Desde que transferiu o título eleitoral do Rio de Janeiro para Santa Catarina, Carlos Bolsonaro (PL) ouve dos adversários que não conhece o estado que quer representar no Senado. Pois a campanha dele resolveu o problema do jeito mais literal possível: contratou uma GPS. A G P S Consultoria, Projetos e Obras Ltda, de Concórdia, no Oeste catarinense, recebeu R$ 150 mil para organizar eventos, reuniões, passeatas e carreatas nos municípios de Santa Catarina.
A coincidência tem história. As campanhas de Esperidião Amin (PP) e Antídio Lunelli (MDB), que disputam a mesma vaga, ironizam Carlos dizendo que “não precisam de GPS para andar em Santa Catarina”. A provocação mira o fato de ele ser carioca, ter feito toda a carreira política como vereador no Rio de Janeiro e só ter transferido o título eleitoral para São José no fim de 2025. Em julho, em entrevista ao Jornal Razão, Lunelli disse que Amin “não precisa de GPS para andar em Santa Catarina” e “sabe cada pedra onde está”. Nos bastidores, confirmou que o recado era para Carlos, que já tinha rebatido em vídeo a crítica de que não seria catarinense.
O contrato está na prestação de contas parcial que a campanha entregou à Justiça Eleitoral. A nota fiscal, de número 28, foi emitida em 26 de agosto, um dia depois de o candidato receber o primeiro repasse do fundo eleitoral, e foi paga em 28 de agosto. A despesa entrou na rubrica “eventos de promoção da candidatura” e é, até agora, o único gasto da campanha nessa categoria. Ou seja: é a GPS que monta o roteiro dos atos de rua de Carlos pelo estado.
O dinheiro vem todo do fundão. Carlos recebeu R$ 4,3 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha em dois repasses de R$ 2,15 milhões da direção nacional do PL, em 25 de agosto e 17 de setembro. Não há doação de pessoa física nem recurso próprio declarado. Com esse valor, ele é o quarto que mais arrecadou entre os 655 candidatos de Santa Catarina com movimentação financeira.
Até a última entrega ao TSE, a campanha havia comprometido R$ 2,95 milhões em 19 despesas. A maior fatia foi para produção de rádio, TV e vídeo: R$ 1 milhão para a Ventura Estúdio e R$ 500 mil para cada uma das agências Forma Consultoria em Marketing e Reditus Comunicação. Adesivos, santinhos e folhetos impressos na gráfica Exact, de Saquarema, no Rio de Janeiro, somam outros R$ 605,4 mil. Os R$ 150 mil da GPS representam 5,1% do total contratado.
Apesar do nome, a GPS não é empresa de navegação. Aberta em maio de 2005, funciona numa sala comercial na Rua Doutor Maruri, no Centro de Concórdia, e usa o nome fantasia GPS Certificação Digital. É registrada como empresa de pequeno porte, com capital social de R$ 50 mil. No cadastro da Receita Federal, a atividade principal é consultoria em gestão empresarial, e as secundárias incluem serviços de engenharia, perícia técnica em segurança do trabalho, consultoria em tecnologia da informação, agência e consultoria de publicidade e produção de filmes publicitários. Organização de eventos não está entre as atividades registradas.
O sócio-administrador é Aldocir Onetta, no quadro da empresa desde 2009. Desde setembro de 2025, a GPS tem um segundo sócio, Jonathan Riva. Antes da campanha, a empresa já havia prestado serviços a prefeituras do Oeste catarinense, como a de Ipira.
A ligação da GPS com o PL, porém, vem de antes. Nos dados abertos da Câmara dos Deputados, a empresa aparece como fornecedora do gabinete do deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) desde fevereiro de 2023, primeiro mês do mandato dele. Foram 39 notas fiscais pagas com a cota parlamentar, todas classificadas como “divulgação da atividade parlamentar”, que somam R$ 384 mil. Os pagamentos começaram em R$ 3,5 mil por mês e chegaram a R$ 17 mil em junho de 2026.
Em uma das notas, de dezembro de 2023, no valor de R$ 6,5 mil, a empresa descreve o serviço como produção de cards, artes e vídeos para os perfis do deputado no Instagram, no X, no Facebook e no TikTok. O documento, emitido pela Prefeitura de Concórdia e publicado no portal da Câmara, traz a observação de que a nota foi quitada com pagamento em espécie.
Delegado de polícia, Bilynskyj está no primeiro mandato, preside a Comissão de Segurança Pública da Câmara desde 2025 e é um dos aliados mais próximos da família Bolsonaro: em dezembro de 2025, foi ele quem leu, em vídeo, a carta em que Jair Bolsonaro indicou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Além do gabinete dele, a única outra passagem da GPS pela cota parlamentar desde 2023 foi um pagamento de R$ 18 mil do deputado catarinense Celso Maldaner (MDB), em janeiro de 2023. Na eleição catarinense deste ano, Carlos é o único candidato que declarou contrato com a empresa.
A legislação eleitoral permite contratar empresas para organizar eventos de campanha, desde que a despesa seja declarada com fornecedor, valor e nota fiscal, o que a campanha fez. Os relatórios entregues durante a disputa são parciais, e a prestação de contas final só é julgada depois da eleição, marcada para 4 de outubro.
O espaço segue aberto para manifestação da campanha de Carlos Bolsonaro e da GPS.























