso de técnicas de contenção e munição de menor potencial ofensivo. Fernanda, advogada de 47 anos e segunda suplente de Décio Lima (PT) na disputa pelo Senado, afirma que estava ali para acompanhar a ocorrência como advogada. Vídeos mostram a candidata sendo derrubada e atingida pelos disparos; ela também diz ter sido supostamente atingida por chutes.
O episódio virou munição de campanha. A Corregedoria-Geral da PMSC abriu apuração, o PT acionou a Polícia Federal, que instaurou inquérito, e o presidente Lula ligou para Fernanda, numa conversa divulgada nas redes do próprio Merisio. Do outro lado, o governador Jorginho Mello saiu em defesa dos policiais, e na Assembleia Legislativa o deputado Sargento Lima (PL) propôs moção de aplausos aos PMs do 14º Batalhão pela atuação naquela noite.
O debate da NSC TV, mediado por Fabian Londero, reuniu Jorginho Mello (PL), João Rodrigues (PSD), Gelson Merisio (PSB) e Ralf Zimmer (PRD). Foi o último encontro entre os candidatos antes do primeiro turno, e na mesma noite João e Jorginho também trocaram acusações sobre o uso da prisão de 2018 na propaganda do governador.
As investigações sobre a abordagem em Jaraguá do Sul seguem na Corregedoria da PMSC e na Polícia Federal, sem conclusão até agora. Os catarinenses vão às urnas no domingo, 4 de outubro. Se houver segundo turno para o governo, a nova votação será em 25 de outubro.























